Amor Fati

Eu caminhava distraído pelas ruas estreitas daquela cidade tão charmosa. Eram cinco da tarde de um domingo de final de Outono, logo, quase noite. Apesar da calçada majoritariamente composta por paralelepípedos escorregadios e da iluminação deficitária, eu olhava para cima o quanto podia, a fim de capturar a beleza de cada um dos prédios renascentistas e do conjunto arquitetônico.





Cheguei ao final de uma rua que oferecia duas possibilidades, a direita ou a esquerda. Apesar de ambas estarem vazias, escolhi a da direita e continuei. Não devo ter dado mais que dez passos quando vi, caminhando em direção oposta, uma jovem e seu cão. Ela, aparentando algo em torno de trinta anos, cabelos amarelados, estatura mediana, botas marrons, calças pretas e um sobretudo também preto que cobria uma blusa de lã azul. O cão, um pastor alemão aparentemente mestiço com alguma raça de porte menor. Eles caminhavam em velocidade similar à minha, com a moça segurando a guia na mão direita. Ao nos aproximarmos, olhei para ela no intuito de cumprimentá-la, mas ela tinha os olhos fixos no cão. Olhei então para o animal, que possuía um semblante amigável, e recebi em troca um sonoro e confiante, porém amistoso, “boa tarde”.


Rapidamente inspecionei o cenário ao meu redor, mas não vi qualquer indivíduo que pudesse me ter saudado daquela maneira. Estávamos nos cruzando, a moça, o cão e eu, quando ouvi novamente “boa tarde”. Olhei de novo para a moça, mas seus olhos ainda estavam fixos no animal. Esse último porém carregava um sorriso displicente e completou a saudação, “tarde fria porém bonita, não”? Confesso que sou afeito a animais e em especial a cães, portanto estabelecer diálogo com um deles é algo que eu sempre imaginara como desejável, até que aconteceu. Entre meu susto e minha busca pela reação correta, ainda ouvi, “não se preocupe, ela não se importa que eu converse com estranhos”.


Eu deveria ter me assustado, ou imaginado que aquilo se tratava de um chiste, mas ao invés tomei como algo momentaneamente normal e respondi, “sim, as tardes frias nesse ambiente sempre ficam esteticamente mais interessantes. Penso que essa arquitetura não combina muito com a luz natural”. O cão tomou com atenção minhas palavras, ou pelo menos era isso que a expressão de seu rosto entregava, e concordou, “observação interessante, de fato, sempre preferi passar por aqui à noite, obrigado por chamar minha atenção. O senhor parece ter bom julgamento estético”. Aceitei o elogio e acrescentei, “sou um amante das artes”. “Magnífico! Eu sou escultor. Gostaria de continuar essa conversa em um café?”, ele indagou. Eu já passava a considerar a hipótese, porém, não estava certo de como seria recebido pelos demais um diálogo entre um homem e um cachorro, principalmente pelos garçons. Imaginei que sua dona pudesse tomar parte na conversa, mas ela tinha a mesma expressão de quando a vi ainda se aproximando, um sorriso interrompido e os olhos fixos no cão. Declinei dizendo que “eu adoraria, mas estou com um pouco de pressa, sinto muito”. O animal não conseguiu esconder a frustração e baixou os olhos por alguns instantes, mas quase imediatamente reabriu o sorriso e com excitação, que também pude perceber pelo balanço agitado de seu rabo, propôs, “e que tal um café, na sua casa, na terça?”. A ideia me agradou, pois assim poderíamos conversar sem temer julgamentos. “Ótimo. Às cinco da manhã? Assim ainda teremos a penumbra mas também a expectativa de um dia inteiro”, propus. Ele aumentou a intensidade dos movimentos de seu rabo e apoiando as duas patas dianteiras em minha perna esquerda, me lambeu a mão e concordou, “perfeito, estaremos lá”. Olhei para a moça, buscando uma aprovação, mas nada vi de diferente. Dei meu endereço e nos despedimos. Alguns passos depois ouvi ainda uma última informação, “esqueci de dizer, meu nome é Fred”. Também contei a ele meu nome e seguimos como antes, em direções opostas.


Na terça às 4:55 ouvi batidas educadas à porta. Abri e lá estavam a moça e o cão. Ela trajava as mesmas roupas de domingo, segurava a guia com a mesma mão e continuava com o sorriso interrompido e o olhar fixo na região lombar do cão. Ele balançava freneticamente o rabo e trazia na boca uma peça de barro. Convidei-os para entrar e junto com eles entrou um vento gelado que me fez arrepiar os braços. Ele colocou no chão a peça que trazia e me explicou, “é um presente”. Recolhi a peça e limpei a saliva. Tratava-se de um martelo de barro em tamanho normal, muito bem esculpido e com o nome “Fred” gravado no meio do cabo. Agradeci e conduzi ambos para a cozinha.


