NÃO PERTURBEM OS MORTOS


É meia-noite. Dois homens estão parados em frente a uma sepultura, ambos seguram uma pá na mão.

— Devíamos fazer uma oração antes — O primeiro homem fala. Ele é baixo, robusto, com braços fortes e um rosto rígido.

O segundo homem balança a cabeça; quase uma década mais novo, é também baixinho, mais magro, e com feições mais amigáveis.

— Faça tu, eu sou Ateísta — Ele retruca, levantando uma mão para coçar o nariz.

— A moda do século — O primeiro homem grunhe.

O segundo homem sorri zombeteiro — A religião foi um grande sucesso nos dias de meus avós, não será você quem está fora de moda?

— Diz o homem que não acredita em nada —

— Eu acredito sim, acredito em…

O primeiro homem o interpelou, rangendo os dentes — Se você disser que acredita em Gandhi vou te dar com a pá — Ele bufou, fechando os olhos. — Agora me deixe rezar —

— Fique a vontade — O segundo homem resmungou.

Depois de alguns minutos, o primeiro homem abriu os olhos.

— De volta ao trabalho! — Exclamou segurando forte em sua pá.

Os dois começaram a cavar.

— Por que o chefe quer mesmo essa coisa? — perguntou o segundo homem.

— Tem a ver com umas olimpíadas em seus tempos de faculdade. O chefe ficou em segundo lugar no atletismo, mas diz que o tipo que venceu trapaceou —

— O mesmo gajo?

— Sim

— Você quer que eu acredite que o gajo venceu a corrida com aquele corpo?!

— O tipo costumava ser mais leve —

O segundo homem concordou com a cabeça. — Então, como foi essa trapaça ? —

— É uma história hilária — O primeiro homem riu.

Os olhos do segundo se arregalaram curiosos. Um sorriso corria por seus lábios. — Conte — disse, tendo parado de cavar. O primeiro homem também parou, e sorriu animado.

— Eu ouvi que o chefe e o tipo eram grandes rivais, os mais rápidos na universidade inteira. Entretanto, o outro tipo, ao que parece, não tinha lá muita confiança na sua velocidade. Por essa razão decidiu sabotar o chefe — O primeiro homem parou num silencio dramático.

— O que ele fez? —

O primeiro homem riu — O tipo colocou algo na bebida do chefe e depois — Ele parou, tentando segurar o riso. — A corrida iniciou normal, até que de repente o chefe ….já no final da corrida começou a peidorrear … a cada passo … a cada passo que dava ouvia-se o som do seu bufo. Teve de diminuir o passo para impedir-se de defecar no meio da pista e por causa disso acabou por terminar no segundo lugar, dizem que passou o resto do dia na casa de banho. A partir daquele dia o chefe passou a odiar o tipo, e decidiu que ele era o verdadeiro vencedor —

O segundo homem gargalhava sem parar. — Meu deus! Acabo de me tornar fã deste homem. É uma pena que ele morreu antes de nos conhecermos, iria dar-lhe um forte aperto de respeito —

— Vai dizer isso na cara do chefe —

— Você ouviu como ele morreu? — O segundo homem perguntou, ainda sorrindo, se debruçando na sua pá.

— Sim. O filho da puta morreu como viveu. Se fodendo — O primeiro homem riu, levantando a sua pá no ar — Vamos cavar — ordenou , e os dois reiniciaram sua actividade.

— Espere, você disse se fodendo — O segundo homem, parou de súbito. — Você não quis dizer que ele morreu fodendo? —

— Do que você está a falar? Ele morreu se fodendo, todo mundo sabe disso! — Exclamou o primeiro homem, movendo grandes porções de areia. — Volte a cavar — Ele repetiu. Mas o segundo homem permaneceu estático.

Depois balançou a cabeça e disse — Não, ele morreu fodendo. Fodendo mesmo, foi por isso que ele morreu —

— OK — O primeiro homem parou de cavar,

se apoiando com a pá fitou o outro homem. — Me elucide, como você acha que ele morreu? —

— Não é como acho, mas o que realmente aconteceu — O segundo homem resmungou, retirando um maço de cigarros do bolso. Deu um cigarro ao outro homem, e depois retirou um esqueiro, acedendo o cigarro de ambos.

— Então, o que ouviu ? — O primeiro homem exalou o fumo do cigarro. O ar tenebroso do cemitério soprou forte, como se quisesse censurar suas palavras. — Qual é a sua história? —

O segundo homem concordou com a cabeça. — O gajo era enorme, dizem que quase não coube no caixão. O tipo estava sempre a foder, prostíbulos atrás de prostíbulos. Naquele dia uma puta puta lhe provocou, algo como : "Não consegue me foder nem por três minutos". Como podes imaginar, o gajo ficou bravo como qualquer gajo ficaria —Não se diz esse tipo de coisa a um mano. Ele levou a puta para um quarto, e pelos vistos ele era bom — Uma hora! você consegue imaginar um gajo grande daqueles fodendo por uma hora? Mas fodeu mesmo. Ele estava foder tanto que em certo ponto teve um ataque cardíaco e caiu encima da dela…— O segundo homem parou sua história, soltando uma risada continuou. — A puta tentou sair, mas o gajo era pesado demais. Eventualmente morreu asfixiada. Aprendeu que não se brinca com a virilidade de um homem.

