A Névoa Devoradora

Este é um conto noir, totalmente ficcional. Quaisquer semelhanças com eventos e pessoas reais são meramente coincidências.



Final de inverno. Sim, acredito que era mais ou menos nessa época. Foi num dia desses, de inverno seco e poeirento. Um dia sem vida, como eu também quase estava.

Segui para o meu trabalho, minha cabeça pesando pelas horas mal dormidas. O resto do meu corpo se arrastava, no entanto, pelas incontáveis noites de sono atrasado. Minha alma, se é que existe algo desse tipo no ser humano, chamuscava e se desfazia pelos excessos das mazelas mentais.



Era serviço pesado, manual. Eu nada mais era do que um autônomo irregular prestando serviços para a classe média da cidade. Apenas um cara que usava ferramentas, um cara que consertava algumas coisas. Embora fosse eu que precisasse de conserto naqueles dias secos e poeirentos.


Subida

Meu serviço era consertar um telhado de um prédio em obras de três andares.

Subi, já sabia o que tinha de ser feito. Estava uma zona, teria sido mais sensato fazer outro telhado do zero. O cliente pediu, portanto, apenas para consertar. Ele quem paga, ele quem manda.



Espalhei as ferramentas, liguei as extensões, entre outros detalhes técnicos dos quais os pouparei de ler e imaginar.

Fiquei enrolando. Enrolei, enrolei. Assim permaneci por pelo menos uns vinte minutos. O ânimo não chegava.


"Mas as contas chegam. O dinheiro acaba", disse uma voz na minha cabeça. Não que eu a ouvia, literalmente, era apenas um pensamento acusador. Mas eu não me surpreenderia se eu a escutasse berrando meu ouvido, levando em conta meu estado psicológico nessa época.


"Dá uma olhada na vista. Aprecia um pouco a cidade, os panoramas", veio outro pensamento.


Fiz o que era mais conveniente, óbvio. Fiquei olhando a cidade, enquanto meu trabalho era postergado.


A vista tinha uma dualidade de beleza e tragédia. A cidade era completamente tomada por uma fumaça densa, era como um nevoeiro devorador. Ao longe, no Leste, uma torre de fumaça negra se erguia, uma monstruosidade. O sol... Bom, coitado desse, não passava de uma bola vermelha de coloração fosca.


Terminada a enrolação, comecei o trabalho.


Foram quatro horas ininterruptas e exaustivas. O serviço ainda estava no começo. Deu o horário de almoço, mas a fome e o apetite não me vieram. Achei isso bom naquele dia. Eu poderia trabalhar mais umas duas horas e depois encerrar minha jornada.

Tive que me desdobrar para ser um pouco produtivo. Fiz o que pude.


Apareceu o sujeito, o dono da obra. Era um retrato de um playboy classe média, tinha seus trinta e poucos anos. Portava-se como se fosse um grande CEO, ou como se fosse um desses coachs de desenvolvimento pessoal que tem aos montes no youtube. Nada mais era do que um herdeiro, sucumbido pela ganância e pela insegurança por se sentir ameaçado por um comerciante rival.


Ele fez perguntas e disse algumas trivialidades. Em resumo, queria terminar a obra a todo custo, de qualquer jeito, pois precisava competir a altura com o rival.

Eu respondi com frases curtas para repelir o sujeito.


Ele insistia em me coagir a falar mal dos demais funcionários da obra, em como eram atrasados, lerdos, incompetentes. Disparou a esculachar o antigo chefe de pedreiros da obra. Detalhe: esse havia morrido fazia alguns dias, vítima do mundo pandêmico.

Fiquei me esquivando da conversa. Ele se cansou e foi embora.


Descida

Guardei as ferramentas. Comecei a descer as escadarias, pareciam intermináveis. Eu descia um degrau e mais outro surgia e isso parecia não ter fim. Eu estava muito cansado e sonolento, e isso me fazia dar dimensões bem maiores para muitas coisas no meu cotidiano.

"O que decidiu?", a voz perguntou?


É verdade, eu havia me esquecido. Parei de descer, recostei na parede. Acendi um cigarro e sentei no degrau. O ar estava parado, morto. O ambiente era mal iluminado, e mesmo assim, raios brancos de luz que traspassavam janelas e frestas deixavam minha vista atordoada.


