Meu primeiro "não"

Atualizado: Jan 3



Como eu posso ter um primeiro não, sendo o que o não a gente aprende quando é criança? Sabia que essa é a primeira palavra que um bebê aprende? Isso por ser a que mais ouve, consequentemente, a que mais dizemos. Então, por qual motivo eu não aprendi isso antes?


Quer dizer, quando eu fui um bebê obviamente eu disse vários nãos, mas a questão não é essa. Quando a gente cresce, às vezes o não fica perdido por aí, entalado na garganta, querendo sair e a gente querendo empurrar ele pra dentro. Tipo quando se está com dor de barriga no metrô, não dá para fazer nada a respeito.


O problema de não saber falar não é que você fica refém das consequências. Tipo meu namorado quando convidou seus amigos para beberem em nossa casa nova. Eu devia ter dito não, mas acabei limpando chão sujo no dia seguinte.


E também teve aquela vez que ele trouxe uma amiga para passar a noite. Ele não dormiu na nossa cama. Mas tudo bem, eu não posso separar meu companheiro das pessoas que vieram antes de mim, não é mesmo? É o que ele vivia dizendo. Eu vim depois, não posso apagar o que veio antes. Tá certo.


Aí, essa mesma garota passou a frequentar nossa casa. Eu gostava dela. Ou achava que gostava. Não sei se fazia isso para agradar meu namorado. Mas não pensava muito a respeito. Ele sabia exatamente o que falar para contradizer tudo o que eu dizia. E eu me calava, pois os argumentos deles falavam mais alto do que os nãos que eu prendia na garganta.


Um dia, ele ficou desempregado e passou a ficar em casa o dia todo. Fumando. Odiava o cheiro do cigarro. Aquilo ficava nas paredes. Ele também não limpava. E quando eu chegava tarde, precisava fazer janta e arrumar toda aquela bagunça, pois como ele dizia: mulher tem que ter sua casa bem arrumada. É verdade, concordo com ele. No fundo, eu pensava que ele podia ajudar a manter a ordem. Mas é homem, né? Homem não sabe fazer as coisas. Era o que dizia minha mãe.


Até que um dia, muito, mas muito cansada trouxe comida pronta e me recusei a limpar a casa. Ele ficou desacreditado. Disse umas coisas capciosas e agradeceu por nunca ter se casado no papel comigo, pois eu não era digna. Ah gente, tem dia que não dá para ser a super mulher. Não falei nada em resposta, só ignorei e fui dormir. Acordei com vários murros.


Nunca havia apanhado, nem mesmo dos meus pais, eu não sabia quanto aquilo doía. Fiquei com a bochecha roxa. Fui trabalhar dizendo que cai da escada. Claro. Não podia dizer que foi meu namorado, ou eles teriam feito alguma coisa. E eu não queria.


Mas aquilo aconteceu tantas vezes que um dia não podia mais dizer as pessoas as bobagem que eu dizia. E ele foi preso graças ao meu patrão.


Chorei muito e me senti culpada. Culpada mesmo. Ele estava na prisão e era tudo culpa minha.


Por muito tempo eu me aceitei como um objeto de alguém. E a falta dos meus nãos me custaram muito caro.


Estou solteira, não que isso signifique uma vitória. Mas também não acordo com socos, sendo estuprada, e tendo que aguentar amigos e amantes dentro de minha própria casa que, detalhe, estava sendo mantida pelo meu suor.


A falta de não saber falar não, de não ouvir minha voz interior, de não acreditar em mim mesma e que eu mereço coisas boas, só atraíram quem eu não merecia.


Será que eu aprendi? Ainda não vivi outra experiência para saber, mas quando viver, voltarei a contar. Vocês tem curiosidade?


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