Presente de Grego

“Talvez eu não devesse ser tão severa.” Pensou a garota, repousando a faca suja de sangue sobre o resistente balcão de inox. Enxugando o suor do rosto com o dorso da mão, observou todo o estrago que havia cometido naquele cômodo no entardecer daquela tarde chuvosa de verão.


Passos em direção a cozinha desencadeou o desespero da criatura. Contudo era tarde demais para consertar ou conseguir esconder o erro cometido. Portanto, apenas suspirou profundamente, numa inútil tentativa de transparecer calma.

A porta abriu e a garota se virou junto com o movimento produzido pela enferrujada maçaneta. O coração palpitava confuso, embaralhando as palavras que usaria para se explicar.

- O que você está fazendo aqui? – Perguntou o homem indignado, aparentemente irritado com o que visualizava. Não compreendia como alguém era capaz de realizar tal coisa.

- Sarapatel. – Respondeu com sorriso sem jeito, torcendo que entendesse a boa intenção contida naquele ato. – Prometo que limparei a cozinha assim que concluir, mas só queria te fazer uma surpresa para o jantar.

O homem suspirou. Mesmo com a cozinha destruída, tendo vasilhames sujos, restos orgânicos mesclados com sangue e embalagens artificiais espalhados por diversos cantos. Não poderia brigar com aquela jovem. Ainda mais quando era fitado por rosto tão meigo e receoso em receber a previsível advertência. Mesmo que quisesse, para ele, era algo completamente impossível.

- Então irei te ajudar. – Respondeu por tímido sorriso, enquanto arregaçava as brancas mangas da camisa social e caminhava até a grande panela negra que fervia, sobre o branco fogão sujo, como se fosse explodir.

Tirando a tampa, percebeu que aquilo continha um cheiro agradável. Rapidamente, pegou a colher, repousada no balcão de inox próximo ao fogão, e, após assoprar para diminuir a temperatura, levou até o paladar.

Um sabor diferente. No entanto, extremamente satisfatório. Repetiu o gesto algumas vezes. Logo, ficou difícil respirar. O coração acelerava. Taquicardia. O rapaz ainda desejava acreditar que aquilo era motivado por estar na presença da pessoa que mais amava, mas os sintomas começavam a ficar estranhos demais.

Virando-se, observou que a garota sorria, sendo que agora não continha mais aquela doce expressão no rosto. Apenas um sorriso satisfeito. Observando-a atentamente, percebeu que brincava distraída com o punho de uma faca, pressionando a ponta do afiado inox lentamente contra a bochecha esquerda.

- Então parece que funcionou. – Suspirou, arqueando a sobrancelha esquerda com desdenho quando, finalmente, a vítima se ajoelhou, aparentemente sem forças, enquanto estranhamente espumava sufocando. – Disseram-me para não ser tão radical, mas foi algo necessário.

Recolhendo outra cebola e, após suspender a altura dos olhos para avaliar a qualidade, a menina voltou a cortar enquanto o rapaz falecia. Naquele momento, já havia escurecido completamente, e agora, começava a relampejar muito forte junto com a chuva.

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