Ela se foi

Ela foi e não voltou.

O casaco que sempre esteve no armário, agora longe está.

Foi um breve caso, que durou anos.

Ninguém acredita, claro.



Éramos um do outro e de todo o resto também.

Ela foi um passarinho que jamais ficou na gaiola.

Porém, sempre voltava.

Sempre.


Era a única maneira de tê-la.

A liberdade lhe era tudo.

Ou era assim, ou não era.

Claro que eu não gostava.


O acordo foi selado num bar.

Ambos bêbados demais para se lembrar.

Mas um guardanapo escrito em frases tortas foi um contrato assinado.

A única lembrança do que aconteceu.

E eu não sei se aconteceu.

Mas assim ficou. E assim era.


E ela se foi e não voltou.

Ela sempre ia e voltava.

Voltava porque queria e não porque precisava.

Fiquei preocupado, mas esperei.

Aguardei meses até não poder suportar sua ida.


Disseram que eu fiz mal por esperar tanto tempo.

Nossa união não nos obrigava a nada.

Por meses ela desaparecia, no entanto, havia detalhes que demonstravam sua volta.

Era uma mensagem no celular.

Uma carta cheirosa pelo correio.

Um chocolate na porta.


Nunca, em nenhum momento, lhe questionei sobre suas idas.

Se havia alguém, o que fazia e quando voltaria.

Nada.

Achavam estranho, claro. Mas funcionava.

E como funcionava.


Esperei, esperei, esperei e para polícia liguei.

Cartazes com seu rosto foi estampados em todos os lugares.

Para quem pergunta, não, ela não tinha família.

Se tinha, nunca conheci. Nunca perguntei. Ela nunca me falou.


Aliás, dela eu pouco sabia.

Gostava de arroz com banana.

Acreditava que a música "amor" dos Secos e Molhados era quase uma oração.

Só usava sapato novo quando a sola do outro tinha desgastado.

Tinha poucas roupas, a maioria masculinizada.

Apostava na maquiagem e carregava uma gaita.

E lia. Lia muito.


Das leituras, discutíamos as ideias, as polêmicas.

Conversávamos sobre universos paralelos.

Ela acreditava em E.T.s.

Ela acredita que podia ser uma.

Dizia-se não se lembrar de seu passado e me pedia para não perguntar.

E eu não perguntei.


Sua presença era valiosa demais para que eu pudesse inferir meus gostos.

Eu era um súdito dedicado.

Um monge apaixonado.

Ela era livre e por ser livre, se foi.


Mas não voltou.

A polícia eu chamei.

Tempos se passaram.

Meu coração parou no tempo.

Minha mente ficou no passado.


Ela se foi.

Uma foto me mostraram.

Me levaram para reconhecimento de corpo.

Não acreditei quando vi.

Em seu pulso, uma cicatriz: "entre os dentes segura a primavera".

Secos e Molhados. Sua banda favorita.


No casaco ensanguentado, uma carta.

Uma despedida da vida.

Ela sempre dizia que sua morte seria sua escolha também.

Nada no universo a impediria de escolher como viver e como morrer.

E ela se foi.

E nunca mais voltou.


Acho que vou com ela.

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