Nenhum Homem Fica Para Trás


“Lágrimas se misturam com a chuva”. Foi o que foi dito na academia. Eu chorava e ouvia o mundo desabar do lado de fora. O chão virara lama e o mundo ficara cinza com as nuvens que invadiam os espaços celestes e as quantidades massivas de pólvora. O silêncio parecia pior que as explosões e gritos porque eu podia ouvi-los aqui dentro de mim.

Minhas pernas já não se movem mais. Uma por exaustão do cansaço e a outra por estar encravada de balas e provavelmente sem tendões e músculos funcionais. Olhando em volta é o que se melhor define por carnificina: Pedaços de corpos estão mutilados e estourados até no teto. Desde o final da tarde não há mais nada aqui neste casebre. Uma construção feita de papel se levado em consideração as monstruosidades de engrenagens e óleo que fazem a terra tremer a cada segundo que se aproximam daqui, girando seus canhões contra o vento do sul.

Eu rezo.

Penso e me perco nas lágrimas que caem dos meus olhos na esperança de ser o orvalho divino que me protegerá. Penso na dor que está explodindo de cada membro do meu corpo devastado já que machuca muito mais pensar no que ficou para trás e abraçar a solidão desse lugar. Um homem sem esperança é um homem livre, eles diziam. Tudo o que me resta é a esperança.

Perdi inclusive a noção de tempo e já não há mais ratos para devorar ou água nas poças de lama para saciar meu estômago faminto e meus lábios rachados. Meus dedos calcificam sob o gatilho da minha pistola automática com uma bala no cano. Talvez endereçada a mim. Por alguma razão, eu continuo a chorar. Admito que tenho medo, e até mais do que isso: Eu tenho pavor do desconhecido que acontecerá e do trauma do que passou, nada prepara para a angustia que os segundos trazem, enquanto apenas o nada ocorre.

O rifle vazio rebate na parede porque não consigo controlar o tremor nas mãos. Sinto a onda de choque surgir pela minha espinha. Eu só queria me levantar e sair correndo, tentar correr o mais longe e mais rápido que eu pudesse e deixar tudo pra trás, mas não posso. Não foi para isso que fui treinado. “Um homem nunca abandona seu posto, ele espera reforços”. E eu esperei, e continuo esperando. Foram oito nascentes e sete poentes desde que o massacre começou e o pedido foi feito. Cinco noites atrás o rádio foi explodido, e quatro noites atrás eu sou o único sobrevivente. Eles não ousaram entrar. Mas me torturam o quanto podem, explodindo o resto da edificação me aterrorizando até eu não poder mais aguentar de sono e a falta de sanidade.

O cansaço talvez tenha retardado a ligação dos neurônios, mas enfim eu pude ver tudo. Estou decepcionando meus superiores, estou deixando que tomem um ponto valioso para a armada, mas eu juro que eu tentei. Doei suor, sangue e lágrimas para segurar a posição e agora podemos sofrer uma derrota que pode custar um rebaixamento ao meu superior.

Tudo fica mais ridículo e doloroso quando você nota que é um peão. Não há história, sentimento ou vida que importe uma grama de compaixão no tabuleiro das grandes mentes bélicas. Não há espeço para os comuns nas páginas dos livros da guerra. Eu serei só mais um risco em um obelisco, uma lápide num lugar que eu nem conheço e que tampouco servirá como repouso eterno dos restos do meu corpo. Tudo isso passa e as memórias vão se perder no ar. As pessoas que carreguei comigo. Não haverá nada que sustente essas imagens. Não há nada que me conforte agora além do peso das minhas lágrimas.

Posso ouvir a chuva aumentando e os trovões quebrando o céu. A cada explosão celeste o meu corpo se contorce mais. Eles estão lá fora, porque então não acabam com isso? Bastaria só um tiro daquela abominação metálica e tudo explodiria pelos ares. Eu não sentiria dor, nem ouviria o barulho. Mas é isso que é: Não se trata de vitórias ou conquistas, se trata de crueldade e tortura. É a quebra do espírito do que nos torna humanos, é a falência da nossa espécie e o crepúsculo da humanidade.

