A Três Irmãs

Naquela casa escura viviam as três irmãs, doentes, esperando que a doença cumprisse logo sua promessa. Na cama de cima da beliche surrada, imóvel, mirando o teto, a irmã mais velha, vítima de AVC. No sofá da sala, cabisbaixa e flertando com o chão empoeirado, a irmã do meio, com aparência de anzol curvado à esquerda graças à sua coluna defeituosa. Na cadeira de balanço a ponto de ruir, no meio da sala, com olhos fixos na maçaneta da porta da rua e expressão de pânico, a irmã mais nova, que naquele ano completaria sessenta anos.





As deficiências de higienização do local eram pronunciadas. A irmã mais velha tinha suas necessidades fisiológicas atendidas ali mesmo na cama, que vez ou outra também servia de repouso para a irmã do meio. Esta última, apesar da coluna em ‘S’, cuidava ainda da mais nova, que seja por hipocondria ou por aversão a água tinha em escamas boa parte da pele na região da genitália, situação comparável à de seu couro cabeludo. A podridão abarcava tudo no recinto, do odor às memórias, principalmente as últimas.


Duas vezes por dia, ao amanhecer logo que o sol se mostrava e ao anoitecer logo que ele partia, uma sessão de choro tinha início. O pranto rogava com semântica inequívoca: “leva-me”. Ao final dos soluços a calma era retomada, mas os olhos se mantinham fixos nos mesmos lugares de antes. Alguém dotado de maior perspicácia poderia compará-las naquele momento a um artista cuja consciência havia sido transferida para a obra. No caso delas, a obra era uma vida que poderia ter sido.


Não havia parentes nem amigos nem diferença entre os dias. A única novidade – que era aguardada com certa angústia – se manifestava em um grito esporádico da irmã mais velha quando sua bexiga perdia as forças. A irmã do meio se levantava e com certa exultação promovia a higienização, ainda que de forma precária. A irmã mais nova também desviava sua atenção para aquele ato. Era uma experiência humana afinal.


É claro que aquele não era o enredo que qualquer das três teria em mente se questionada antes da abertura das cortinas. Mas depois de tantas amigas que não eram corretas o suficiente, tantos namorados que não eram sérios o suficiente, tantas ocupações que não eram dignas o suficiente, as três concluíram que na verdade a insuficiência estava com elas. Essa constatação fora reforçada na juventude a cada sessão corretiva, a cada pancada, a cada dia passado no escuro, a cada ingestão de pimenta, a cada sabonete degustado. Não era possível que alguém errasse tanto. Não era possível tanta inadequação.


O que buscava a irmã mais velha no teto? Seria o beijo roubado da prima aos oito anos ou o que se escondia sob a batina do pároco local que presenciara a cena e aplicara, in loco, uma lição de bons costumes? E a irmã do meio? Estaria aquele assoalho servindo de moldura para o quadro da clarineta com a qual certo dia considerara interagir ou para as chagas abertas pela vara de marmelo com a qual fora dissuadida de suas intenções? E quanto à irmã mais nova? O que via naquela porta? Um filme de sua volta ao mundo ou a escuridão do porão que fora sua única companhia por trinta dias quando confidenciou suas aspirações a seus progenitores? Não era possível saber, mas era possível afirmar que aquelas memórias estavam desgastadas, com prazos de validade ultrapassados após tantos anos.


Um dia não amanheceu. As três aguardaram com apreensão o momento que ainda justificava a existência daquelas consciências – os corpos já haviam dado por terminado seus trabalhos. As lágrimas já estavam programadas após tantos anos, e começaram a escorrer, mesmo sem a permissão da luz. E no auge da aflição que derivava de mais aflição, a irmã mais velha teve um lampejo. Lembrara-se das ordens de sua mãe: “cuide de suas irmãs”. Obediente, murmurou em resposta, “sim senhora”.


Se arrastou até a beira da cama e repetiu, “sim senhora”, enquanto lançava seus restos ao chão. As irmãs ouviram o barulho seco. A irmã do meio foi até o quarto, lentamente, saboreando a novidade. A cabeça da irmã mais velha havia sido o primeiro alvo do solo, e aquele corpo franzino, contraído, se debatia cada vez mais lentamente até que se acalmou por completo. Depois de décadas o brilho retornara aos olhos da irmã do meio, que se retirou do local sem tocar a mais velha. Passou rapidamente pela sala, sendo observada pela mais nova (que não se atrevera a ir até o quarto), apanhou uma faca suja na cozinha e a colocou na boca, com a lâmina depositada na parte de dentro da cavidade. Retornou à sala tão saltitante quanto sua coluna permitia. Tocava com os dedos no utensílio como se executasse a mais alegre das melodias na mais bela das clarinetas. Se aproximou da irmã mais nova que compartilhava do mesmo semblante desanuviado. O regozijo já havia se alastrado pelo ambiente.


A irmã do meio ajudou a mais nova a se levantar. O odor resultante poderia facilmente ser percebido do lado de fora, mas aquilo já não tinha mais qualquer importância. Abriram juntas a porta. O amanhecer não renascera naquele dia por causa da forte tempestade que se aproximava. Bendita seja a tempestade. Apenas automóveis povoavam as ruas. As irmãs seguiram abraçadas, se amparando, até bem próximo da via por onde um motorista guiava seu caminhão mais preocupado com seu rádio do que com o caminho. Elas se olharam pela última vez. Sorriram. A irmã do meio empurrou a irmã mais nova. O sangue coloriu o local. Uma gota desse sangue descansou sobre o rosto da última irmã, que agora tocava a faca com destreza admirável, com a coluna ainda em ‘S’ e com o olho direito coberto de sangue. A cena foi experimentada pelo motorista que descera trêmulo do veículo, e que também fora o primeiro e único espectador do ato final, quando a irmã, saltitando sobre a perna esquerda, vagarosamente pressionou a lâmina contra a própria garganta, cada vez mais lentamente.


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