Tem um homem morto no meu sofá

Acordei: Tinha um Homem Morto No meu Sofá

Já era tarde da tarde, da tarde. Havia acabado de acordar de um sonho que aqui me é difícil relatar dado esse traço fatal do meu motor, forço demais os olhos da mente, eles são seletivos, mas de uma seletividade imprevisível; que escolhas esquisitas ele tem feito. Na tentativa de externar para explicar o frenesi é que disserto. Assim dizia José ao Faraó: contai vosso sonho. Eis o meu.

Eu era um homem e estava no mundo. Não era um ignorante, tampouco douto. Era o meu corpo, o invólucro que não trazia bagagens. Talvez hão de ficar surpresos que me situei naquela imensidão tão logo fora ali lançado, covardemente.


Então, eu de fato era um homem, um cidadão, com direitos e deveres –imaginem só!


Tinha um trabalho, um escritório, um carro para transportar minhas idiossincrasias pela idiossincrasia da metrópole em um bairro de classe média, –imaginem só, tinha família, uma esposa e três filhos. Tinha um círculo mediano de amigos, ah era tão querido; tinha sonhos à médio prazo e um túmulo reservado no jazigo da família mas depois disso eu não cuidava o depois. Ademais, tudo era simples, o que não era, me era alheio e assim se mantinha, não duvidariam que depois de tudo que ostentei pude dizer que havia manjado o jogo da vida.

–Céus! Eu era um homem médio.


Acordei. Já devem imaginar meu estado de arrebatamento após este pesadelo. Claro, pesadelo, o pesadelo consiste na sua impossibilidade: suava, a transpiração era a vaporização das minhas forças que se esvaíam com tão forçosa viagem. Fui longe, eu havia bebido um gole de místico, místico, tenho eu, era uma bebida que os romanos, os gregos, os civis utilizavam para o arrebatamento da vida civil; viam deuses, heras, demônios e ninfas, músicas coloridas e após a orgia macabra, acordavam como de um sonho.


Como dizia, acordei. Não pude ignorar que Mefistófeles estava no sofá. Na infância, lembro da professora de letras mencionando esse nome e não me saiu da cabeça, algo relacionado com demônios e profetas, não sabia ao certo do que se tratava nem qual o gênero, se é que demônio tem sexo. Apenas há dois anos descobri que Mefistófeles foi um demônio que seduziu Fausto, um mago devoto, a fazer um pacto com o diabo, por um dia, tudo, prestígio, peste negra, romance, desastre e tudo mais.


Em todo caso, Mefistófeles estava estranha nos últimos dias e comia pouco, Marta dizia que era doença de gato, algo com acúmulo de pelos ... tinha ficado de trazer remédio pra gata.

Eu ainda conservava o espanto do pesadelo, as mãos frias e a boca ressecada, mas precisava levantar e preparar a janta, Oswaldo comia cedo sempre.


Oswaldo me alugava a parte de cima da casa há seis anos, com setenta e cinco anos e hipertenso já não conseguia fazer muitas coisas como a limpeza e a comida. Então, em meu egoísmo, tomava suas dores, claro, com o conformismo que logo ele partiria, talvez até tivesse feito um testamento me deixando todos os seus bens.

Fazer uma sopa é complexo, mas a complexidade se dividida em partes se torna simples. Simples se a infeliz lembrança do pesadelo não viesse me assombrar. Mais uma vez tinha as mãos suadas e geladas como a mulher do sexo frágil contra o dragão da maldade, eis meu dragão: a criatividade. Que espetáculo macabro aquele do sonho imaginem só, um Homem Simplista e Feliz não vamos falar aqui de felicidade olha que a vista já se turvava, inacreditável era que o corpo se apresentava fraco, fraco demais.


Pensei ter um ataque, uma síncope, meu mundo queria me engolir. Acabaria assim? O coração em ritmo de aceleramento desproporcional, descomunal, surreal, colossal, sobrenatural, batida LETAL e outras construções com esse sufixo. Não, não quero crer que seja a morte.

Alguém batia na porta. Devia ser Marta.


Marta entrou, trazia várias sacolas, um cheiro de multidão e um ar de novidade em coisas corriqueiras. Falou do cheiro estranho da casa, perguntou como eu estava, olhando inquietamente para as paredes e os móveis, me preparava, a muito custo, para tentar pronunciar algo mas a boca não obedeceu a vontade então Marta parou e me olhou com um olhar inocente, inquiridor, cheio de comiseração que a princípio me trouxe conforto e foi logo substituído por repugnância.

Lançou então contra mim uma enxurrada de perguntas concernente a minha situação, a cara pálida, conselhos óbvios e sem utilidade que eu já conhecia mas nunca prestava atenção. Sentou. Me olhou novamente. Notando que eu nada dizia, quis encetar conversa sobre seu trabalho e um cara que tinha conhecido, dizia, e disse de forma que me pareceu tão engraçado e me martelou o consciente, que ele se encaixava perfeitamente em seu perfil. A partir desse ponto já não a escutava, viajei a minha terra de conceitos. A terra dos conceitos era o lugar que eu recorria quando ante uma situação comum o niilismo me acometia, subversiva. É o que é essa minha mente perecível. Perecível sim, ora pois.


