A lâmina

O sibilar da porta indica que Cléry entrara no cômodo minúsculo da Torre do Templo; acordando o homem que dormia há apenas duas horas. Mesmo tendo passado a noite toda em claro, às cinco horas da manhã de 21 de janeiro de 1793, ele desperta.


O dia estava um tanto quanto frio, Cléry confirma a sensação do homem. Cléry postasse do lado direito da porta, com os braços para trás. O homem, então, mesmo que observado, segue sua rotina matinal: parte à toalete, realizando todas as necessidades; para um momento em frente ao espelho: havia uns pequenos pelos que saltavam pelos limites de sua face. Primeiramente, relutante, o homem passa a língua entre os lábios inseguro se deveria realizar ou emitir as palavras que processava em sua mente. Ficou parado, por sete segundos, contemplando os pelos. Quando, enfim, decidira pedir a Cléry uma navalha, o camareiro negou, disse que não havia tão possibilidade. O homem abaixou a cabeça, olhando os furos da madeira, a sensação de receber uma negação era uma novidade recente. Fixo no chão, passando a mão pela lateral da face até a ponta do queixo, o homem, sem levantar seus olhos, insiste em seu pedido: “Por favor”.


Cléry nutria um ódio profundo por aquele ser em sua frente, porém, naquele mísero instante, a boca do odiado proferiu duas palavras que Cléry jamais pensou que iriam ser proferidas por aquela boca. O camareiro então abre a porta e manda os guardas trazerem uma navalha. “Obrigado”, a palavra saia rouca, como um sussurro de um morto, talvez pela falta de costume quanto ao uso dela. “Não me agradeça”, a resposta era seca, vinha como uma lâmina cortando o ar frio do dia.


Os guardas não demoraram em trazer a navalha, o aio, toma-a, fechando a porta. Ele joga a gilete em frente ao espelho, sem dizer nada. O homem a pega em sua mão direita e, delicadamente, inicia a passar a lâmina por sua face. Primeiramente, pela parte esquerda do rosto e, depois, pela face direita, na qual, perto de seu queixo, o homem corta-se. Cléry solta um riso agudo e frio, preenchendo todo o minúsculo quarto; o homem ao ouvir esse som diabólico, fecha os olhos, engole em seco, sente cada músculo do seu corpo pedir para que arrancasse os olhos do camareiro; porém ele se controla.


Depois de terminar sua rotina matinal, o homem é encaminhado grosseiramente, entre chutes e ponta-pés até a capela, onde Abade Henri esperava-o. O homem ajoelha-se perante o reverendo, confessa-se: expondo todos os seus mais esdrúxulos desejo; toda a ira; a vontade de arrancar os olhos do camareiro; a gula dos banquetes e festas que participou; a avareza com que conviveu em sua vida de luxo; a preguiça que vinha de somente saber ordenar, até os mais minúsculos dos anseios; o orgulho misturado de arrogância, que foi ensinado a utilizar e, por fim, confessou a inveja que tinha daqueles os quais, naquele momento, jamais teriam um destino semelhante ao dele.


Abade Henri ouvira tudo em um silêncio ensurdecedor, observando fixamente os olhos do homem. Após aplicar a penitência, o reverendo realiza uma missa, a qual, de nenhuma maneira surpreendente, teve apenas como ouvinte o homem. Mesmo assim, o Abade continua-a naturalmente. Em um delicado momento, ao tomar uma passagem da bíblia, ele a lê, com os olhos fixo no homem, sentado no canto esquerdo mais distante: “E era já quase a hora sexta, e houve trevas em toda a terra até à hora nona, escurecendo-se o sol; e rasgou-se ao meio o véu do templo. E, clamando Jesus com grande voz, disse: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E, havendo dito isto, expirou. E o centurião, vendo o que tinha acontecido, deu glória a Deus, dizendo: na verdade, este homem era justo”. Uma fina lágrima percorria o rosto do homem, enquanto ouvia essas palavras.


A missa continuou normal, o homem realizou a comunhão e logo iria seguir seu caminho aos ponta-pés. O abade, também, deveria odiá-lo, mas durante aquela sessão silenciosa, ele não viu a pessoa toda poderosa que um dia ele fora diante de si, mas um franzino homem, fraco e cansado, condenado e sem qualquer possibilidade de escapatória. Enquanto os guardas, entravam para arrastá-lo até a carruagem; o religioso aproximasse do homem e o abençoa. “Vá em paz, meu filho”. O homem, claramente emocionado, agradeça as palavras e pergunta se poderia ver sua mulher e seus filhos. O abade o aconselha a não os ver; a dor somente seria maior. O homem compreende. “Abade, se posso pedir algo: tome: meu selo, entregue para meu filho e, aqui, minha aliança, entregue para minha mulher”.


Santerre, o chefe da guarda, esperava em frente à capela, com a guarda pronta para leva-lo. Grosseiramente, ele é empurrado e direcionado pelos corredores até a saída para o portão. Henri sentiu-se comovido pelo homem, pedindo, assim para que fosse com ele na carruagem.


Quando saem ao pátio, o homem olha para a terceira janela da Torre do Templo, onde estavam sua mulher e seus filhos. Ele buscava vê-los, mas não havia ninguém nas janelas. O pátio era preenchido por um nevoeiro, glacial e espesso; como os braços de um fantasma catatónico. O trajeto até as carruagens é silencioso e mórbido. Dois membros da milícia tomam as rédeas, enquanto o homem e o reverendo entram na carruagem. Dentro do coche, o abade entrega para o condenado um papel, onde explica que ali está a prece dos aflitos. O homem fixa toda a sua atenção para as palavras no papel.

