Um diálogo inusitado


Bernardo Israel Rodrigues completou os seus quarenta anos de idade no dia 01 de abril de 2018. Era filho único e morava sozinho num apartamento em um bairro nobre da cidade de São Paulo. Os pais eram aposentados, ricos e custeavam as suas despesas com folga. Bernardo não trabalhava e permanecia trancafiado em seu apartamento assistindo à televisão o dia inteiro. Sabia de cor as programações dos canais. Tinha preferência especial pelos programas evangélicos. Sentia prazer em rir dos pastores pedindo dinheiro aos fiéis, pois era ateu e desprezava a religiosidade alheia. Em sua concepção, a religião era realmente o ópio do povo, apesar de detestar o autor da expressão, o socialista Karl Marx. Afinal, desfrutava da boa vida gerada pelo capitalismo.


Bernardo se relacionava com poucas pessoas. Tinha ojeriza a encontro de amigos e reuniões familiares. No máximo, participava do natal com os pais, mas fazia questão de permanecer no evento brevemente. Comentava-se que era assexuado. Ele sempre desconfiou do amor verdadeiro. Tudo para se resumia à conveniência. Um detalhe: era um leitor voraz de literatura ateia.


Embora não fosse depressivo, concluiu que a existência era uma tremenda perda de tempo. Consequentemente, decidiu se matar, só não sabendo de que jeito. No dia eleito para o suicídio, teve a ideia de ir a algum bar tomar um porre de despedida da vida que levava. Escolheu um PUB situado na esquina de sua casa, local frequentado por jovens na faixa dos vinte anos. Ele os descrevia como “meninos ingênuos que surfavam em uma onda sem sentido”. Bebeu tanto que teve de ser carregado para casa por um jovem evangélico, que estava na porta do bar tentando converter os presentes.


Chegando ao apartamento, caiu em um sono profundo e psicodélico. Estava em uma espécie de divã em que o psicanalista era representado pela figura do diabo. No começo, achou a situação irônica, uma vez que não acreditava em seres sobrenaturais. O psicanalista, que não tinha forma definida, iniciou um diálogo que merece transcrição:


Diabo: Bernardo, por qual razão pretende dar cabo à sua vida?

Bernardo: Ora, que pergunta mais idiota. Pretendo me matar para coroar uma vida despida de sentido.

Diabo: Então por que não agiu anteriormente?

Bernardo: Porque não tive coragem.

Diabo: Então estamos diante de um medroso mimado que só tomou coragem de se matar aos 40 anos?

Bernardo: Nunca é tarde.

Diabo: Pelo menos avisou o papai e a mamãe que se matará?

Bernardo: Não. Sequer deixarei um bilhete.

Diabo: Que falta de consideração a quem te amou e sempre o sustentou sem pedir nada em troca.

Bernardo: Sustentaram sem que eu pedisse.

Diabo: Se foi assim por que não foi viver a “vida sem sentido” por conta própria? Por que aceitou o dinheiro e os mimos dos pais? Por que não foi morar na rua sem o luxo obtido graças aos seus favores? Você é um tremendo ingrato e não será bem-vindo à minha casa. Melhor ir para o andar de cima, mas acho pouco provável que o aceitem?

Bernardo: Está me dizendo que não irei para lugar nenhum após me matar?

Diabo: Oras bolas, mas se deseja acabar com a sua vida por qual razão terá que ser acolhido em uma das casas? Se o que deseja é simplesmente desaparecer não deveria se preocupar com tamanha besteira.

Bernardo: Não é besteira, talvez precaução.

Diabo: Um legítimo ateu não teria medo de apenas desaparecer. Aliás, sequer ele me cumprimentaria.

Bernardo: Mas eu não pedi para estar aqui, simplesmente acordei em seu consultório.

Diabo: Se estamos tendo esse diálogo inusitado é por que desejou, ainda que inconscientemente. Lembre-se de que só existo para quem crê em mim.

Bernardo: Eu não creio em entidades sobrenaturais.

Diabo: Talvez creia e não se deu conta.

Bernardo: Chega. Esse papo me cansou. Preciso colocar meu plano em prática.

Diabo: À vontade. Pode ir. Já disse que não gosto de mimados ingratos, prefiro me divertir com os personagens de seu programa de televisão favorito. Eles realmente merecem a minha companhia. Saia e não volte mais.

Bernardo: Até mais.


O relógio despertou e Bernardo acordou assustado suando e com fortes dores na cabeça. Saiu da cama, tomou café e foi caminhar pelas ruas. Ao deixar o prédio, passou a ter um interesse inovador pelas pessoas e acabou se deparando com o crente que havia lhe socorrido na noite anterior. Este o convidou para ir até o culto. Bernardo aceitou de pronto.

A partir deste dia, converteu-se. Em poucos anos se tornou um pastor conhecido, ganhando um programa de televisão denominado “fala que eu te curo”. Seu testemunho de conversão incentivou muitos jovens a fazer o mesmo. Virou celebridade do mundo gospel. Chegou a retomar o contato com os amigos, porém, foi ignorado porquanto se tornara um crente catequista, daqueles que acordam os bêbados de ressaca para pregar a palavra.

Certo dia, os pais o assistiram na televisão. O filho insistentemente dizia que os fiéis deveriam contribuir com o dízimo, com a ressalva de que se não o fizessem seriam forçados a morar com o Diabo, criatura terrível que havia conhecido em outra oportunidade.

Terminado o programa, o pai de Bernardo olhou para a mãe e disse: “querida, nosso menino não perde o gosto pelo luxo”.











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