Traguei a fumaça, a soltando bem devagar.


“E aí, o que decidiu?”, a voz tornou a perguntar.


Dei uma segunda tragada. A fumaça saiu mais densa, tomando quase todo o corredor das escadarias.


Não havia ninguém na obra. Eu estava só.


- Eu já tomei minha decisão – eu disse, a fumaça saindo de minhas narinas.


“Seria um dinheiro que iria te ajudar muito”, a voz respondeu.


- Não vou me envolver com aquele empresário ególatra e mau caráter. Já tomei minha decisão.


“Dá pra você ficar tranquilo alguns meses. Pensa bem, não iria precisar mexer no dinheiro da emergência pra ficar pagando boletos.”


Traguei a fumaça.


- Não vou me envolver com esses tipos de gambiarras. O cara quer que eu minta para um cliente. Esse empresário quer fazer um cambalacho e dizer pra esse cliente que eu sou funcionário dele. Assim, eu fico livre das regulamentações e das burocracias. Eu ganho um bom dinheiro, o empresário ganha ainda mais em cima de mim e o cliente é enganado. Além da satisfação que aquele empresário miserável iria ter ao me ver como um subordinado dele, usando o uniforme da empresa dele e me ver mentindo em complô com ele pra poder tirar vantagem de uma situação. Já tomei minha decisão. É não!


A voz se calou.


Apaguei o cigarro na sola do sapatão e continuei a descer.


Bem que o dinheiro iria ajudar. Eu poderia ficar alguns dias sem me matar de trabalhar com aquele dinheiro em mãos.


“Seus princípios não estão à venda. E nem você.”, disse a voz.


- É verdade. Minha decisão tá feita. É não.


Cada degrau abaixo, mais escuro ficava. Mais sufocante. Senti uma sensação de pânico. Isso me fez apertar o passo e chegar logo até a porta.


Saída

O clarão do lado de fora me atordoou. Minha visão ficou turva por alguns segundos.

A única coisa pulsante no centro da cidade era a movimentação dos veículos. As pessoas caminhavam sob uma aura de pesar e indiferença. Quando havia algum sorriso, ele se esboçava morno. Os olhares eram frios, os passos apressados.


Eu também sou assim? indaguei.

Um vendedor de canetas me abordou, ele estava afoito. Sua fala era enérgica e figurava no rosto um sorriso aberto, porém engessado. Recusei, aleguei estar sem dinheiro, o que era mentira. Mas quem nunca tentou se livrar de um vendedor dessa forma?


“Hipócrita”, disse a voz, ela parecia vir de algum transeunte que passou às pressas do meu lado.


O vendedor de canetas insistiu, seus olhos estalaram ainda mais, sua fala se tornou mais agressiva e impostada.


Recusei no mesmo tom que ele tentou me vender a caneta pela segunda vez.


Ele se frustrou, fechou a carranca.


Fiquei pensando no empenho dele. Parecia querer fechar um negócio milionário ou vender uma Lamborghini. Era só uma caneta de cinco reais.


“Custava comprar a caneta do sujeito?”


- Custava – respondi – Cinco reais.


“Cinco reais não iriam te deixar nem mais e nem mais pobre”


- Verdade. Mas já me garante a cerveja no final do dia.


Eu estava de máscara, então me sentia à vontade para conversar sozinho no centro da cidade.


“Você não ia parar de beber?”


- Não começa...


“Vai abrir uma cerveja logo na segunda-feira?”


Verdade, isso era numa segundona.


- Vou.


Ou eu bebia no final do dia ou eu iria me enlouquecer. Não dei essa explicação para a voz.

“Você bem que poderia dar uma adiantada no seu livro. Faz tempo que não escreve uma linha sequer.”


- Que jeito? Estou sem dormir direito faz tempo, meu trabalho é pesado e estressante, tenho muitas preocupações. Tô exausto, não tenho força nem pra abrir o arquivo no computador.


