A doce relação com a literatura


Por meio da literatura é possível expressar inquietações e insatisfações de uma época, ela é capaz de empregar a linguagem de forma peculiar de tal modo que transforme e intensifique a linguagem comum. A literatura é a realidade recriada através do artista e retransmitida através da língua. Não é sempre eterna no sentido de imutável, pois pode não ter sido considerada literatura em uma época e hoje sim, ou o contrário.

Jean-Paul Sartre, em seu livro O que é literatura?, destacou a relação profunda existente entre esse campo e seu envolvimento com as palavras. “Uma coisa é trabalhar com sons e cores, outra é expressar-se com palavras” [1]. Sartre estava formulando que por meio da pintura ou da música não se consegue exprimir exatamente o que se gostaria: o objeto artístico sofreria degradações, perdas de significados. Entretanto, com as palavras se consegue demonstrar exatamente as ideias do filósofo.

A literatura “humaniza, isto é, permite que os sentimentos passem do estado de mera emoção para o da forma construída [esta] permitiu que o conteúdo ganhasse maior significado e ambos aumentaram a nossa capacidade de ver e sentir”[2]. Por meio dela, o homem se torna autoconsciente e capaz de compreender o mundo, capaz de criar, pensar e mesmo transformar. A experiência literária pode ser bastante pessoal; entretanto isso não impede de afirmar que, em geral, nos faz vivenciar diferentes realidades e situações, produzindo um aprendizado.


Como forma de ilustrar a minha incrível relação com a literatura compartilho a história A menina que roubava livros, que é uma adaptação cinematográfica feita por Brian Percival, e remonta à época da Segunda Guerra Mundial, momento do holocausto, quando uma menina chamada Liesel Meminger sobrevive fora de Munique através dos livros que ela rouba. Logo no início da história, na cena do cemitério, no enterro de seu irmão, ela rouba o primeiro. Era o manual do coveiro de como enterrar bem um caixão. Ainda sem saber ler, Liesel atribui uma espécie de afeição pelo livro.

Acredito que livros foram feitos para serem lidos, mas antes devem ser apreciados, deve haver incentivo ou mesmo uma vontade pessoal de querer ler. Para isso é proveitoso poder escolher o que lhe agrada mais como leitura na fase inicial.

A menina Liesel aprende a ler e começa a partilhar as obras com seus amigos e os lê inclusive para o judeu que vive clandestinamente em sua casa. Ela é um grande exemplo de afeição pela leitura, onde um livro leva a outro cada vez mais.

Outro romance que gostaria de citar é Uma real leitora, do escritor Alan Bennett, que reflete bem a importância da literatura para a vida. A história se passa na Inglaterra e a personagem principal é a Rainha Elizabeth II. Um belo dia, ela escuta um de seus cachorros latindo animadamente e vai até a varanda do palácio para verificar o que está acontecendo. A rainha descobre que latiam por causa de um furgão estacionado ali. Curiosa, vai verificar e, para sua surpresa, aquele furgão é uma biblioteca itinerante de Westminster. A partir desse momento, nasce uma grande paixão pela leitura na rainha.

Ao longo do livro, esse súbito interesse dela pela leitura começa a provocar incômodo nos outros que estão à sua volta e como a leitura vai tornando, progressivamente, a rainha mais sensível. A primeira leitura da rainha não foi fácil, pois a linguagem do livro que escolheu era diferente da que estava acostumada. Muitos jovens passam pelas mesmas sensações, nem sempre se gosta logo de início ou se entende tudo em uma primeira leitura, mas essa etapa não pode impedi-los de seguir em frente. Não importa ao certo o que leem desde que se adquira habilidade e prazer na leitura.

No caso da rainha, tem-se que ela foi criada para começar e terminar algo: apesar de suas dificuldades com o primeiro livro ela o termina mesmo assim. Quando o personagem Norman pergunta à rainha em que página do livro está ela responde:

“– Ah, até o final. Quando começamos um livro, terminamos.

Assim é que fomos educados. Livros, pão com manteiga,

purê de batatas, come-se tudo o que está no prato.

Foi sempre a minha filosofia.”[3]

Depois de outros textos, a leitura vai se tornando mais ativa e mais clara, e o poder da literatura aparece. Como exemplo da rainha, depois de imergir nesse mundo ela obtém contentamento nas leituras a ponto de se aborrecer em não ter mais tempo para essa nova prática, além de passar a perceber as pessoas de uma forma diferente, mais humana.

A humanização advinda da literatura é a consequência do exercício da reflexão, da aquisição de conhecimento e da percepção da complexidade do mundo e das pessoas. A leitura pode exercer diversos papéis na vida individual e social das pessoas. As obras literárias têm o fascinante poder de nos colocar diante das ambiguidades, da linguagem e também da vida, e dessa maneira, seja qual for a história contada, a literatura contará também a nossa, e é por isso que as lemos e as amamos, em razão de nos reconhecermos. Ler é prazer!

