A maior aventura da minha vida.



Eu só tinha 13 anos e já era uma mulher, mas eu não tinha noção disso. Quer dizer, eu sabia das coisas, não sou estúpida, só que era tudo teoria, historinha contada na escola e em casa. Mais na escola do que em casa. Também fazia parte da roda de conversas das amigas, mas sabe como é, né? São só histórias...


E ele estava sempre lá, na porta da escola, observando as garotas, todos os dias. Não estudava com a gente, era só um cara. Só passei a notá-lo quando meu irmão virou seu amigo. Não sei bem como isso aconteceu, apenas sei que um dia os dois estavam de conversa fiada. Um assunto interminável, que durou muitas semanas até ele passar a frequentar nosso ciclo social.


Seu nome era Anderson. Soava estranho e não combinava em nada com seu estilo. Na verdade, se eu não tivesse inventado um antes de saber o verdadeiro, poderia aceitar melhor. Na minha cabeça ele era Caio. O Caio gostava de jogar bola, vídeo-game e garotas. Tinha, no máximo, 16 anos e obviamente não trabalhava, mas era bom de papo. Porém, o Anderson era totalmente diferente, ele não gostava muito de jogar bola, só de assistir ao futebol, adorava soltar pipas, amava as garotas, tinha 19 anos e trabalhava. Um trabalho digno de um namorado perfeito: dava bailes aos finais de semana e vendida bebida pra galera. Aos meus tenros e inocentes 13 anos, isso era incrível.


Em pouco tempo nos tornamos amigos. E ficamos cada vez mais próximos. Me sentia a patinha feia entre as minhas amigas da escola e até entre minhas irmãs, tenho duas mais velhas. A aproximação dele fez mudar esse conceito, ao menos na minha cabeça. Comecei a me ver com outros olhos e dedicar mais tempo em meu visual, queria parecer bonita pra ele. Queria chamar sua atenção, queria ser notada além do que uma simples amiga.


Não tinha experiência com garotos, pois como eu já disse, não era lá muito bonita e até então, não dava bola para as aparências, só depois entendi o quanto aquilo era importante, principalmente se eu quisesse que o Anderson me visse como mulher e não como a irmãzinha do amigo dele.


Até que um dia ele me notou. Fui ao paraíso e desci. Vi unicórnios e arco-íris. Meu sorriso era maior do que o do Coringa e, desde então, passei a chupar balas com mais frequência, além de querer estar sempre bonita, queria que meu hálito fosse o mais agradável possível, queria que fosse um convite, um droga viciante.


Consegui! Anderson era meu! Me levava para escola, me buscava, nos dias de baile, eu era a sua acompanhante, quase vista como uma rainha. Nunca me senti tão incrível e maravilhosa antes. A patinha feita era um cisne lindo e radiante. As garotas do baile me olhavam feio, me mediam dos pés a cabeça e eu adorava. Metia uma cara de desdém, fazia a louca e me agarrava no macho. Elas queriam ver a morte, mas não me queriam por perto.


Porém, conforme nosso relacionamento foi amadurecendo, natural que ele não quisesse ficar só nos beijos. Como eu disse, já era uma mulher, mas não tinha noção do que isso significava. Na minha cabeça eu era apenas uma menina que estava crescendo, mas que aparentava saber muito mais da vida do que a própria avó que teve 15 filhos, zilhões de netos e bisnetos.


Adiei o inevitável o máximo que podia. Eu não conhecia a família dele e da minha, ele só sabia da existência dos meus irmãos, nunca tinha ido em casa. Meu pais não sabiam que eu namorava e eu não pretendia contar. Eles não tinham interesse por mim, me deixavam fazer o que bem entendesse, ir aonde bem quisesse e voltar a hora que dava na telha. Aparentemente eles tinham outros dramas. Então eu os polpava dos meus.


Mas um dia, Anderson me convidou para ir a sua casa, conhecer seus pais. Achei que aquilo era um passo grande demais, mas aceitei. Na minha cabeça, se eu poderia casar com ele, então poderia encarar seus pais. Porém, quando chegamos lá, não havia ninguém. Era um barraco vazio, pra ser honesta. Sou pobre, minha casa mal cabem as 5 pessoas que moram nela, mas é feita de tijolos. A de Anderson era espantosamente feita apenas por madeiras velhas que não combinavam. Fiquei surpresa, pois a montanha de dinheiro que ele ganhava nos bailes dava para comprar uma casa bonita, ele se vestia bem, roupas de marca, perfumes importados, mas por algum motivo, ele morava num barraco. Não fazia sentido.


Tudo bem, eu disse pra mim mesma, não importa aonde ele mora, o que importa é o que sentimos um pelo outro. Nós já estávamos lá, então...