“Não me surpreende o estado deplorável que você está”, disse a outra voz. “Não é à toa que você é um colecionador de fracassos. Uma faculdade incompleta, um trabalho como jornalista que você deixou escapar pelos dedos no passado, um serviço irregular, relacionamentos que não deram em nada porque você não consegue se comprometer com nada nessa vida e nem terminar nada. Sem contar o alcoolismo e o tabagismo. Eu não sei como consegue se levantar todos os dias e se encarar no espelho. Sinceramente, eu não sei.”


Não tive uma resposta para a observação que a voz fez sobre mim. Decidi ignorar. Não me atingiu em cheio como costumava no início, na verdade já ouvi coisa bem pior dela.


Partida

Montei na moto e dei partida.

Pilotei no trajeto para casa no modo automático. A moto sabia de cor as ruas da cidade, sabia os horários que eu tinha para chegar, ela previa qualquer coisa. Eu só montava nela e deixava tudo acontecer. Houve uma vez em que ela me levou para uma rodovia, e continuou conduzindo para sabe lá onde. Por algum motivo ela retornou e me trouxe de volta para a minha vida.


Em casa

No mundo pandêmico de antes, era onde todos deveriam estar, afinal.

Mas a vida é diferente para muitos. Há muitas bolhas nesse tecido de realidade, tantas bolhas que é como se a Terra fosse um canecão de água fervente.

Dentro da bolha que eu vivia, eu era obrigado a sair para ganhar o sustento. Evitava, obviamente, as aglomerações, os churrascos, e qualquer tipo de evento, embora eu fizesse isso bem antes do mundo pandêmico.

Arranquei a camisa e a joguei junto com meu par de calçados. Sem cerveja na geladeira, era óbvio, mas eu tinha o hábito de conferir sempre.

No quarto, a tela do notebook me encarava, julgando...exigindo.


O Salão Escuro

Cansado de mais um dia de perrengue em uma cidade corrupta, fui até o bar mais próximo comprar a cerveja.


Fui e voltei a pé. Na metade do caminho para a volta eu já tinha matado uma latinha em uns dois goles. Em menos de cinco minutos já havia 350ml de cerveja no meu corpo, e eu acabava de abrir a segunda.


Uma sombra súbita caiu sobre a cidade, finalmente uma chuva depois de dezenas de dias secos.


Criou-se nos céus uma mistura de nuvens pesadas com as fumaças dos incêndios. Foi a morte do sol naquela tarde.


O mundo é um grande salão escuro, pensei.


“Não exatamente, há um grande mundo preso num salão escuro em você!”


Não questionei. Matei a segunda cerveja e continuei a andança, observando a cidade sendo tomada pela grande sombra que se formava nos céus.


Cheguei em casa já com a quarta cerveja liquidada. O arrependimento não veio por eu ter quebrado a promessa de não beber durante a semana. O arrependimento sempre dava as caras no dia seguinte.


Abri a quinta cerveja no quintal da minha casa. A trilha sonora do ambiente era boa: pássaros cantavam alvoroçados pelo som dos trovões. Terminei a cerveja e entrei, o clarão dos relâmpagos invadiam pelas janelas semiabertas.


No celular, inúmeras mensagens, alguns conhecidos, coisas de serviço, o empresário corrupto esperando minha decisão, alguns familiares, enfim. Acabei ignorando todas, não estava com pique para manter uma conversa. Precisava de um banho.


Houve uma martelada dos deuses no céu. A luz oscilou, a internet havia caído. Ainda com uma crença antiga de que não se deve tomar banho durante os temporais, decidi adiar a ducha até o tempo estabilizar.


Portanto, fui até a pia do banheiro, joguei água na cara e repeti o processo por umas três vezes. Enxuguei o rosto e fiz menção de sair do banheiro.

Alguma coisa havia chamado a minha atenção no espelho. Fiquei me encarando por algum tempo. Eu só estava cansado, pelo menos era isso que eu queria afirmar para mim.

Apaguei a luz e fiquei parado na porta do banheiro, pensando no que diabos estava acontecendo.


A curiosidade me fez voltar até o espelho, agora com a luz apagada. A iluminação era toda através da luz cinza e escura que vinha da janela, com alguns flashes estourados dos relâmpagos.


Ali estava eu diante do espelho. Estava eu no espelho. Fiquei olhando para aquela duplicata minha, mal iluminada, quase uma silhueta.


