Ferrugem

O telefone tocava, como o fizera ininterruptamente havia setenta anos. Não se sabia se era uma falha da companhia telefônica ou alguém tentando chamar o táxi, pois ninguém jamais atendera ao aparelho.



A praça circular de quarenta metros enfeitada por quatro coqueiros igualmente espaçados – como os vértices de um quadrado – abrigava dois fuscas, um branco e um preto. Os dois taxistas, irmãos gêmeos, estavam ali desde quando o mais velho morador da cidade conseguia recordar. Sempre se mostrando idênticos, com bigodes negros, barba bem feita, cabelos grisalhos, bem cortados e partidos ao meio, camisa xadrez branca e vermelha, calças azuis de linho, sapatos mocaçim e meias marrons. Não havia caso de um única pessoa que tivesse passado pela praça, em qualquer momento ou estação, que também não tivesse avistado os dois, sempre no mesmo lugar, cada qual dentro de seu carro.

Apesar de pequena – com não mais que mil habitantes – a cidade tinha um cotidiano agitado, fruto das atividades da Casa dos Contos, que ficava logo em frente à praça, e que também experimentava ddiuturnamente o toque do telefone.

Apesar de movimentada, a Casa tinha apenas duas atividades, a recepção e a doação. A recepção cadastrava os entrantes que então seguiam por dois lances de escadas (quarenta e um degraus no total) até o Extrator, onde a doação ocorria. Uma curiosidade é que nunca foram recebidas mais de três pessoas em um mesmo dia.

As doações eram devidas sempre que alguém saísse de sua casa, para que obtivesse o direito de a ela retornar. Era lei antiga do município. Enquanto essas palavras são escritas, estavam na fila Dona Cândida, Dona Feirita e Senhor José Madrideus.

Dona Cândida saía de casa pela nona vez na vida, e nessa circunstância doaria o anelar da mão esquerda, visto que era destra e já doara os três dedos menores de cada pé e também os dois mínimos de cada mão. Dona Feirita, mais experiente, saía pela décima quarta vez, e doaria o primeiro pedaço da orelha direita, dado que já doara os três dedos menores de cada pé, os dois menores de cada mão e a orelha esquerda inteira (orelhas podiam ser divididas em três, rendendo portanto três saídas). O Senhor José deixava sua casa pela primeira vez, aos sessenta e oito anos. Saiu para conhecer a famosa praça. Quando indagado pelo Extrator qual seria a doação, Senhor José perguntou se poderia doar o olho direito, já que o mesmo sofria de miopia avançada. O Extrator explicou que a Força não aceitava doações incompletas, mas que o valor poderia ser complementado com uma unha ou um dente. Senhor José calculou que um pré-molar já não faria muita falta, e completou a doação com um deles.

O Extrator terminou com Senhor José e deu o dia por encerrado, dirigindo-se à saída. Mas naquele dia o expediente se encerraria mais tarde. Ao chegar à porta viu do outro lado da rua, se aproximando da praça, uma mulher de aparentes oitenta anos, cabelos grisalhos atingindo o meio das costas, semi-nua, trajando apenas meias-calças marrom claras desbotadas e uma capa aveludada de cor azul safira. Tinha os joelhos e bicos dos seios em sangue, pois se arrastava pelo chão com a ajuda de um pedaço de madeira.

O Extrator se aproximou da mulher, que se dirigia ao táxi branco, e no trajeto percebeu que pela primeira vez nos últimos setenta anos o telefone estava em silêncio. Também em silêncio seguiu a mulher, se arrastando por alguns centímetros a cada vez que conseguia cravar a madeira nas irregularidades do solo e puxar seu corpo por sobre o concreto.

Quando próxima o suficiente, a mulher se deitou e esticando o pedaço de madeira bateu na porta do carro. O taxista abaixou a janela. O Extrator se aproximou para ouvir.

- É o senhor o taxista? - perguntou a mulher.

- Sim senhora, e também o é meu irmão – respondeu o taxista do fusca branco, apontando com o indicador direito para fusca preto, estacionado logo atrás.

- Tenho ligado para cá durante o últimos setenta anos – disse a mulher com semblante neutro.

- Era a senhora então – respondeu o taxista, levantando discretamente as duas sobrançelhas e penteando o bigode com o indicador da mão esquerda.


- Fico feliz que tenha vindo nos fazer uma doação – completou o jovial Extrator.


- Passei setenta anos sonhando em conhecer essa praça, mas minhas pernas nunca funcionaram, por isso busquei um táxi – continuou a mulher, com semblante ainda desanuviado.


- Mas minha senhora, um taxista nunca abandona seu posto.


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