A Obra


Se cansou aos quarenta e dois anos e foi para o terreiro de casa.


Lá jazia uma laranjeira, morta havia pelo menos um ano. Ele vestiu um kimono e foi até ela. Arrancou-lhe os galhos mais depreciados e começou seu trabalho, o mesmo que seria seu destino daquela decisão em diante.


Consigo levou um conjunto de pincéis, três para ser mais exato, e uma faca cega. Iniciou sua obra. Passava lentamente a faca por sobre o tronco da velha árvore, que parecia agradecer com um sorriso por ser lembrada após tanto tempo.


A cada pequeno corte, alguns minutos de pinceladas para remoção da fuligem. Todo cuidado era necessário, pois ali estava escondida a razão da existência daquela constituição fisiológica que não tinha maior importância para os demais, posto que seu sumiço sequer fora notado. Mas agora, aquele corpo que não pedira para nascer seria lembrado e festejado, pois a obra de uma vida em breve se mostraria naquela madeira já morta, ou no que um dia terá sido tal coisa.


A casa ficava rente ao passeio e tinha muro baixo, o que atraia para o jardim muita sujeira da rua. Alguns carteiros continuaram trazendo correspondências, de início, pois a fachada ainda insinuava vida. Contas de luz, de água, de telefone, Internet (e outras coisas das quais ele tinha se cansado). Mas após alguns meses, acreditando que por lá ninguém mais dava as caras, julgaram que o trabalho seria perda de tempo, o que deu espaço ao lixo que começou a ser trazido pelos poucos vizinhos, que viam no local um atalho para seus despejos.


Como o lugar fora dado por abandonado, adolescentes buscando por sossego em eventuais cópulas furtivas ou por novos estados de consciência também faziam uso da construção, sem imaginar que logo ali no terreiro, logo abaixo daquela sacada suja e lodosa vivia um igual sem tempo para vícios humanos. Ali vivia alguém que deixaria sua marca para e na posteridade.


Alimentando-se de plantas que por ali cresciam em liberdade ele continuou a trabalhar incessantemente. Se irritava ao ter que interromper a obra por coisas mundanas como necessidades fisiológicas. Quase não dormia. Estava obcecado em talhar aquela madeira e extrair dali o que já esperava para ser libertado desde o surgimento da semente.


Talhava com calma monástica, limpava, alisava com os dedos e até com a língua, pois nada além da perfeição seria aceito.


E por quatorze anos essa busca se prolongou. E dois dias antes de seu aniversário de cinquenta e seis anos, a obra estava concluída. Sentou-se próximo a ela e observou. Seu organismo não era mais capaz de produzir lágrimas, dada a maneira como fora negligenciado na última década e meia. Ventava e relampiava como nunca se vira. Em estado de contemplação ele se manteve por mais vinte e seis horas, avaliando todos os detalhes da lembrança que deixaria para as próximas gerações. Sentiu-se orgulhoso por ter materializado, talvez, a maior égide à criatividade humana. Deitou. Adormeceu. Não voltou a se levantar.


Ao final de uma semana o cheiro putrefato tomou conta da vizinhança, que após tanto tempo crescera notavelmente. Julgaram todos que por ali era seguro de haver uma ninhada inteira tendo com a parca.


A prefeitura ouviu as reclamações e mandou demolir o local. Um trator adentrou e cumpriu a ordem, colocando tudo abaixo, sem arrenpendimento. O operador da máquina, ao revirar os escobros, percebeu um toco de madeira com formato estranhamente arredondado. Achou curioso. Colocou tudo na caçamba e foi embora.


16 visualizações0 comentário

© 2020 Círculo das Artes. Todos os direitos reservados. 

CNPJ: 16.543.666/0001-26

ola@circulodasartes.com.br