Uma mão invisível me puxou pela nuca e me fez bater no espelho, o fazendo trincar. O sangue quente escorria pela minha testa.


A mesma mão invisível me puxou de volta, mas eu resisti, me apoiando na pia. Ainda assim, fiquei a poucos centímetros espelho.


Foi quando percebi... Eram os olhos. Nos olhos, para ser mais preciso. Tudo acontecia na pupila.


Fiquei me encarando, sendo hipnotizado pelas pupilas, aqueles dois pontos negros e vazios. De tanto encarar, acabei por visualizar apenas um ponto negro no espelho. Não havia mais face e nem corpo naquele espelho trincado. Apenas um grande ponto negro e esfumado nas extremidades.


Eu ouvia muitos sons. Não conseguia identificar se era exatamente a chuva torrencial, as trovoadas e as rajadas de vento, ou se eram sons de alguma outra coisa.

Era uma peleja, uma luta corpo a corpo entre dois indivíduos. Conseguia ouvir claramente uma briga acontecendo.


Os golpes soavam pesados, pareciam dois gigantes lutando. E realmente eram.


Duas silhuetas começavam a aparecer naquele grande ponto negro.


Estava nítido, enfim. O anjo e o diabo lutavam.


Um combate visceral. Ambos matavam um ao outro inúmeras vezes e o processo se repetia infinitamente.


Aos poucos, meu reflexo foi voltando ao normal.


Enxergava apenas a mim mesmo, com um talho na testa e sangue escorrendo nas bochechas.


Caminhando na Névoa Devoradora

A campainha tocou.


Um horário estranho para visitas, e a situação climática não era propícia para receber e nem fazer visitas. Ainda chovia, não tão forte como alguns minutos passados, mas caía água em quantidade razoável dos céus.


Não poderia ser coisa boa. Com certeza não. Olhei no celular procurando pelas mensagens por algum aviso e não havia nada.


“Atenda a porcaria da visita. E vá armado.”


Peguei meu revólver, uma Glock esquecida no guarda-roupa. Um presente de um amigo antigo.


Não recomendo que tenham armas em suas casas, mas naquele dia eu agradeci por ter uma. Cada caso, um caso, toda regra tem exceção, enfim, não vou ficar aqui advertindo que é perigoso ter uma arma. Vocês sabem disso. Armas matam, então é perigoso, caralho.

Vesti a camisa, escondi o revólver na parte de trás da minha cintura. Fui até o portão.

A visita era o miserável do empresário corrupto.


Estava com aquele sorriso arrogante no rosto, mal iluminado pela luz amarelada do poste.

- Tá ocupado? – perguntou o miserável.


- Morreu alguém? – o provoquei com uma contra pergunta.


Reparei que a chuva estava minguando e descia uma neblina pesada.


O sorriso do miserável murchou.

- O assunto é sério – ele disse.


- É melhor que seja um assunto gravíssimo – mais sarcasmo.


Meus pensamentos ficaram mais acelerados, as vozes se misturavam, e eu não entendia nem o que e nem quem estava falando dentro da minha cabeça.


- Eu preciso que você faça aquele serviço, cara. Pelo amor de Deus.


A voz dele soava meio chorosa, como se implorasse. Mas eu já sacava que era apenas manipulação.


- Você já sabe da minha decisão...


- Vamos fazer assim – ele cortou a minha fala e eu odiava isso. Ainda odeio – Eu vim aqui nesse horário porque tô com o filho do dono da obra lá no boteco aqui perto do bairro. Ele quer falar contigo também. Eu prometo pra você que se a gente não fechar acordo hoje, eu esqueço esse assunto e paro de encher seu saco.


Não parecia tão ruim. Aceitei.


Ele insistiu para ir com ele no carro. Recusei e fui com minha moto.


Segui ele até o boteco. Eu morava fazia uns três anos naquele bairro e nunca tinha visto e nem ouvido falar daquele boteco. Era uma espelunca pequena mal iluminada, suja e fedida. Por que o filho do dono da obra estaria num lugar daqueles?


Era óbvio, fui atraído para uma pilha errada. Fui otário, admito. Mas a Glock me deixava seguro naquela hora.


