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Entrevista com Cleber Lizardo de Assis, autor de "guardanapo"

6/2/2015

 

 

CÍRCULO DAS ARTES: Cleber, por favor, conte-nos um pouco sobre você, onde nasceu, que dia nasceu, em que cidade, quais são suas origens...

CLEBER LIZARDO DE ASSIS: Sou mineiro de Coronel Fabriciano, mas mudei muito desde 06 de dezembro de 1971, seja de casas, bairros, cidades, estados... explorando especialmente Minas Gerais.

 

CA: Quando e com quantos anos a literatura fez parte de sua vida?


CLA: A leitura sempre foi prazerosa desde que iniciei a alfabetização, no quintal de casa com minha professora (então adolescente) Selma, lendo os poemas de minha mãe Cecília. E já aos 10 anos já rascunhava pequenas histórias, poesias e músicas. A partir daí, não parei mais.

 

CA: Quem são suas principais referências? E quais obras são seus verdadeiros livros didáticos?


CLA: Isso de referências é muito complexo, pois nem sempre damos conta de quem nos influencia, mas posso dizer de autores que gostei e me provocaram: Drummond, Leminski, Cecília Meireles, Cora Coralina, Mário de Andrade, o haikai japonês...

 

CA: E a poesia, quando e como você teve seu primeiro contato?


CLA: Como leitor, lembro dos textos trazidos em livros didáticos da escola; e como escritor, lembro da poesia nascendo junto com a música, pois com 10 anos fiz um poema e depois o musiquei.

 

Escrevo para existir, para extrapolar os limites.

 

CA: O que a poesia representa em sua vida?


CLA: Não só a poesia, mas toda a forma de literatura e arte são formas de registro do desejo de transcender e que todos nutrimos de alguma forma; escrevo para existir, para extrapolar os limites do que está posto em mim e na realidade.

Escrevo para existir, para extrapolar os limites.

 

CA: Em que se inspira na hora de compor seus poemas?


CLA: Cenas do cotidiano, as relações humanas, os fenômenos subjetivos, as questões filosóficas, e o que me afetar de forma mais intensa.

 

CA: Como é seu processo de criação?


CLA: Já tive diversos processos: antes de “pirar-escrever”, escrever para “pirar”, focar em algo e “trans-pirar”, deixar fluir o que emergir dos sentidos, o mero jogo das palavras... sem uma regra predefinida para criar.

 

CA: Por que escolher a poesia e não o romance, por exemplo?


CLA: Ainda não sei. Também escrevi música, teatro, contos e agora textos científicos, mas ainda não fui seduzido pela ideia de escrever um romance. Talvez preguiça por achar o romance muito enfadonho e obsessivo. O aprisionamento dos detalhes. A aparente tentativa megalomaníaca do romancista de criar e controlar uma realidade. Ando mais minimalista e essencial ao sabor de um haikai.

 

CA: Dizem que os autores tem intenções distintas ou semelhantes com sua obra. Qual seria sua intenção?


CLA: A obra artística, uma vez criada, não pertence mais à intencionalidade do autor, mas “re-criada” em cada olhar e subjetividade do apreciador. Primeiro, crio para existir, para lidar com o que pulsa em mim, para tentar dar ordem ao caos e caos na ordem asfixiante; e num segundo momento, agenciar e afetar o outro como indissociável interlocutor, trazendo-o para essa troca de desejos e subjetividade.

Crio para existir, para lidar com o que pulsa em mim, para tentar dar ordem ao caos.

 

Crio para existir, para lidar com o que pulsa em mim, para tentar dar ordem ao caos.

 

 

CA: Além de escritor, poeta, também é psicólogo. Suas poesias, na maioria das vezes, remetem à esse lado nosso do subconsciente. Como isso se dá?


CLA: A Psicologia e, particularmente a Psicanálise, sempre estiveram em um perfeito diálogo, pois ambos os campos lidam com o que nos tornam humanos: a palavra. A palavra é essencial no processo do autoconhecimento, da expressão, da interação social. Gosto de trata-la de forma a lidar com as questões existenciais e psicológicas que marcam o humano. Dois registros diferentes que se encontram na palavra.

 

CA: O livro inteiro tenta mostra que seus escritos foram feitos aleatoriamente em momentos em que eles vinham a mente e era preciso exorcizá-los. Então, foi comum que seus poemas pintassem na sua cabeça enquanto estava numa mesa de bar, enquanto tomava banho e essas coisas?


CLA: Há poemas feitos na adolescência e na juventude, com ou sem rima e métrica, em forma de conto ou de haikai, com temas sociais, amorosos e psicológicos. Em suma, são criações de diversos períodos cronológicos, fases e momentos da vida: de um olhar na esquina à mesa de bar, de uma insônia insistente à irrupção de uma cena cotidiana.

 

 Cleber é escritor, psicólogo, músico e... Podemos dizer que é um homem de várias facetas artísticas e científicas.

 

 

CA: Como foi a escolha do título “guardanapo”? E qual o motivo do “g” ser sempre grifado em minúsculo?


CLA: Gosto da coisa lúdica que fiz muito: pegar um pedaço de papel qualquer e criar algo; “Guardanapo” é também o título de um poema premiado e que está no livro. Quanto ao “g” em minúsculo, foi uma brincadeira “grafo-estética”.

 

CA: De suas poesias, qual delas tem um significado especial? E qual seria esse significado para você?


CLA: Difícil escolher um poema, mas destacaria “Guardanapo”, escrito, musicalizado e guardado no papel original; além de “Sina” que também musiquei. Ambos brincam e, por isso, ludibriam certa noção coisificada de existência, numa tentativa de transcende-la.

 

CA: Quando você escreve, escreve para alguém em especial? E por quê?


CLA: Há sempre um interlocutor. A arte é dialogal. O que varia é que esse outro pode ser mediato ou imediato, concreto ou imaginário.

 

CA: Dizem também que todo livro é autobiográfico. “guardanapo” é um livro autobiográfico?


CLA: Sempre é autobiográfico, embora não imediatamente, podendo partir de algo real, mas suplantando-o e sem se tornar uma mera cópia da realidade ou de mim. Claro que há fragmentos de mim em cada poema.

 

CA: O que espera que os leitores percebam em sua obra? Qual a mensagem que gostaria de passar?


CLA: Minha intenção é que, ao ler, não haja tanta intencionalidade no leitor: apenas leia e deixe a coisa reverberar, evocar, afetar sensações, sentimentos e desejos de ser mais. Que apenas jogue e brinque comigo.

Lembro da poesia nascendo junto com a música, pois com 10 anos fiz um poema e depois o musiquei.

 

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