A Recusa




Estava eu muito grato por ter, ao menos uma vez na vida, conseguido embarcar em um ônibus que não estivesse lotado.

Veja bem: vazio não estava.

Tanto que, eu viajava de pé mas, não estava lotado como normalmente.

Em dias normais, juro a vocês que me sinto como o dedão de um pé tamanho quarenta e dois enfiado em um delicado sapato trinta e quatro.

Até o costumeiro calor parecia mais ameno.

Porém, uma coisa nunca muda em uma viagem de ônibus, estando ele lotado ou não: os vendedores ambulantes.

Nada contra eles, diga-se de passagem (com o perdão do trocadilho).

São pais e mães de família excluídos do mercado formal de trabalho, procurando ganhar o seu sustento.

Foi quando um deles entrou no ônibus que toda a confusão começou.

Após entregar o seu produto a todos, fazer o discurso habitual e recolher de volta a mercadoria, parou em minha frente e me encarou seriamente.

- O senhor vai querer a mercadoria, meu chefe?

- Não, obrigado – respondi distraidamente.

- Tem mesmo certeza que não vai querer?

- Sim, tenho.

- E não vai querer porquê?

Olhei para ele meio confuso pois, aquela pergunta nunca me tinha sido feita daquela forma e, sinceramente, não sabia direito como responder.

- Porque não tenho utilidade para isso – respondi finalmente.

- Não tem utilidade – respondeu o rapaz com um claro tom de ironia.

- Desculpe, não entendi – questionei ainda mais confuso.

- Eu entro no coletivo, apresento meu produto enquanto o senhor nem se dá ao trabalho de olhar (o que só mostra o desprezo que tem de pessoas como eu que, estão aqui exercendo uma digna profissão), para depois ter que ouvir isso: não tem utilidade. Porque eu haveria de vender um produto que não tem utilidade? Pareço uma piada para o senhor?

- Não foi isso que quis dizer – respondi encabulado enquanto ouvia alguns rumores dos passageiros dizendo que o vendedor tinha razão – quis dizer que não tem utilidade para mim.

- Então o senhor está dizendo que, todas as pessoas que se interessaram e as que compraram, adquiriram uma coisa que, na sua visão, é inútil? O senhor está chamando os outros passageiros de fúteis?

O burburinho no ônibus aumentou e já tinha gente me olhando feio.

Nervoso, tentei me explicar:

- Não, não. Jamais quis dizer isso. Acho que seu produto tem uma extrema importância. Só que, neste momento, não tenho uso para ele...

- Alguém está filmando a cara de pau deste sujeito? – gritou furioso – Olhem o tamanho do cinismo! Agora ele está dizendo que balas de gengibre são de extrema importância para nossa sociedade!

As pessoas começaram a se exaltar.

Uma senhora sentada próxima a mim, deu um chute em minha canela e uma moça me chamou de porco fascista.

- Mas vocês sabem o que é isto, meus amigos? É a mais pura forma de preconceito social e racial!

Ponderei que, racial era complicado de ser pois, nós dois tínhamos o mesmo tom de pele e social... Se eu fosse socialmente “superior”, o que estaria fazendo em um ônibus?

Mas, antes mesmo de eu transformar esta ponderação em palavras, um sujeito que deveria ter uns três metros de altura por dois de largura, levantou-se e, com uma voz que parecia um trovão em dia de tempestade, falou bem no meu “pé de ouvido”:

- Se seu problema é porque o cara é “negão”, você tem um problema comigo também!

- Problema nenhum – falei baixinho – nem com ele e nem com você.

- Então prove – trovejou o gigante.

- Provar como?

- Compre a mercadoria do rapaz e aperte a mão dele!

Olhei ao redor e vi que ninguém, absolutamente ninguém, me olhava com bons olhos dentro daquele ônibus.

Temendo por um linchamento ou algo do tipo (se bem que, só aquele gigante já seria suficiente para isso, sem precisar da participação de mais ninguém), comprei não só as balas para mim como para todos os passageiros do transporte coletivo.

O cobrador pareceu não querer muito as tais balas mas, talvez temendo tomar o meu lugar, as aceitou de bom grado.

Foi então que a maré virou: as pessoas me abraçaram, tiraram fotos e fizeram vídeos comigo e até pediram meu número de telefone.

O gigante, satisfeito, me deu um tapa nas costas que, eu juro, fez com que meu espírito saísse do meu corpo por alguns segundos.

- Você é um cara legal – comentou mostrando a bala entre os dentes.

Mas, nos dias de hoje, celebridades aparecem e são esquecidas em pouco tempo e, rapidamente todos esqueceram de mim.

Me aproximei então do vendedor, que ainda estava alí a contar o meu dinheiro, que agora era dele, para esclarecer as coisas.

- Olha – comecei – não tenho nada contra você, nem sua profissão e principalmente, nunca fui racista.

- Eu sei – respondeu distraidamente.

- Mas então...

- Estou estudando para ser advogado, sabe? Então resolvi usar as técnicas que aprendi para melhorar as vendas. Você estava lá, paradão, olhando para o nada... aí eu pensei: este é o cara que vai me fazer vender todo o meu estoque! Viu como funcionou?

E, sorrindo, me ofereceu uma bala como compensação pelo incômodo.











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