DOUTOR


Gaspar Ribeiro da Silva, mais conhecido com Dr. Gaspar, ou melhor, “o Doutor”, era um cidadão da cidade mineira Felicidade. Médico extremamente respeitado na comunidade em que residia, principalmente por se tratar de um município pequeno, com a população estimada em 20.000 habitantes. Era clínico geral e de situação financeira elevada. Casado com Marcelina, carinhosamente chamada de Dona Marcelina.


A esposa trabalhava em sua clínica como secretária. Dedicada, boa companheira e uma excelente mãe. O casal tinha dois filhos gêmeos: Ernesto e Alcir. Ambos eram jovens e estudiosos. Dizia-se na cidade que foram persuadidos pelo pai a cursar a faculdade de medicina em decorrência da relevância da profissão.


Doutor obteve o diploma de médico com muito custo. Por ser de família de poucos recursos financeiros precisou trabalhar durante todo o período em que cursava medicina para auxiliar no pagamento das mensalidades, que não eram baratas, muito pelo contrário.

Ainda durante o curso, passou a demonstrar uma afeição muito grande pelo status gerado pela profissão. O fato de um médico ser chamado de doutor constituía para ele um estímulo que o fazia comparecer às aulas diariamente, mesmo precisando trabalhar no período da noite.


Após, enfim, se formar, passou a trabalhar em sua cidade. A primeira providência que tomou antes de clinicar foi providenciar a confecção de um jaleco com o título doutor em destaque. Tinha orgulho de vesti-lo. Todos os dias, antes de sair de casa, olhava para o espelho e pronunciava: “Doutor Gaspar”. A esposa achava a situação engraçada, mas nada dizia, pois tinha grande admiração pelo marido. Aliás, ser mulher de médico em uma pequena cidade lhe rendia muito prestígio.


Os pacientes que passavam pelas mãos do médico o chamavam de doutor, além dos outros profissionais da saúde que lhe prestavam auxílio. Se, porventura, alguém o chamasse apenas pelo nome ele corrigia o erro com um olhar enfurecido. Certa vez, deixou de atender uma senhora mais velha que, por descuido, nomeou-o de Gaspar. O fato causou um desconforto na esposa que a tudo assistia. Doutor Gaspar olhou para a mulher e disse: “ser chamado de doutor é pré-requisito para ser atendido pelo doutor Gaspar. Quem assim não o fizer não terá atendimento médico e ponto final!” A esposa, que de certa maneira, era um pouco submissa, nada falou, apenas continuou a fazer seu trabalho de secretária.

Os anos foram se passando e o médico fazia questão do título de doutor, inclusive para as pessoas com quem se relacionava. Os filhos aprenderam a chamá-lo de doutor, a empregada, os parentes, enfim, todos que mantinham um relacionamento com a sua pessoa. De certa forma, o título foi agregado a seu nome. Ademais, ele constantemente se esquecia do primeiro nome. O fetiche pelo título era tamanho que o doutor exigiu da própria mãe, uma senhorinha quase no fim da vida, que também o chamasse de Doutor. Em relação aos colegas médicos havia um acordo tácito firmado de que cada um denominasse o outro de doutor.


Um fato curioso marcou a história do médico. Certa vez, foi prestar depoimento na qualidade de testemunha em um processo envolvendo acidente do trabalho. Na ocasião, chegou a corrigir o Magistrado, também doutor, que o chamou pelo nome, merecendo transcrever a cena:


Juiz: Gaspar, a situação realmente configura acidente do trabalho?

Médico: Excelência, por favor, me chame de doutor ou doutor Gaspar. Assim como o senhor, eu também tenho o título de doutor. Logo, mereço ser tratado como tal.”

O juiz que, era jovem e conhecido de seu filho Ernesto, levou um susto com a atitude do médico, contudo, uma vez que era muito cordial, passou chamá-lo de doutor no transcurso do depoimento. Após o incidente, em todas as oportunidades em que se encontravam, o Magistrado fazia questão de chamá-lo de doutor. O médico sentia um regozijo com o fato, já que um juiz o tratando como doutor era a prova de que a profissão de médico era a mais importante que existia. Se um nobre Magistrado o respeitava, todos os demais habitantes da cidade deveriam fazê-lo e assim o faziam.


A obsessão do médico pelo tratamento de doutor não parava de aumentar. Ele sentia a necessidade de ser chamado de doutor o tempo inteiro. Quando não trabalhava, fazia questão de perambular pelas ruas da cidade a fim de ser cumprimentado como doutor. Reza a lenda que, quando foi vítima de um assalto, sentiu um enorme prazer ao ser chamado pelo ladrão de doutor. Ficou tão extasiado que entregou até o que o bandido não pediu, no caso seu relógio. E o pior: fez questão de acionar a polícia apenas para ser chamado de doutor pela autoridade policial.


A obsessão perdeu o controle e passou a preocupar a mulher por conta de um acontecimento inusitado e assustador. O marido havia contatado um adestrador de cães para saber se era possível seu cachorro, um labrador, chamá-lo de doutor. Assustada, ela contou o ocorrido aos filhos que nada fizeram, afinal, tinham certo temor pelo pai desde criança. Confrontar o doutor não era um bom negócio.


Quando o doutor completou 50 anos, passou a sentir fortes dores no estômago e procurou um colega para saber do que se tratava. Após uma bateria de exames, descobriu que tinha um câncer terminal. A notícia abalou a família inteira e causou muito sofrimento psicológico aos parentes. Ocorre que o médico não se mostrava abalado e com medo da morte. A sua única preocupação era se, no além, seria chamado de doutor. Como acreditava em vida após a morte passava noites em claro imaginando se a divindade ou o diabo o tratariam como doutor. A doença, indiferente a pronomes de tratamento, corroía-o por dentro e o empurrava para o abismo.


Finalmente chegou o dia em que a família acionou o padre da cidade para realizar a extrema-unção do médico, que aguardava a morte inquieto na sua cama. Após adentrar o quarto, o padre chegou aos seus ouvidos e disse: “querido Gaspar chegou a hora de partir para o reino dos céus. Não tenhas medo, já que serás recebido de braços abertos pelo criador”. Para a surpresa de todos que presenciavam a cena, comovidos, o médico deu de levantar da cama e bradou em alto e bom som: “padre, me chame de doutor, por favor”. Foi então que um silêncio reinou em absoluto no local. O médico havia falecido. O padre, antes de deixar o recinto, fez um sinal da cruz e disse carinhosamente: “Senhor, receba o doutor de braços abertos e não se esqueça de chamá-lo de doutor”.


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