Elisabete e a chuva

Minha casa ficava de frente para a rua, mas abaixo do seu nível. Quando em pé, minha cabeça estava à altura das panturrilhas de quem passasse.


Chovia. Vez ou outra passava um carro, outras vezes passava uma carruagem. Não fazia frio nem calor.







Sentado na sala, de paredes brancas, em um sofá também branco, eu contemplava a paisagem móvel através das janelas de madeira tão brancas quanto a parede ou o sofá.


Ela passou, com pressa, sem guarda-chuvas, trajando um capote preto couro. Imaginei ser mais uma transeunte, mas ela adentrou minha residência, mesmo que a porta estivesse trancada e apenas uma cópia da chave existisse, e estivesse comigo.


Assisti com espanto à entrada de uma bela mulher, de pele morena, cabelos alisados, trajando além do capote uma calça de couro sintético e uma bota de salto agulha estendida até os joelhos.


Naturalmente, perguntei o que ela fazia ali e como havia conseguido as chaves, e ouvi que não havia tempo para amenidades. Em seguida fui indagado sobre o lixo e se já o havia levado para fora, bem como as caixas da geladeira e do jogo de pratos que ela havia comprado – confesso que eu de fato havia estranhado uma geladeira nova na cozinha. Respondi que não havia procedido com o transporte e ouvi, de uma voz deixando escapar certa irritação, que nem para isso era possível contar comigo.


Tomando a direção do quarto, ela começou a se despir. Chegando à porta já estava completamente nua – e belas curvas se mostravam, é necessário reconhecer. Me olhou com surpresa e impaciência: “é para hoje?”. Continuou em direção à cama.


Fui até lá, e a encontrei mordendo os lábios e acariciando a perna direita com a mão esquerda. Sentiu cócegas e riu, mas continuou a fazer o movimento enquanto com a mão direita tentava impedir a si mesma de avançar nas carícias.


Também me despi e ao lado dela me deitei, mesmo com a janela do quarto escancarando tudo que se passava para quem tivesse alguma curiosidade. As pessoas, contudo, estavam mais concentradas em não deixar entrar água em seus calçados.


Por aproximadamente quinze minutos fizemos o que era devido. Logo após, sem delongas nem cigarros, ela seguiu para o banheiro com a mão direita ainda tentando disciplinar a esquerda.


Retornou após dez minutos novamente vestida, mas agora com um casaco apenas, e trazendo em seus braços o resultado de nossa ação conjunta. Tratava-se de uma menina já no final de sua infância – oito anos talvez? - , de cabelos cacheados e amarelo ferrugem. “Se chama Elisabete” ela disse, já tomando o caminho da porta de saída.


Elisabete se sentou ao meu lado. Apenas um lençol cobria minha vergonha. “O que tem para comer?” ela me perguntou. “Há queijo na geladeira” respondi.


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