Entrei e o miserável foi logo se prontificar para abaixar a porta. Não deixei.


- Não quero ficar muito tempo aqui. Deixe aberta.


Apareceu o que julguei de imediato ser o filho do dono da obra. Tinha o mesmo perfil do rapaz da farmácia que eu citei antes, só que esse era um pouco mais carrancudo.


- Cadê o dono desse boteco? – ajeitei o revólver discretamente por baixo da camisa.


- Ele é o dono – o miserável apontou para o rapaz metido.


- Na verdade meu pai que é, e o cara que cuida desse barzinho tá caído de bêbado.


- Faz sentido – eu disse – O que a gente tem pra conversar aqui?


- A gente precisa de um prestador de serviço pra concluir algumas coisas daquela obra, um cara do seu jeito, que trabalha sozinho, reservado, eficiente. O pessoal fala bem do seu trampo aqui na cidade.


- Que ótimo – eu disse – Então podemos fazer um contrato de prestação de serviço e eu vou lá trabalhar sozinho, sem ter nenhum tipo de vínculo empregatício.


- Não é bem assim – o rapaz metido se serviu de uma cerveja, sem oferecer para ninguém – Nosso amigo aí – ele apontou para o empresário corrupto – Conseguiu entrar pra vereador. Ele conhece um pessoal grande na política e pode escalar rápido lá dentro, e isso vai ajeitar o nosso lado. Todo mundo aqui vai sair ganhando, se você parar de frescura e ter estômago e coragem pra assumir a bocada.


Eu me recostei no batente da porta, assimilando o que o segundo filho da puta naquele boteco acabara de falar.


- Politicagem – soltei – É, ficou pior do que eu pensei. Vocês precisam entregar aquela obra o mais rápido possível e não conseguiram achar ninguém pra fazer o serviço, e tão ficando sem tempo. Que situação, hem. Politicagem – eu disse com o um sorriso de desprezo – Isso deixa mais fácil a minha decisão.


Houve um trovão, uma martelada homérica nos céus. A luz do boteco oscilou e enfraqueceu.


O metido do rapaz fez menção de sacar alguma coisa da cintura.


Eu fui mais rápido e saquei minha Glock, disparando cinco vezes no sujeito, sem pestanejar.

Não me lembro o que o empresário tentou fazer, mas eu atirei duas vezes na cabeça dele.

A luz do boteco piscava, instável. Meu coração parecia estar estourando minha caixa torácica. Os cães latiam e uivavam pelos arredores dos quarteirões.

Fui me afastando aos poucos, abaixei a porta e caminhei para longe, pois não conseguia correr.


Adentrei pelas ruas e atalhos mais vazios que eu encontrava. Minha cabeça latejava e minha visão se ofuscava pela névoa pesada daquela noite.


“Ele só quis pegar o celular”, disse a primeira voz.


“Não, um sujeito desses com certeza anda armado até par ir no banheiro. Ele provavelmente iria sacar um revólver pra te intimidar, e poderia até te matar. Afinal, ele te atraiu pra aquela espelunca no meio nada”, disse a outra voz.


Seja lá o que fosse, não me arrependia e nem me arrependo agora de ter tomado a tal decisão.


Segui meu caminho, me espreitando pelas ruas vazias e pelos atalhos baldios, sendo devorado pela névoa noturna.


Epílogo

Escrevo agora de outro lugar, de outra cidade. Consegui evadir daquela situação. Montei na moto e fui vendo a cidade desaparecer pelo retrovisor.


Sobre os eventos no espelho, atribuo às mazelas psicológicas que me assolavam naquela época e também por ter uma infância católica. Não sou religioso, porém, os resíduos do catolicismo estão escondidos nos recantos mais sombrios de minha mente.


Levo uma outra vida, um pouco mais tranquila e com uma qualidade de sono melhor, e sem ouvir nenhuma voz me atazanando.


Presto alguns serviços por aqui e vivo confortavelmente bem.


Claro, ainda carrego minha Glock, esse presente de um antigo amigo. Caso surja alguma outra desventura...


Não é certo que esse personagem retorne para uma próxima história, mas, levando em conta seu temperamento e sua deficiência no trato social, é bem provável que ele retorne sim... algumas vezes.


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