“O que ela estava descobrindo também era como

um livro levava a outro, portas sempre se abrindo para onde

quer que se voltasse e os dias nunca eram longos

o bastante para a leitura que queria fazer.”[4]

Há uma parte bastante conflitante, a rainha percebe o quanto a paixão pela leitura muda a sua vida, nas reuniões com o Primeiro Ministro. Ele sempre falava e ela ficava quieta. Agora, ela passou a falar e indagar sobre as coisas. Partindo-se de uma visão mais politizada, é compreensível entender por que o Primeiro Ministro manda o secretário particular da rainha dar um jeito nessa “mania besta”. Ela era compreendida como uma marionete e, ao se expor mais, todos começam a sabotar as suas leituras.

Assim, a real leitora chega ao final de suas leituras transformada, bastante diferente do que era quando começou as primeiras linhas. As leituras da rainha proporcionaram questionamentos sobre o homem, inclusive o encontro com sua voz oculta há muito tempo. Consequentemente, abandona a voz que lhe era imposta.

“– Claro – respondeu a rainha –, mas um briefing não é leitura.

Na verdade, é antítese da leitura. Briefing é seco, factual, direto.

Ler é confuso, discursivo e eternamente atraente.

Briefing encerra um assunto.

Ler abre.”[5]

Os textos literários provocam sensações e produzem prazer, devem fazer parte da vida. Acrescente-se que nos apresentam verdades da condição humana.

Certamente a literatura pode ensinar. Ao ler, deixa-se o indivíduo para entrar no mundo do outro, e até mesmo no lugar do outro. Ela permite compreender melhor o mundo alheio e o seu próprio. Essa capacidade de influenciar habilidades sociais e emocionais pode ser adquirida para quem se predispuser à prática da leitura.

Mas não é só das histórias fictícias que podemos perceber a ação da literatura, para tanto, relembro as falas de Leandro Karnal (professor da Universidade de Campinas-Unicamp), na 62ª Feira do Livro que ocorreu em Porto Alegre, onde relatou que a literatura o tornou e torna as pessoas mais exigentes com os assuntos triviais. Karnal relembrou o estímulo das leituras no pensamento crítico e na tolerância sendo fundamental para podermos discutir qualquer assunto.

“À medida que forem lendo e descobrindo a literatura,

você vai ficando mais exigente com as pessoas.

Uma pergunta tradicional como ‘será que vai chover hoje?’

não faz mais sentido para quem tem conhecimento sobre vários temas.”[6]

A literatura desenvolve uma humanidade que nos torna mais compreensivos. Ao mesmo tempo pode nos instigar a questionar a sociedade, além de auxiliar na formação de opinião. A literatura será incessante para quem estiver disposto a experimentá-la.

Notas

[1] SARTRE, Jean-Paul. O que é escrever?. In: O que é literatura?. São Paulo; Ática, 1999. p.10

[2] CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: Vários escritos. Rio de Janeiro: Duas cidades, 2011. p.247-248

[3] BENNETT, Alan. Uma real leitora. 1 ed. Rio de Janeiro: Record, 2008. p. 18

[4] BENNETT, Alan. Uma real leitora. 1 ed. Rio de Janeiro: Record, 2008. p. 26

[5] BENNETT, Alan. Uma real leitora. 1 ed. Rio de Janeiro: Record, 2008. p. 27

[6] FRITZEN, Nicole.Leandro Karnal destaca importância da literatura na Feira do Livro. Feira do Livro de Porto Alegre de 2016.

Referências bibliográficas

A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS. Direção: Brian Percival. Fox Film do Brasil, 2013. 1 DVD (2h 11min). Título original: The Book Thief.

BENNETT, Alan. Uma real leitora. 1 ed. Rio de Janeiro: Record, 2008. 111p.

CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: Vários escritos. Rio de Janeiro: Duas cidades, 2011. 270 p.

EAGLETON, Terry. Dutra, Waltensir (trad). Azenha Júnior, João (rev). Teoria da literatura: uma introdução. 6. ed. São Paulo, Martins Fontes, 2010. xii, 387 p.

SARTRE, Jean-Paul. O que é escrever?. In: O que é literatura?. Trad. de Carlos Felipe Moisés. São Paulo, Ática, 1999.

FRITZEN, Nicole.Leandro Karnal destaca importância da literatura na Feira do Livro.<http://www.unicos.cc/leandro-karnal-destaca-importancia-da-literatura-na-feira-do-livro/>. Acesso em 15 set. 2017.

Link imagens:

UMA REAL LEITORA. Disponível em: <https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/literatura-internacional/romances/uma-real-leitora-2639327>. Acesso em 9 set. 2017.

A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS. Disponível em: <https://books.google.com.br/books/about/A_menina_que_roubava_livros.html?id=-_MMbijUmTEC&source=kp_cover&redir_esc=y>. Acesso em 9 set. 2017.

[Imagem tema da postagem]. Disponível em: <http://noticias.universia.com.br/cultura/noticia/2017/02/21/1149778/ler-pagar-conheca-plataformas-livros-download-gratis.html>. Acesso em 9 set. 2017.

Yedda Rossetto

Minibio: Apaixonada por literatura, cursando Letras na USP, com muita vontade de escrever e compartilhar leituras!

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