O Mercado

Naquele dia em que meio-dia e seis da tarde se confundiam – a exemplo dos últimos setecentos e dezoito dias –, onde a homogeneidade do cinza e do vento gélido e úmido dominavam a aquarela do cotidiano, naquele dia ele voltou ao mercado.



Entrou no estabelecimento que era iluminado puramente por lâmpadas incandescentes de 60Hz, empoeirado e de paredes cor-de-rosa, sem música. Na verdade, havia um sistema acústico que amplificava o som – provavelmente inspirado em grandes catedrais – e uma simples pigarreada poderia concorrer com um trovão.


No recinto, tomava-se cuidado até mesmo com a respiração, que se mal controlada poderia incomodar todos os clientes, e em casos extremos, poderia acarretar até mesmo na expulsão do inconveniente, ato temido, deveras raro e famoso por seu apelido: allez-y.


A venda era única na cidade e o allez-y implicava duras sanções que afligiriam posteriormente o infeliz que a esse efeito fosse submetido. Entre elas, a mais dura consistia na obrigação de, voluntariamente, manter-se em casa durante três meses, sem qualquer contato com a comunidade.


A comunidade era composta por vinte e cinco casas, todas de pintura rosa, com duas janelas em cada parede e uma porta de cada lado. Todas com três quartos, com apenas um deles preenchido.


Não era tido como de bom tom receber visitas, e não era tido como decente ter mais de um habitante por vivenda. Não era entendido como moral promover encontros e havia uma sugestão implícita para rejeição às coisas sociais. Era condenável olhar os demais nos olhos.


A comunidade se escondia entre um conjunto de montanhas rochosas sem vegetação. A vizinha mais próxima estava a cento e cinquenta quilômetros.


No mercado ele varreu rapidamente com os olhos os recipientes de metal, todos sem rótulo, todos contendo exatamente o mesmo recheio, um pedaço de pão assado no dia anterior. Pão cinzento.


Era velado porém sabido que a padaria figurava no imaginário de todos os comunitários como o paraíso na terra. Até o prefeito, que despachava de casa – sem assessores, pois de outro forma não seria de bom tom – ambicionava uma vaga nessa labuta.


Na padaria trabalhavam duas pessoas, que tinham autorização moral para se comunicar por meio de um gesto cuja semântica era “agora é sua vez”. E qualquer espectador que, dotado de invisibilidade, tivesse a chance de apreciar a cena, constataria na primeira experiência que aqueles momentos eram os mais desejados de cada dia daqueles dois padeiros.


O processo de organização da panificação consistia em atribuir a cada um uma fornada, que durava três horas programadas no forno, e o revezamento deveria ocorrer ao final do preenchimento dos potes com o resultado de cada uma. Mesmo com o tempo programado, cada um dos padeiros se esforçava, a seu modo, para fazer passarem mais rápidas as três horas.


Passado o tempo e antecedendo o preenchimento dos potes, o júbilo se apossava do recinto – que para alguém de maior sensibilidade ter-se-ia tornado mais iluminado – e o momento tão avidamente aguardado tomava seu lugar: o padeiro ora responsável sinalizava com o dedo indicador que o forno doravante pertencia ao colega. E devido à falta de vigilância, nesse momento, a moral era deixada de lado em detrimento da lascívia: o apontamento ocupava cinco deleitosos segundos da vida de ambos, por meio de curvas direcionais construindo esculturas de ar, e o grand finale se estabelecia imponente, quando o indicador rijo ditava ao outro o que deveria ser feito.


Tanto aquele que rasgava o espaço com o dedo em riste quanto o que acompanhava a obra tinham os olhos vidrados, com as pupilas dilatadas e a consciência pregada no momento. O mesmo espectador já mencionado, se permissivo com respeito às sensações da carne, não poderia ocultar por muito a palavra gozo da descrição da cena.


Em um desses dias, ao se permitirem seis segundos de coito processual, o corpo cedeu, e um dos pães, talvez embebido da mesma satisfação, deitou-se ao chão antes de ser recolhido e envasilhado.


Obviamente, aquele pão estava destinado a dilacerar com a vida de alguém. E foi justamente dele, que ao apanhar um pote e abrí-lo, deparou-se com o alimento mais sujo que o normal. Era estritamente proibido tanto por lei quanto pela moral retornar o recipiente para a estante, por isso aquele mesmo pão, fruto da fornicação gestual, deveria ser levado para a residência de algum infeliz. Mas a criatividade do espírito humano tem por principal característica ser surpreendente (caso contrário não seria criativa).


Ao aproximar-se da única atendente do negócio, ele abriu a lata, fez exibir seu conteúdo e, com a convicção da inércia, limpou de maneira forçosa e estridente a garganta. Duas. Vezes.


A Terra parou. Os outros três indivíduos que se encontravam no ambiente ficaram estáticos. A moral ditava que não se deveria fitar os outros, ainda mais nessa circunstância. Mas a curiosidade falou mais alto. Não só miraram de soslaio para descobrir de quem se tratava quanto arranharam, os três ao mesmo tempo, a garganta. A atendente desmaiou. Os quatro passaram por ela, cabisbaixos, e deixaram o dinheiro. A comunidade perdera quatro componentes pelos próximos três meses. Os componentes deixaram o lugar com um sorriso disfarçado. Havia sol.


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