© 2019 Círculo das Artes. Todos os direitos reservados. 

CNPJ: 16.543.666/0001-26

Entrevista com Rodrigo Freire, autor de "O idioma da carne"

31/12/2014

O Idioma da Carne faz parte das publicações da Círculo das Artes. E para o leitor se sentir mais próximo do autor, preparamos uma entrevista com o autor, Rodrigo Freire.

 

 

CÍRCULO DAS ARTES: Como e quando foi o seu primeiro contato com a literatura?

 

RODRIGO FREIRE: Não sei ao certo. Talvez na escola. Mas, em casa, lembro de ler inteiro, antes de dormir e novamente quando acordei, "Fernão Capelo Gaivota" (É pequenino e vem com muitas imagens), depois levantei e escovei os dentes, acho! Nem sei como parou na minha mão. Deve ter sido minha irmã, ela para mim era a coisa mais admirável do mundo e... gostava de ler. Às vezes encabulo: "Sou um produto dela!". Vocês deviam, em vez de mim, era entrevistá-la pra falar de mim! (ahahah) Voltando ao primeiro contato... Sei que faz muito tempo. Fernão? Provavelmente nem tenha sido o primeiro livro! Deve ter sido na escola, literatura infantil... Mas a escola me fez mais desgostar das coisas que me impunha do que gostar delas.

 

C.A.: Como veio a ideia inicial que acabou se tornando O Idioma da Carne?

 

RF: Chamava-se, antes, Parlamentite - Um neologismo que criei para designar a escrita como uma "Inflamação da fala, doença..." - uma vez que calculava que não havia nada para contar. Em princípio, era para tentar escrever o tédio de uma maneira atrativa, transformar o cotidiano de ir até a esquina e subir novamente para o apartamento - itinerário que resumiu minha vida por mais de ano - em algo bacana, sugar a poesia ou a comicidade desses acontecimentos banais. Como o caso do porteiro, da empregada aqui em casa e da jogatina no bar etc. Tirar um caldo desses "nadas" é necessário quando só temos isso! O livro é muito o "como" contar e não o "o que" contar. Depois, como eu basicamente era o personagem, vi que muitos outros escritos interrompidos - ou sem hipótese de vingar em livros ou outras formas de organização - poderiam ser reunidos ali, pois que contariam "uma mesma história", ou diversas histórias de um mesmo personagem.  Reuni então essas coisas que não dariam em outros livros: poesia, contos, reflexões, romances inacabados... Talvez nem resultariam em um arquivo! E vi que isso era algo e merecia se reunir. Mas o que será que conta? Vi que compunham uma unidade, porque havia o link, que era "eu mesmo" tentando falar com sinceridade independentemente do gênero que acontecia, eu mesmo sob diversas perspectivas: memórias fieis, sonhos etc. eu mesmo de diversas formas. Então mandei os gêneros se ferrarem por me esperarem pronto e cabível e escrevi o que dava, o que naturalmente acontecia, o que me era vital... E o leitor tem de ser meio detetive, se quiser. Se não... Azar o nosso! Bom, aí está ele!

 

C.A.: Você via a possibilidade de publicar o seu trabalho como algo concreto ou tinha a impressão de que seu livro seria algo que as pessoas não teriam acesso?

 