Queria recordar de onde conhecia Marta, mas meu consciente e o seu irmão se encontravam letárgicos, ainda estigmas do sonho. Me olhou novamente quase conformada com a minha situação e atual indiferença e mudez. Lembrou-se do remédio e de que estava atrasada para... me olhou novamente, ah como eu queria que parasse de fazer isso, nunca consegui lidar com outro portal tentando decifrar através de mim. Levantou e ante a minha inação deixou o remédio no sofá.



Mirei por muito tempo a porta aberta. Depois foi a vez do sofá. Avassalador, eis que sinto, eis que vem. Um sono descomunal. Me rendo.

Acordei. De frente para a parede. Engraçado, não lembrava da parede ser vermelha. Virei. Um homem, tinha um homem no meu sofá, deitado desajeitadamente, as pernas abertas, os olhos abertos. Levantei e me aproximei, ele tinha o pescoço roxo, a camisa manchada de sangue, as botas sujas de barro.

Não lhe sentia a respiração, estava morto; passei a mão em seus olhos de modo a fechar. Ele tinha uma cicatriz vertical no queixo. Tinha um homem morto no meu sofá, Deus do céu!

Agora tem um homem morto no meu sofá, em estado de mortificação me dou conta do quanto isso é estranho, a cicatriz. A cicatriz me tira o sossego, depois disso tinha um homem morto em meu sofá, mas isso não me impressionava, a cicatriz. Um cigarro no bolso da camisa, vou tirar. Ouço passos, violentos, não é aqui. Se aproximam. É aqui. Dois homens armados entram, vestem preto, sobrancelhas grossas. As sobrancelhas. Olham para o homem no sofá, o mais alto dispara duas vezes contra seu peito. Olham para mim, eu, logo eu com as pernas trêmulas.

Quero perguntar, quero explicar que nada sei mas me poupam o esforço questionando quem sou eu.

Uma bomba. A pergunta foi como uma bomba, o tiro seria preferível. M e ajoelho diante deles e peço, sim, vou pedir que me matem. Eles se entreolham sem entender, me arrastam para o banheiro, percebo que intentam me torturar. Não! grito. Não posso mais sofrer tortura. Começam a rir. Os demônios com suas sobrancelhas grossas riem do meu desespero, riem por serem iguais e por eu ser diferente. Talvez seja porque eu não tenha sexo. Talvez eu seja um demônio.

Me oferecem as mãos para que levante, correspondo, insinuam que querem me mostrar algo, me levam até a porta, descem as escada, eu os sigo. De cima vejo crescendo uma luz, o portão principal para a rua, eles o abrem. A luz me inunda. Percebo que querem que eu saia e veja com meus próprios olhos, o que me é difícil, para isso eu teria de ser o criador, não o sou.

Uma pintura, só pode ser, o céu é verde, a grama azul. Não há pessoas na rua, nenhuma. Quero ver, quero sentir, descobrir mais desse mundo e das novas cores que ele veste, vou impulsivamente, dessa vez juro que vou corresponder a minha natureza humana e vou agir por impulso.

Um momento, - diz um dos homens, me volto. Ele me entrega uma mala amarela, abro, está cheia de dinheiro. –é seu, seja livre.

Sorrio, um sorriso irônico que é substituído por felicidade quando percebo a seriedade com que me falaram isso. Desaparecem.


Como lidar com o fato de que não preciso mais oscilar com o que me convém? Não sei, por hora me contento em ser livre, porque se tenho dinheiro sou livre, compro tudo, posso comprar tudo.


O mago do meu lado ri da minha consideração, ri da minha perdulariedade. Se dirige a mim como se fala com uma criança, previ que tinha a intenção de me contar tantas coisas mas propõe me mostrar.

Agora vejo pessoas, muitas. Não, não são pessoas, não sei o que são. Podem voar, humanos não voam. Não oscilam, humanos oscilam. Vejo fadas, um grupo de mercenários me persegue, corro, corro.

Salvo a vida do rei, consigo manejar a vela do barco antes que se choque com uma rocha. O rei pede que eu permaneça no reino porque me estima muito. Recuso sem gentileza porque agora já não preciso disso. Ainda tenho muito a descobrir, não tenho pátria nem mátria. Estranha liberdade essa. Onde está minha mala de dinheiro? Não quero o que é fantástico, quero o medíocre e simples. Que me importa?

O céu se aproxima. Vai cair sobre mim, quer me comprimir, pôr rédeas na minha liberdade, estranha liberdade; ah, sou tão livre, posso saltar transpondo o céu e a eternidade acordo.

-Acordei.

Acordei de frente pra parede e realmente não lembro de ser vermelha, me viro, eis que no sofá vejo uma mala amarela com maços de dinheiro. Não, a parede é cinza.

Acordei






- Aos que tiverem comiseração e ao editar ponham um ponto final, não tenho coragem ou o imaginem, não é um conto de fadas, é uma crônica

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