Por anos somos levados a crer que somos a raça superior e inteligente, mas estamos fadados a nossa própria implosão. Não há nada mais odioso que um humano e sua liberdade. Não temos problemas com outras espécies por essa razão: Subserviência. Não há resistência ao intelecto, a força bruta não é páreo pro queimar da pólvora ou a formação do maquinário. Vencemos na escalada, mas encontramos nosso nêmesis quando nos discordamos de nós mesmos. E se já temos o aparato, por que não usar para domesticarmos uns aos outros, enquanto nos rebaixamos a níveis de instinto irracional mais primordiais?

Isso perfura muito mais que os tiros ou as lâminas. Porque assim profetizamos outro em meu lugar, talvez daqui a semanas ou quem sabe meses, alguém muito azarado ou azarada vai ser despido de toda esperança e vivenciará a quebra da sua humanidade. E eu talvez morresse feliz ou, pelo menos, mais aliviado se eu tivesse a convicção que a minha morte seria o fim desse ciclo e o início de uma era de ressignificados. Mas quem passaria à frente o conto de solidão, dor e desolação? Não. Tudo tem de morrer aqui, no campo de batalha onde os covardes e medrosos serão esquecidos e os heróis, enaltecidos. Ainda que muitas vezes eles sejam a mesma pessoa.

“Seja orgulhoso e seja bravo”. As palavras parecem debochar quando passam pela mente e você percebe que tudo era mentira do pior tipo para te deixar emocionado e comovido por uma pátria que nunca te pertenceu. Tudo isso na madrugada gelada em que já não sinto meus dedos e que tenho a certeza que minha perna necrosou.

Ouvi muitas vezes que na savana africana, quando o crepúsculo chega, os leões rondam a caça em seus refúgios. Eles não emitem som, deixam apenas que suas patas sobre as folhas secas e terra batida façam o trabalho. As presas sabem que eles estão lá, mas incapazes de dizer onde, elas se aninham na paranoia do medo e do desespero, transformando a morte num evento ainda mais tortuoso e cruel que o simples ciclo da vida, que o ato da sobrevivência do mais forte. Seria desnecessário fazer a comparação agora. Sei que eles estão aí, sei que a qualquer segundo a parede pode cair em mim, uma mina pode me despedaçar, ou se eles forem gentis, uma bala fará seu caminho pelo meu cérebro.

Nessa altura eu não sinto tanto medo, sabe? Eu começo a pensar em quantas coisas boas eu pude aproveitar na minha pouca vida. Me lembro dos beijos da minha mãe nos domingos ensolarados antes de irmos à missa, lembro dos abraços apertados que compartilhei com meu pai cada vez que a bola era rebatida para fora do estádio, vibrando juntos como se o mundo não pudesse nos parar, e lembro dos olhos dela, que sempre surgiam através dos campos de lírios. Pareciam pérolas banhadas em mel, lutando contra o sol como a fonte de maior luminosidade. Lembro das noites com os fogos e das tortas no jantar. Hoje todas essas lembranças formam um grande sonho dourado, que espero que algum sortudo possa viver e aproveitar ainda mais que eu. Antes de mais nada, eu acho que gostaria de ver um último nascer do sol, Acho que nessas trevas, gostaria de ouvir o sussurro de Deus através dos ventos e enxergá-lo através do brilho dos astros.

Inocentemente eu desenho um sol, arrastando os dedos negros de sangue e lama sobre a terra afofada com vidas. Os traços lembram os sonhos de uma criança, traços que beiram a real dúvida do mistério da vida, mas agora refletidos pela alma no momento da morte. A dor duraria? Seria tudo escuridão? Eterna, vasta, dimensionalmente irrepreensível escuridão? O pensamento não estabelece a linha do Céu e da salvação, um provável sinal de como a realidade das coisas deve ser. Limpa, seca e transformadora. Mas haveria consciência ou seria apenas uma viagem?

O som das máquinas ressurge como num ligar de um botão. O chão volta a vibrar, fazendo o que sobrara das paredes e tijolos se remexerem, convertendo tudo em pó. O céu se torna cada vez mais escuro, o que significa que logo amanhecerá, de uma forma ou de outra.