Papo vem, papo vai, beijo aqui, beijo ali, uns amassos mais densos, profundos, e ele sutilmente fora me levando para uma cama, o único móvel do lugar. Não tinha nada além, nem geladeira, fogão, coisas básicas para sobrevivência. Mas como eu disso, o que são "coisas" diante do sentimento que nutríamos um pelo outro? E foi com esse pensamento que me deixei levar. Transamos ali mesmo, não foi exatamente como nos filmes românticos, mas como nas músicas que tocavam no baile. Só que eu era uma mera coadjuvante. A novinha. Não precisei fazer nada e não durou nem 5 minutos.


Depois que acabou, ele disse que tinha que fazer umas coisas e me levou para casa. Não sabia o que pensar e tão pouco o que sentir. Era minha primeira vez, imaginava algo diferente, só que quem eu era na fila do pão? Uma zé mané que ninguém dava bola, se não fosse assim, morreria virgem. E ser virgem em tempos como esse é quase um insulto.


Quando cheguei em casa a primeira coisa que fiz foi olhar no espelho. Ali estava a mesma menina de sempre, com os mesmo cabelos revoltados, o rosto fino e os olhos míopes. Claro que eu sabia que não há nenhum tipo de transformação no corpo quando a gente perde a virgindade. Mas sei lá, ansiava por alguma mudança.


Na semana seguinte, esperei pelo Anderson na porta da escola. Ele não apareceu. No dia seguinte também, e no outro, e no outro... ligava para o celular dele e não tocava. Nos bailes ele não apareceu. Ninguém me dizia o que havia acontecido. Meu irmão nada sabia, mas estava preocupado tanto quanto eu.


Ok, pensei, ele foi embora. Me deixou. Precisei lidar com esse sentimento horrível que era ser largada pela pessoa que se ama com tanta pouca idade. Logo numa idade que a gente julga saber de tudo, não consegue lidar nem com a própria raiva, tristeza, angústia e solidão.


Abandono. Era essa palavra certa. Fui abandonada.


Pensei em largar a escola, sumir. Mas não fiz nada disso, minhas amigas foram mais sábias e me aconselharam a não desistir de mim, o Anderson já fizera isso, eu não precisava. O que eu precisava era de muito autocuidado. E foi o que eu fiz, continuei tentando ser a Cinderela rica, me maquiava, me arrumava, tirava foto na frente do espelho, espalhava nas redes sociais... mas no fundo tudo isso era para tentar chamar a atenção dele, seja lá aonde estivesse. Obviamente não adiantou.


Os dias foram se passando e alguma coisa em mim mudou, e não foi a autoestima, que por muito empenho, ainda estava nas alturas, mas meu tamanho. Fui engordando. Passei a fazer dieta e não adiantava, eu sentia muuuuuita fome. Comia de tudo, tinha vontades. Desejos. Mas só fui me tocar no quarto mês de menstruação atrasada. Logicamente eu notei que minha menstruação não vinha bem antes, mas eu achei que fosse um presente de Deus por sofrer tanto e por ter sido abandonada. Sim! Eu juro de pé junto que pensei isso, não pensei, por exemplo, que pudesse estar GRÁ-VI-DA. PeloamordeDeus, eu só tinha 13 anos, foi minha primeira vez, não durou nem 5 minutos, eu não senti nada de diferente. Aquilo não tinha como acontecer comigo. Essas coisas simplesmente não acontece quando você tem 13 anos. Não acontecem!


Mas aconteceu. Minha mãe me levou no médico e só para constatarem, fizeram um ultrassom. E lá estava meu bebê... nadando naquele borrão cinza e preto. Eu chorei muito, meus pais me xingavam, minhas irmãs gritaram comigo, meu irmão, bem... meu irmão saiu puto atrás de alguém que pudesse localizar o bendito que me engravidou. Sem esperança. Não havia notícias de Anderson.


Depois que os ânimos se acalmaram, eu aceitei e minha família se conformou. Não foi fácil. Larguei a escola. Entrei em depressão. Aceitei, pois não tinha outra saída, só que isso não significava que eu estava de boas. Não estava. Ninguém estava. E minha barriga começou a aparecer. As pessoas me apontavam na rua e eu precisava me sentir forte. Era alvo das conversas em todos os lugares do bairro. Não era tão incomum meninas jovens ficarem grávidas, na minha rua já tinha a Suzana, que aos 18 era mãe de duas meninas, mas ainda assim era mais comum depois dos 16, aos 13 é desconcertante.


Não entendia nada de gravidez, mas a internet ajudou um pouco. Já não saia mais, ficava em casa paquerando on-line, fingindo que era apenas uma garota não-grávida que estava afim de dar uns beijos em alguém. Eu fingia ter a vida queria, algo muito lastimável.


Descobri que teria um menino, dei o nome de Kleber. Ninguém contestou. O filho era meu e eu podia fazer o que bem queria com ele. E foi aí que a ficha começou a cair. Eu ia ter um filho, eu tinha um bebê dentro da barriga. Eu. Eu vou ser mãe. Eu.


Então... eu comecei a me preparar para maior aventura da minha vida.




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