Eu havia preparado ainda na noite anterior um bolo de cenoura, uma torta de pão e também havia comprado alguns biscoitos de chocolate com canela. Na cozinha eu tinha uma mesa com três lugares. Pedi a eles que se sentassem enquanto eu passava o café. A moça se sentou à direita e Fred ao centro. “Você tem uma casa aconchegante, muito bem decorada e parece ser confortável em todas as estações”, elogiou Fred. Agradeci mas elucidei que na verdade não era bem assim, pois a casa apresentava problemas de infiltração e tinha uma janela emperrada que deixava entrar muito vento, o que tinha efeitos muito desagradáveis durante o inverno. Ele assentiu com a cabeça e com o rabo.


Levei a garrafa até a mesa e perguntei à moça se ela preferia com ou sem leite. “Sem”, respondeu Fred, que em seguida completou, “ela nunca bebe leite”. A moça permaneceu impassível. “Da minha parte, eu gostaria de um terço de leite, por favor”. Fiz como ele requisitou e para mim servi apenas café. Fred e eu demos um gole, ao mesmo tempo, mas a moça não. Ele, percebendo meu incômodo socorreu, “não dê importância, ela prefere mais frio”. Deu mais um trago na bebida e comentou, “o açúcar está muito bem dosado. Você tem cuidado com os detalhes”, e antes que eu pudesse responder, emendou, “ainda no assunto da sua casa, conhece Nietzsche?”. Não entendi a relação de pronto mas sim, algumas de suas ideias me eram familiares, ao que confirmei. “Você concorda com a ideia de amor fati?”, indagou. “Penso ser, assim como o resto da existência, um conceito relativístico”, respondi. Ele me olhou como se já soubesse que aquela seria minha resposta. “Geralmente é o que todos pensamos quando consideramos melhor a ideia. O problema é que paramos aí, quando acreditamos já ter aprofundado o suficiente. A verdade é que essa afirmação é assustadoramente rasa”. A moça ergueu a mão esquerda e agarrou a xícara, sorvendo um pouco de café enquanto mantinha todo o resto do corpo imóvel, inclusive os olhos.


“Rasa por que?”, indaguei. “Porque coloca a questão como binária” respondeu Fred, logo após sorver um pouco de café. “O contra-argumento é sempre o mesmo, que aqueles que se encontram em situação de injustiça ou sofrimento não deveriam sentir amor fati e sim um impulso no sentido contrário. Mas isso em nada invalida a ideia. E se o indivíduo se tornar voluntariamente afeito ao sofrimento? Não experimentará uma alegria que apenas poucos conhecem? Se quando injustiçado desenvolver uma apreciação pelo martírio, não estará regozijante durante sua resignação? O solipsismo é a única forma de se tornar inviolável. Seja via Nietzsche ou via Buda, no final, apenas a própria consciência é capaz de definir a existência. Não existe rei ou escravo além do que a consciência de cada qual definir. O resto são alucinações coletivas”.


Ouvi Fred com a xícara encostada nos lábios sem de fato sorver o café. Mesmo quando percebi que ele havia terminado, ainda permaneci na mesma posição por alguns segundos enquanto tentava encontrar uma resposta. Eram bons argumentos, contra os quais eu nada tinha o que oferecer. Considerando que vinham de um cão, a situação se tornava ainda mais vexatória. E como se lendo a situação a partir da minha própria perspectiva, Fred completou, “não se sinta mal ao ser contradito por um cão, como eu disse, rei e escravo não existem além de ideias, o mesmo se aplica a nós”. Durante esse último pronunciamento, Fred já descia da cadeira e sacudia o pêlo. Se espreguiçou como fazem os cachorros e me convidou, “venha apreciar um exemplo do que acabo de dizer”, enquanto tomava a direção da porta. A moça, que não havia soltado a guia desde o início, também se levantou e seguiu na mesma direção. Ao chegarem à porta, Fred me olhou com amabilidade e pediu, “poderia por favor abrir a porta?”. Rapidamente me levantei e fui até a maçaneta, abrindo a porta e novamente deixando entrar um vento gelado. Eram 5:35 da manhã. Os dois saíram e se encaminharam até a porta da casa vizinha, que a moça abriu sem tirar os olhos de Fred. Entraram e ele reforçou, “entre por favor, e fique à vontade”.


Apesar de já morar havia algum tempo em minha casa atual, eu nunca encontrara um único vizinho. Vez ou outra percebia alguns sons vindos da parede, sons que se assemelhavam a gemidos, mas nunca dei maior importância. Entrei na casa e vi um lugar simples e organizado, bastante limpo e com decoração predominantemente marrom. O lugar tinha um layout idêntico ao de minha casa, talvez pelas duas residências pertencerem à mesma pessoa e terem sido construídas ao mesmo tempo. Caminhamos pelo corredor e a casa parecia estar vazia até entrarmos no quarto.


Lá estava uma mulher que aparentava oitenta anos, muito magra, nua, suspensa por cordas que a deixavam imóvel sobre uma cama de lâminas, semelhante àquelas utilizadas por faqirs em suas exibições. A mulher tinha os braços e pernas roxos nas regiões onde estavam as amarras. Ao nos ver, não demonstrou qualquer surpresa. Olhou primeiramente para mim, diretamente nos olhos. Tinha um olhar forte e sereno, daqueles que só desenvolvemos quando não existe medo, ou quando a resignação é aceita como único caminho. Em seguida olhou para Fred e pareceu esboçar um sorriso, que foi completado ao olhar para a moça, que continuava a olhar para a lombar de Fred como na primeira vez que a vi.