O primeiro homem exalou, num suspiro — Então ele morreu fodendo — Ele disse, depois de um breve silêncio.

— Foi isso que eu disse! O gajo merece meu respeito, não é qualquer um que fode por uma hora com um corpo daqueles — o Segundo homem retrucou, praticamente sugando o seu cigarro. Depois libertou a fumaça satisfeito.

O primeiro homem balançou a cabeça — Você precisa aproveitar um cigarro — Ele disse, como se quisesse demonstrar como, fumou devagar o seu cigarro e exalou o fumo calmo. — É assim, vagarosamente. Precisas sentir o tabaco. Não faça como uma criança gulosa chupando apressada o seu rebuçado porque sabe que terá mais no final. Faça as calmas —

— Desde quando és especialista em fumar cigarros? Tens algum certificado? — O segundo homem riu, atirando o resto do cigarro no chão, retirando de seguia outro cigarro.

— O que eu quero dizer é que deves aproveitar as coisas. Comes, pensas, falas …, provavelmente também fodes rápido. Desse jeito vais acabar até por morrer rá...cedo — O primeiro homem também terminou o seu cigarro. Quando o segundo homem lhe ofereceu outro, recusou. — Vamos voltar ao trabalho —


— E eu é que tenho pressa — Resmungou segundo homem. Atirou o cigarro aceso e ainda por fumar no canto e seguiu o primeiro homem, cavando.

— Qual é a sua história ? — O segundo homem perguntou de súbito, depois de alguns minutos cavando.

O primeiro arqueou uma sobrancelha — Que história? —

— De como ele morreu, você disse que ele morreu se fodendo. Parece uma história interessante —

O primeiro homem pareceu corar — Esquece, é algo idiota —

— Vá, conte —

— OK. — O primeiro homem parou de cavar — Um idiota me disse que o tipo foi a um hotel com a prostituta, mas quando chegaram lá, ela disse que precisava usar o banheiro antes. Ele esperou na cama, mas ela não saía. "Espere um pouco, saio não tarda nada", ela sempre gritava da casa de banho. O tipo estava tão excitado, tão excitado que não conseguia aguentar. Então o que ele faz?, Ele olha para o seu Ben e pensa o seguinte : " Se ela não sai, vou me foder a mim mesmo " , e assim ele moveu a cabeça para se chupar, entretanto, enquanto movia o seu pescoço grosso acabou por se mover de uma forma estranha e se partiu. Quando a prostituta saiu da casa se banho e viu o corpo nu dele dobrado, com a cabeça tentado alcançar o Ben, teve logo um ataque cardíaco e morreu. E foi assim que ele morreu tentado se foder a boca — O primeiro homem terminou a história, tentando de todas as formas evitar os olhos do outro homem, que agora soltava fortes risadas.

— Não acredito que você acreditou numa história dessas. Meu deus! Essa foi boa! Precisa me apresentar esse gajo que inventou essa história, é um gajo porreiro. Tem o meu respeito. "Morreu se fodendo", que piada! — O segundo homem tentava segurar suas risadas.


_ Vai se … — travou — você consegue sentir isso? — O primeiro homem perguntou, levantando o nariz. — Cheira-me à fumança —

Os dois olharam pelos lados.

— Merda! — Exclamou o primeiro homem quando avistou fogo se formando no capim ao lado de uma tumba à alguns pés dos dois. Correram ambos para apagar, atirando areia sobre as chamas. Quando se apagou o primeiro homem, retirou um pedaço de cigarro entre as chamas cessadas.

Depois fitou irritado o outro — Que merda é essa, não sabe apagar a merda do cigarro?! —

— Foi mal —

— É melhor que o guarda não tenha percebido, ouvi que o gajo é maluco, costuma enterrar pessoas ainda vivas. Vamos terminar essa merda logo e sair daqui — O primeiro homem disse exasperado.

Os dois voltaram a cavar, depois de alguns minutos finalmente acharam o que procuravam.

— Vamos, ajude-me a abrir — disse o primeiro homem, saltando para dentro da cova. O primeiro homem seguiu.

— Foram o que .… duas semanas? Ele deve estar pobre. Devíamos ter trazido máscaras — O segundo homem apertou o nariz.

— Deixe disso e me ajude aqui —

Os dois abriram o caixão, o corpo de um homem gordo jazia ali, em decomposição.

— Merda! — Exclamou o primeiro homem, tampando a boca e o nariz. Minhocas passeavam por todo o cadáver. O cheiro era horrível, cheirava à …cadáver.


— Eu disse que devia estar em decomposição — O segundo homem disse, sua voz soando aguda devido a mão cobrindo o nariz. — Então, onde está a medalha de ouro?