R.F.: Penso que muitos podem comprar e ainda assim não ter acesso. Ou não se interessar pelo "acesso". Às vezes as pessoas compram porque conhecem o autor... Em seguida, jogam na prateleira, percebo que aconteceu isso com o Elefantes, meu livro anterior. As pessoas também querem livros por fetiche ou, quando me conhecem, para demonstrar amizade, ou porque são consumistas e idealizam o livro algo que lhes vai preencher um espaço que falta etc. Mas um ou outro tem o "acesso": que seria mesmo a identificação, saca? Ler e... "Caramba, também sinto isso!" Ou... "Caramba, não tinha reparado nisso da vida!" Ou ainda: "Cacilda! é uma sacada!"; "É novo, é inusitada esta forma..." São tão raros esses, que realizei na impressão uma pequena tiragem do Idioma (da Carne) com vocês. (Talvez faça outras tiragens, se achar mais desses leitores famélicos por páginas de um desconhecido, acho difícil! Para ler é necessário ter tempo!). É o que mais faço questão: ter uma pequena tiragem. Eu queria, na verdade, ele impresso para mim: gosto de coisas concretas, de pegar. Porque prefiro ler ali também, segurando, folheando, cheirando as folhas, correndo o dedo... Por outro lado, há muitas coisas escritas, sendo publicadas, faladas, acho prudente ter certo pudor de entrar no jogo, acho bonito isso de se recolher, de querer deixar o espaço para os outros... Não quero forçar a barra, nem virar um produtão de atacado, só se tivesse gente que me respeitasse o suficiente e estivesse afim de saber de fato o que vem por aí de minha safra. Mas comigo não tem essa de "O que vem por aí?", tem mais aquela, acredito: "Ih, merda! Se ele escrever e fizer nova tiragem, terei de comprar pra fazer média!" - os amigos. As pessoas querem, no tempo que lhes resta, mais é falar ou escrever e não ler nem ouvir! Você sabe, né?

 

 

 Capa do livro de Rodrigo Freire, O Idioma da Carne, lançado em 2014

 

 

C.A.: Agora que você conseguiu alcançar o objetivo da publicação, tem a intenção de trazer outros trabalhos para o alcance do público?

 

R.F.: "Alcance do público..." - Tô pensando. Acho que o Idioma da Carne está ao alcance de poucos. E oElefantes, a primeira publicação, está ao alcance do público! Bom, o Idioma da Carne está ao alcance de poucos pela forma em que é escrito. Elefantes não! Mas entendo, você faz uma pergunta de Editora. Respondo: Quero para os outros livros o mesmo que para o Idioma e o Como Elefantes ao Mar, sabe? Poder pegá-los nas mãos, folhear... Não quero fazer tiragens altas porque não aposto que vou ser lido ou estourar. Não acredito em viver de literatura. "Ter publicado" tem um lado ruim, me tirou de diversos concursos que exigem obras inéditas. No concurso eu tinha mais chance de ser publicado e aparecer. Mas agora nem fico procurando concursos, nem me indiquem, por favor! Estou fora do páreo! Agora quero ganhar grana ou a vida como pedreiro, se alguém souber de uma obra: não quero construtoras de prédios, mas coisas no térreo, casas da caixa, coisa simples e mais acessível. Alcance... Veja! Tentei tudo com Elefantes: ele está, aqui em Goiânia, até em loja de xerox! Ele foi finalista do prêmio SESC de literatura. Porque não acho que vou ser lido!Tenho uns cinco romances, só romances! E ainda sem publicar, hoje mesmo pensei em apagar um, tenho raiva dele: chama Tarde demais!. Um outro também - O Homem que pisa na sombra que dança - que foi finalista do SESC, foi o primeiro que completei e já não gosto dele, tenho vontade de rasgar, queimar, torcer e (tuuuuuu - censurado)... Pra você ver! E digo isso sem charme e sabendo que não há dó e cagando pra dó! Estou velho pra isso, para isso estou velho, barrigudo, e com dor nos joelhos por causa da obra em que estava trabalhando! Talvez eu publique ainda. Depende de circunstâncias! Eu... publicar? É um luxo, ter meu livrinho  para mim, na minha caminha, no meu sofazinho, cheirar ele todinho, lamber meu fracasso, levá-lo ao banheiro... Saca? O público? Passa muito bem com Paulo Coelho, Augusto Cury, Jô Soares, pelo que tenho visto... Em suma: Só os sós me acompanham!

 

C.A.: Quem é a sua referência literária?