Abraço o rifle com um dos braços, aninhando-o junto ao meu peito, ao meu coração. Com a outra mão engato a pistola, coloco a bala na câmara e retiro a trava de segurança. A rigidez toma meus membros superiores: Suicídio pode condenar uma alma ao inferno.

Eu respiro fundo, deixando o restante das lágrimas descer meu rosto.

Nada poderia ser pior do que isso. O inferno se estende num raio de 300 quilômetros em qualquer direção. Não haverá árvores, lagos, animais, grama ou vida que se sustentará sob o domínio da pólvora e aço. A revolução da morte chegou, e nada poderá pará-la. Somos apenas uma pequena ferrugem nas engrenagens da evolução. Poeira estelar no universo do vazio.

Um estrondo.

Soa como uma explosão localizada e se segue um silêncio desafiador e que comprime os órgãos e retrai os músculos até a onda de choque maior: Um estrondo ainda maior e uma explosão física. Os tanques estão vivos e em movimento. É hora de terminar o trabalho que foi começado, de dizimar o que restou.

Não posso ficar parado. Forço-me caminho acima, sentindo as costelas pressionarem meus órgãos internos e fazendo o sangue embolar e ser regurgitado em pequenas porções através da minha tosse. Um espaço aberto que antes era um corredor me separa da porta dos fundos. Lá quem sabe posso tentar escapar pela mata alta, desaparecendo entre a lama e o musgo se antes não desmaiar ou morrer pela hemorragia.

Tento engolir o ar, forçar o seu caminho até meus pulmões, empurrando-o através da garganta e o tórax e exalando com dificuldade. O rifle já me atrasa, mas ainda posso precisar da bainha. A peça de metal afiada está ligada ao cano por um encaixe. É simples e rápido para que eu o remova e dispense a carcaça de madeira e metal para o passado imediato de onde estava, o som é abafado pelo barulho ensurdecedor das engrenagens do tanque.

Sinto minha visão enturvecer. O pouco sangue que me resta está sendo perdido pelos ferimentos. Uma faixa está sendo deixada por onde rastejo.

Falta pouco até cruzar o arco de pedras, alguns metros que mais parecem milhas de distância. Sinto o ar me escapar mais uma vez e agarro a pistola com mais firmeza do que nunca. O reflexo imediato me faz querer erguer o braço até a minha têmpora direita e pressionar o gatilho. A bala fará o resto, voando quase na velocidade do som enquanto me leva com ela para longe dessa materialidade. Quase uma carona de misericórdia. Mas acabo cochilando enquanto pensava em tudo isso, meu braço permanece deitado e o cansaço me invade em ondas cada vez maiores.

Pareceu que apaguei por horas, ou podem ter sido segundos, mas o céu começara a adquirir uma tonalidade avermelhada. Será que realmente não escapei? Esse é o Céu que tanto almejo?

O cheiro das flores e dos campos enche meu peito, o ar flui com naturalidade e sinto o relaxamento e a energia percorrerem meu corpo. O forço sobre as pedras e tijolos que ainda estão no meu caminho e atravesso os últimos metros da caminhada de penitência. Ao longe, uma cadeia de montanhas, impede fracamente o inevitável raiar do sol. As carruagens douradas de Hefesto se preparam para invadir o mundo dos mortais e banhar toda a superfície terrena com as luzes da alvorada. Sinto as lágrimas voltarem, junto do alívio de um sorriso.

Sob o último bloco de pedra eu me ergo, apoiando-me nos escombros do prédio, para encarar o sol. O peito vibra, assim como as mãos que deixam o instrumento de morte e metal se afundar em grama e terra marrom. Eu atravesso a grama, um passo de cada vez, um golfo de ar de cada vez, permitindo que a luz banhe meus pés, joelhos, coxas, barriga, peito, pescoço…

… Queixo…

O solo começa a vibrar mais violentamente e gritos ecoam pelas planícies.

… Boca, nariz…

Um estrondo explode ao fundo, gerando um doce silêncio momentâneo que pareceu durar uma eternidade até que a luz do sol, enfim chegada, alcançou meu olhar.

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