O segundo homem seguiu os olhos do primeiro até parar no pescoço do cadáver. — Merda, o chefe disse que estaria no pescoço dele — dizia o primeiro homem balançando a cabeça irritado — Depois de tanto trabalho!!! Eu vou matar a porra do tipo que fez isso! —

Enquanto o primeiro homem se agitava, o segundo continuava navegando seus olhos pelo caixão — Espere, o que é aquilo? — Exclamou quando notou algo espreitando da mão direita do cadáver fechada num punho. O primeiro homem ergueu os olhos e o observou aproximar-se mais do cadáver.

— É uma corda — Comentou o segundo homem.

— Abra a mão .

— Nem pensar

— Faça isso, a medalha deve estar dentro da mão dele. Deixe de agir como uma criança!

O segundo homem balançou a cabeça — Não vou mexer a mão de um morto.

— Foda-se! — Exclamou o primeiro homem, e se moveu mais próximo ao corpo. Segurou na corda que espreitava e tentou puxar — Não se move. Jesus, que cheiro! —

— Vai ter de abrir a mão — disse o segundo homem.

— Venha e faça tu mesmo

— Acho que não...

— Garoto! — O primeiro homem lhe lançou um olhar fulminante. Como respostas, o segundo lançou as mão no ar em sinal de rendição.

— OK. Vou — levantando o braço do cadáver tentou abrir a mão — Merda, esta merda de mão não se abre. Até parece que o maldito está a fazer força —

O primeiro homem arquejou — É a mão de um morto, o que há de difícil nisso ? — berrou impaciente .

— Eu juro, não se abre — O segundo homem balançou a cabeça, tentando com mais força abrir a mão do cadáver.

Grunhindo, o primeiro homem se aproximou e empurrou o outro para o lado Tentou também abrir a mão, mas ela continuava forte, como se tivesse uma cola mantendo ela fechada. A medalha era visível no interior da mão.

— Merda! — Exclamou o primeiro homem.

— Eu avisei

— Vamos ter de partir os dedos

— Pensei que fosses religioso. Agora queres quebrar os dedos de um morto, que tipo de ensinamento você recebeu? Um dos mandamentos não é respeitar os mortos?

— Vai se foder. Você quebra os dedos e eu retiro a medalha.

— Nem pensar, você quebra e eu retiro...

Enquanto discutiam, uma sombra se tornou visível atrás de si. Mas eles não notaram. Foi quando a pessoa saltou para dentro da cova que eles se apareceram que não estavam mais sozinhos. O rosto do indivíduo era escondido pela noite, mas o seu físico forte e altura eram notáveis, assim como o bastão na sua mão.

— Quê? — Exclamou o primeiro homem, mas antes que pudesse reagir, o homem gigante bateu-lhe na cabeça, deixando-o inconsciente.

O segundo homem fitou o corpo caído do seu amigo ao lado, e tentou procurar por algo em suas vestes, mas antes que achasse, o bastão atingiu-o. — Merda! — Suspirou antes de cair inconsciente.

Quando os dois acordaram, ambos acharam por um segundo ter perdido a visão até que ouviram o barulho de areia atingido uma superfície metálica e sentiram um cheiro familiar. Concluíram pelo óbvio: tinham sido enterrados vivos.

— Merda, ele está encima de nós, não está ? — O primeiro homem exclamou.

— O cheiro diz tudo — retrucou o segundo homem.

— Acho que a cabeça dele estava encima da minha cara —

Ouviu-se alguém tossir.

— Você teve sorte, a bunda dele está sobre a minha — o segundo disse.

— Como é possível que a cabeça esteja encima de mim e a bunda encima de ti? O quão grande é este tipo?! — a voz do primeiro homem estava mais fraca.

— O filho da puta é mesmo gigante. Vai nos asfixiar com o seu próprio corpo —

O primeiro homem tossiu — Como fez com a prostituta —

— Verdade, como fez com a puta

— Somos a puta dele agora

— Uma última oração?

— Vai se foder — exclamou o primeiro homem. — Você tem o celular consigo ?

— Acho que sim, deixe-me procurar —

Houve um breve silêncio.

— Não consigo me mover. Você consegue alcançar a minha calça? — inquiriu o segundo homem.


— Meu braço está mais solto, deixe-me tentar. — respondeu o primeiro homem .

Houve outro silêncio.

— Consigo sentir a sua mão. E então? —

—Há algo mesmo, acho ….— O primeiro homem travou — Vai a merda, é apenas uma caixinha, de cigarros provavelmente —

O segundo homem tossiu em meio a um riso — Acho que me enganei e levei duas caixinhas de cigarro —

— Você acha? — O primeiro homem quis gritar, mas exalou forte no lugar.

— Tudo bem ai ? —

— Yeah, parece que em alguns minutos vou bater as botas. Eu sempre soube que cigarros nos iriam matar, mas não deste jeito —

— Sem duvidas, é uma forma patética de morrer. Gordo maldito! — retrucou o segundo homem em meio a fraca respiração.

— O chefe devia ter desistido da maldita medalha —

Conversaram trivialidades até que suas vozes desapareceram. Seus corpos foram achados semanas depois quando o Chefe enviou duas outras pessoas sem nome para recuperar a medalha dele.

— Não perturbem os mortos, seus merdas!! — Os cadáveres deles gritaram junto com o do homem gordo quando o caixão foi aberto.


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