 

R.F.: Olha, eu acho grandioso o Raduan Nassar ter parado de escrever. Acho ainda isso o máximo! Muitos deveriam parar, talvez eu tenha parado, eu também , talvez deva parar! Tipo, escrevo para mim. Para organizar meus pensamentos, escrevo essas respostas, um lembrete pra levar minha mãe no médico... O último conto que escrevi foi uma resposta para um amigo (O Fabrício), contei em detalhes o que ele queria saber e deu um conto! Vi que as coisas precisavam ser bem explicadas para sanar completamente as dúvidas dele sobre o que havia acontecido, então deu um conto. Escrevi só pra ele, mas postei. Deixo as pessoas se intrometerem. É sem graça e objetivo o conto, tem algumas reflexões, não resisto a refletir! É natural pra mim! Assim surge. Porque a gente sabe, quando alguém pergunta se está tudo bem, ele não quer saber de verdade, o "de verdade", então, coloco na minha "literatura" atual! E eles não querem saber mesmo, ninguém vai ler o blog. (ahahah) Mas ninguém tem nada que ver com isso, né? Por outro lado, podem se meter à vontade! Mas "referência" é aberto. "Influência? Parâmetro?" Acho que seria mais "parâmetro". Parâmetro não tenho. Mas leio muito Nietzsche, nunca paro de ler o bigode, e desde antes da moda! Bukowski.... Anh? Só quero escrever se tiver algo novo e necessário, como um estertor, um escarro na alta gripe etc. Não precisa ser belo! Tem de ter vida! Para mim aí já é belo. Não tenho nojinho!

 

C.A.: Como leitor, quais são os seus livros essenciais?

 

R.F.: Livros são essenciais? Bom, depende, se eu não soubesse cozinhar, um livro de culinária seria tudo! Mas Nieztsche foi "essencial". "Humano, demasiado humano" funciona muito bem comigo. Já devo ter lido... (quantas vezes?) Perdi a conta! Não conto. É besta contar: 1, 2, 3... Mas hoje, releio muito! Mais que leio novas coisas! O Mirilosa disse: Literatura é afinidade. Eu não botei aspas, ou seja, plagiei ele aqui! (ahahah)

 

C.A.: Como surgiu a ideia de convidar o Fabrício Rodrigues de Castro para ser o responsável pela capa?

 

R.F.: Não tive ideia, foram circunstâncias, ele desenha muito bem, se ofereceu, toca na banda do meu primo. Tomamos cervejas juntos, vou à casa dele vez ou outra, ele vem aqui vez ou outra, jogamos wii, bebemos, a mãe dele, Dona Samira, cozinha bem pra C... O pai dele é mais legal que ele! Enfim, acho que ele é um "inútil" na vida como eu... ou pior, porque ele faz publicidade... Acho! Então, dei a oportunidade a ele... de continuar sendo um nada junto comigo! E ele aceita sorrindo, cara! Foda, né? Ele gosta do que escrevo e de ser maltratado. Sério! Chamo ele de "Lixo Humano"! Antes de sermos amigos, meu primo, vocalista da banda Sanguinea, banda de rock doido em que ele também toca, me dizia: "Sabe quem é seu fã? Fabrício!"

 

C.A.: O que você acha do atual cenário da literatura nacional?

 

R.F.: Estamos muito pertos desse palco: a atualidade, não dá para ver direito! Dói o pescoço! Mas tem muita gente doida atrás do sucesso, o fato de ter muitas, as faz "comuns", nada mal isso! Mas o problema é que elas se pensam "extraordinárias", e o problema disso é que vão se frustrar, e no fim... É! No fim, é problema delas! Elas têm de experimentar, né? Algumas aprendem, outras tentam para sempre. É até virtuoso: "Não desistam nunca!" - isso vende. Os casos de sucesso são exceção e não regra! Sei que empresários não querem que você pense assim, se você pensar assim, você não compra! Hoje tem muito mais portas abertas para publicar se você for classe média e puder pagar ou se você for classe média e ganhar concurso, porque se for pobre... tu não tem nem computador, nem resma e nem cara: "face". Gostaria de ler algo que fosse roubado, seria mais sincero, mais porreta! No entanto, ainda mentiroso. Quero ver, ouvir, sentir, ler vida e não literatura. Às vezes coincide! "É preciso, para me agradar, sangrar sobre a folha", mas isso pode ser babaca e soar vazio, depende de quem ouve (lê)! Pelo menos que consiga me enganar.  Ótimo!