“Senhor Deus, Pai dos que choram, dos tristes, dos oprimidos. Fortaleza dos vencidos, consolo de toda a dor, embora a miséria amarga, dos prantos de nosso erro, deste mundo de desterro, clamamos por vosso amor!” - Rezava o pobre homem enquanto a carruagem parte às nove horas, deixando o templo em direção à praça, onde o destino aguarda os seus agentes.


“Nas aflições do caminho, na noite mais tormentosa, vossa fonte generosa é o bem que não secará... sois, em tudo, a luz eterna da alegria e da bonança nossa porta de esperança que nunca se fechará.” – Rezava o pobre homem enquanto o cortejo de tambores e tropas de cavaleiros com sabres desfraldados, vira à direita, pela Rua do Templo, em direção aos grandes boulevards preenchidos de sans-cullotes, jacobinos, girondinos, camponeses e aqueles que não tinham nada a ver com isso. As ruas estavam mais cheias de pessoas do que o céu de estrelas, tudo para acompanhar a marcha final daquele homem.

“Quando tudo nos despreza no mundo da iniquidade, quando vem a tempestade sobre as flores da ilusão! Ó! Pai, sois a luz divina, o cântico da certeza, vencendo toda aspereza, vencendo toda aflição.” – Rezava o pobre homem enquanto, numa rua não muito distante, centenas de pessoas com armas em suas mãos sangram em seu nome. O Barão de Batz grita para seus trezentos homens: “Comigo, meus amigos, para salvar o rei!” Porém, seus companheiros o haviam traído, a milícia esperava o levante. O Barão pode escapar, entre choramingo dizia: “Perdoe-me, meu rei, eu falhei”. Dentro da carruagem o condenado nunca soube disso. O cortejo liderado por Santerre, prossegue pelos boulevards- lotados- até a Rua da Revolução.


“No dia de nossa morte, no abandono ou no tormento, trazei-nos o esquecimento, da sombra, da dor, do mal! Que nos últimos instantes, sintamos a luz da vida, renovada e redimida na paz ditosa e imortal.” – Rezava o homem quando, às dez horas, o cortejo chega à Praça da Concórdia e Santerre o ordena que saísse. “Tens últimas palavras?” – disse o chefe da guarda. “Não”. O homem é então guiado para os pés do cadafalso onde a lâmina de quarenta quilogramas o esperava, instalada em frente ao Palácio da Tulherias, o qual ficava entre a estátua removida de Luís XV e a parte baixa do Champs-Élysées. O local é rodeado por uma multidão sedenta de sangue.


O Abade se despede do homem que sobe em direção à máquina da morte. Chegado ao pé da guilhotina, o homem considerou um instante os instrumentos de seu suplício e perguntou a Sanson, o carrasco, se os tambores cessariam de bater, porque afinal ele possuía palavras enterradas. Ele se aproximou para falar. Santerre faz sinal com que seja permitida a fala do condenado e depois que os carrascos fizessem seu dever. Enquanto lhe colocavam as cilhas, ele gritou: "Povo, eu morro inocente!". Em seguida, virando-se para os carrascos, com a cabeça posta sob a lâmina, declara:

“Perdoo de todo coração aqueles que se fizeram meus inimigos sem que eu lhes tivesse dado algum motivo…Rogo a Deus principalmente que lance um olhar misericordioso sobre minha mulher, meus filhos e minha irmã, que há tempo sofrem a meu lado…Recomendo meus filhos à minha mulher. Nunca duvidei de sua ternura materna…Rogo a minha mulher que me perdoe de todos os males que sofreu por mim…Recomendo a meu filho, se tiver o infortúnio de se tornar rei, que considere dever-se por inteiro à felicidade de seus concidadãos, e que esqueça todo ódio e todo ressentimento e especialmente tudo o que tiver relação com os infortúnios e as tristezas que experimento…Perdoo ainda de boa vontade aqueles que me reservaram maus tratos e gestos que acharam que deviam usar para comigo…Concluo declarando diante de Deus, e prestes a surgir à sua frente, que não me responsabilizo por nenhum dos crimes que me foram imputados…Povo, morro inocente! Perdoo os autores de minha morte. Rogo a Deus que o sangue que vocês derramarão jamais recaia sobre a França. Porque espero que meu sangue possa consolidar a felicidade dos franceses”.


Mas suas palavras foram perdidas depois da primeira sentença, o povo gritava mais alto, os canhões disparavam e, para sempre, as palavras finais desse homem que esperava a lâmina suja, gasta e provavelmente já sem fio de uma guilhotina descer sobre sua nuca.

O cutelo caiu. Eram dez horas e vinte e dois minutos. Um dos assistentes de Sanson apresenta a cabeça ao povo, que comemora, enquanto se eleva um grito de: “Viva a nação! Viva a República!” e uma salva da artilharia, que ressoava pelas ruas até à Prisão do Templo, chegando aos ouvidos da família real encarcerada.

Naquela segunda-feira gélida de 21 de janeiro de 1793, às dez horas e vinte e dois minutos, na Praça da Revolução, morre um homem, agora, simplesmente, Luís Capeto. Mas foi o corpo de um rei, a história de uma nação e do mundo, que foram cortados em dois pelas implacáveis engrenagens da Histórias, que, diferente do que quis o antigo rei- uma morte para a felicidade de todos não era o bastante-, uma vez que as engrenagens são postas em movimento, jamais param.


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