“Antecipando seus questionamentos, sim a conheço e sim, a coloquei aqui, há trinta e oito anos”, disse Fred, balançando o rabo e me olhando nos olhos com a mesma expressão amigável de sempre. Não pude evitar dar dois passos para trás. “E apesar de saber que você quer a razão do meu ato, vou antes enunciar o efeito, que é o mais importante e também a razão de estarmos aqui”. Rapidamente me virei e segui em direção à porta, mas antes da metade do caminho ouvi um latido alto e raivoso. Me virei e pude ver Fred com os dentes escancarados e rosnando como eu jamais poderia imaginar. Voltei para o quarto e a mesma expressão amigável de antes também retornara à sua face.


“Perdoe pela forma, mas não posso deixar que você se vá antes de entender o porquê de eu ter classificado sua interpretação de amor fati como rasa. Olhe para ela. Está ali há trinta e oito anos, imóvel. Seus membros já estão perdidos com a gangrena. A dor é imensa, como ela já me confessou quando podia falar. Mas perceba o resultado. Ali está a concretização do amor fati. Se ela continua como está, ainda pode respirar e sua consciência continua ativa. Se as cordas se romperem ou seu corpo decidir que é o momento de parar, não há muito a ser perdido. Sem ter ao que recorrer, apenas sua consciência importa. Não existe mais medo, apenas amor, amor fati. Sua existência é tão solipsista que beira o egoísmo, e eu a invejo por isso, apesar de também estar feliz. Ela é uma guerreira, uma rainha, uma celebridade, as três ao mesmo tempo ou o que mais ela decidir. O espírito combativo venceu a fome e a dor, a majestade a colocou acima dos demais seres, o que a tornou digna de ser celebrada”, explicou balançando efusivamente o rabo.


Apesar de seu ímpeto na explicação, apenas uma questão existia na minha cabeça, que era como aquela mulher chegara àquela condição. Fred novamente antecipou, “e não me julgue imaginando que a coloquei ali contra sua vontade. Nos conhecemos na mesma rua em que conheci você, no mesmo horário. Tomamos café ali naquela cozinha em outra manhã fria. Contudo, ao contrário de você, ela não relativizava a consciência, apenas tinha medo de suas próprias conclusões. A liberdade é um fardo pesado para quase todos, e eu apenas a ajudei a carregá-lo. Você também precisa de ajuda”.


Saí correndo em direção à porta mas antes que pudesse alcançá-la, senti uma dor forte na panturrilha. Olhei e vi as mandíbulas de Fred cravadas ali. Apesar de meus gemidos de dor, ele me arrastou de volta para o quarto. A jovem e a velha ainda estavam na mesma posição, mas Fred agora estava livre, a menina não mais segurava a guia. “Sinceramente não entendo, você parecia feliz ao interagir comigo, parecia gostar de cachorros”, disse ele, com expressão de sincera consternação. “Sim, eu gosto, mas suas ações não se parecem com as de um”, retruquei, ainda com medo em decorrência da mordida, mas também com um pouco de raiva por estar onde eu me encontrava. “Por que não? Não é o cão o melhor amigo do homem? E o que fazem os amigos, não se ajudam mutuamente? Não existe real amizade sem reciprocidade. Os cães ficam felizes em fazer felizes os homens, e vice-versa. Assim, eu dou a você uma dose de verdade, o que te faz feliz, e sua felicidade me deixa feliz. Na vida, existem aqueles que gostam de oferecer e aqueles que gostam de receber. Os primeiros são egoístas, pois oferecem apenas para se regozijar com a satisfação de quem recebe. Eu reconheço que sou desses, mas isso não me torna menos amigo”. Mais uma vez Fred tinha bons argumentos. Mesmo na dor e na raiva eu não podia deixar de reconhecer. E percebendo que novamente eu não tinha uma boa resposta, continuou, “a ela eu ofereci a aceitação de si, e hoje transbordo de alegria ao ver no que ela se transformou. E a você também quero oferecer algo, mas não sei se terei outros trinta anos para contemplar sua felicidade”.


“O melhor que pode me oferecer nesse momento é me deixar ir”, respondi já em princípio de desespero enquanto tentava me levantar, apesar da dor. “Mas se você partir agora, partirá por medo, e não é isso que um amigo deseja para o outro, principalmente sendo o melhor. Se quer partir, que seja por amor”. Ao terminar a frase, Fred avançou sobre minha garganta, abrindo ali um buraco que não me matou de pronto, mas deixou dor suficiente para que eu desejasse outra sorte. Eu lutava pela vida mas aceitaria de bom grado a morte. Fred percebeu. Balançando o rabo como nunca antes, começou a lamber meu rosto, vez ou outra passando por minha jugular exposta, “muito obrigado, somos de fato os melhores amigos”.


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