 

 

C.A.: Você tem a intenção de expandir os seus escritos, como criar textos para teatro, por exemplo?

 

R.F.: Já tenho texto para teatro, escrevo todos os gêneros; hoje, não porque vá atrás deles, tipo: quero escrever agora uma poesia, primeiro eu escrevo, depois dizem o que é. Do teatro eu fui atrás, não se escreve um roteiro arrumadinho com naturalidade: "fala de um, fala de outro, circunstâncias... Um conto, por exemplo, sim... Você pode nem se dar conta do gênero que está saindo: tenho um romance que achei que era conto e tenho contos que achei que eram romances! Bom, sobre o teatro... Como não aconteceu e não publico, é confiar em mim! Mas tentei realizar, tentei fazer peças duas ou três vezes... frustração. Tentei fazer vídeos, curtinhas pra youtube! Frustração! Precisava de outras pessoas... Sem grana nada anda ou sai mal feito segundo os padrões que, sejamos francos, nos acostumamos! É como um vício a alta "qualidade"! Enfim, foram burocracias (concorrendo ao incentivo de cultura municipal, foi até com texto de outro cara...). Muitas frustrações por ter acreditado, não gosto de lidar com gente compromissadamente...  Gosto da Elis (idealizadora e responsável pela Círculo das Artes), porque ela manda "Beijos" nos e-mails de trâmites "comerciais". Achei isso o máximo! Prefiro brincar, jogar ou gozar com as pessoas do que assinar contratos, quando muito! Também preciso de paredes, como se chama meu blog: "falandocomessasparedes" - não vou anunciar onde hospedo, descubram! (É fácil). Dizia? Ah, sim... preciso das paredes mesmo! Agora estou só entre elas, por exemplo! E daqui a pouco, quando acabarem as perguntas, estarei novamente. Sendo pedreiro agora, eu mesmo posso erguê-las! Parece coerente, não?

 

C.A.: Na exposição do primeiro trabalho o artista pode não sentir de imediato a reação das pessoas perante a sua arte. A possibilidade de ter seu trabalho avaliado pela crítica e pelo público pode incentivar ou dar medo. No seu caso, diante da expectativa de que O Idioma da Carne torne-se um livro conhecido, qual a sensação predominante até este momento?

 

R.F.: Sinto-me ridículo se me ocorrem essas esperanças, às vezes bebo, passo da conta... e posso tê-las, mas são arroubos megalômanos. Até escrever já me inibe! Pense só! E já escrevi sobre isso. Parece arroubo megalômano! Tenho vontade de pedir desculpas no fim. Mas eu mudo, hein! Lembra que não gosto de assinar contratos, acordos? Imagine que essas esperanças... As tive em demasia na mais tenra juventude! Agora é fim de juventude, já viu meus cabelos brancos? Tenho desde os 5 anos de idade um monte de vãs esperanças, sonhos idiotas... Tudo lhe promete sucesso, até o Marlboro prometia. Acredito mais no Free hoje em dia, continuo tentando, vou acender um agora. Tornar conhecido? (Entendo: "Muito conhecido"; "famoso, né?") Vamos fazer uma psicologia inversa com a massa? "Você nunca vai ler O Idioma da Carne!" Ah, e para acabar... Sinto-me mesmo besta de alguém me entrevistar! E, se prestaram atenção, sinceramente: "Desculpa!"

 

Please reload