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Confissões de uma adolescente grávida: leia um trecho!

24/11/2016

 

"Confissões de uma adolescente grávida" não é apenas mais um livro sobre gravidez na adolescência, é na verdade, uma história sobre como as coisas podem dar errado mesmo quando você toma todos os cuidados possível, mesmo quando você tem todas as informações do mundo, mesmo quando você tem sua vida planejada, e como você precisa ter coragem para enfrentar essas adversidades, pois no final, tudo pode acabar dando certo.

 

 

 

 

 Janeiro de 2011

 

O ano mal começou e eu já estou ciente de que este será o ano em que tudo vai mudar para mim, que nenhum outro será como este. 2011 não parece ser um número muito significativo. Não é um número cheio, não teremos eleições presidenciais aqui no Brasil ou nos Estados Unidos, não haverá Copa do Mundo de Futebol ou Olimpíadas, os Jogos Pan-Americanos vão acontecer no México, e vivemos num mundo onde um filme sobre a criação de uma rede social está “bombando”, e possivelmente receberá muitas indicações ao Oscar.

 

Acredito que muitas histórias melhores estejam esperando para serem contadas, muitos sobreviventes de guerra, pessoas que enfrentaram uma doença grave, ou passaram por uma experiência de grande risco de morte, mas sobreviveram para contar.

 

Não quero ser chata dizendo o que as pessoas deveriam consumir ou não, quero falar de mim e de como o meu mundo de agora já é diferente do que era há dois meses.

 

Eu me chamo Mirella. Tenho 16 anos (quase 17) e estou grávida. Ao contrário do que muitos podem imaginar, meus pais me deram uma educação exemplar, eu não engravidei de propósito para “segurar” o meu namorado (gente, isso funcionou algum dia?), não frequento bailes funk sem calcinha, e não passo dias e noites com meus pensamentos voltados unicamente para o meu namorado.

 

Eu tenho gosto variado em diversos campos (esporte, música, teatro, cinema, TV e até cultura inútil), sonhos e minha própria maneira de enxergar o mundo. Gosto de ouvir música quando estou chateada ou confusa, cantoras como Fiona Apple, Alanis Morissette e Sheryl Crow.

 

Acontece que, certo dia, a camisinha estourou. Simples assim. Isso pode acontecer com qualquer um, é verdade, mas o Fabrício (meu namorado) e eu acreditamos que o incidente não teria grandes consequências. Não somos ignorantes, apenas levamos em consideração o fato de que, para uma gravidez acontecer, é preciso um bocado de sorte. Um super-herói em formato de espermatozoide precisa entrar no óvulo atravessando sua membrana, levando 23 cromossomos que, isolados, combinam-se com os outros 23 cromossomos existentes no óvulo, e viram um complemento normal de 46 cromossomos, dispostos em 23 pares. Tudo isso no período fértil da mulher.

 

Quando ouvimos que uma adolescente está grávida, é comum ficarmos indignados perante tantos métodos anticoncepcionais disponíveis. Acontece que... Tive a minha primeira relação sexual há pouco tempo. Mesmo já tendo sido apresentada ao ginecologista, achei que não era a hora de tomar pílulas, principalmente porque não sei se é verdade, mas ouvi muita gente dizer, que era difícil uma mulher que tomou pílulas por muito tempo engravidar quando decidisse. Eu fiz as contas: segundo meus planos, eu me tornaria mãe entre os 28 e 30 anos. Só de pensar no efeito que doze anos tomando pílula poderiam causar, eu desisti de começar a tomá-la. Sem contar que o Fabrício e eu não somos dois animais que transam a toda hora. Sinceramente, estamos juntos há quase um ano e transamos menos de dez vezes.

 

Isso também não é algo para assustar as pessoas, basta ser racional. Tenho 16 anos, era virgem quando começamos a namorar, não tenho como entrar em um motel e o processo de familiarização com a relação sexual é lento. Além disso, não começamos a transar na primeira semana de namoro.

 

Por tudo isso, é preciso relatar a visão errada que as pessoas têm de uma adolescente grávida. Meu bebê não é a consequência de uma vida desregrada e promíscua, mas de um... Descuido.

 

Também sei que existe a “pílula do dia seguinte” mas, sendo sincera mais uma vez, eu simplesmente pensei que não fosse acontecer, e não estava disposta a colocar para dentro de mim aquele monte de hormônios. Ouvi dizer que o uso frequente desse método contraceptivo pode causar infertilidade ou gravidez nas trompas, ou seja, as consequências seriam terríveis. Depois que eu comuniquei a gravidez minha irmã mais velha, a Júlia, me explicou que a pílula não causa infertilidade, apenas altera o ritmo hormonal da mulher. E que a gravidez nas trompas pode ocorrer, mas é bastante rara, ou seja, se eu tivesse tomado somente nessa emergência, o risco de uma consequência maior seria mínimo. A própria Júlia tomou uma vez e não teve problemas.

 

Então é assim, pouco depois do Natal eu descobri a gravidez, atualmente estou com quatro semanas de gestação. Fabrício ficou surpreso, claro, mas ficou contente também. Contente porque ele sempre teve vontade de ser pai e gostaria de ter passado mais tempo com o dele, que morreu quando ele tinha 7 anos; câncer no estômago. Ele tem um padrasto, o Matheus, que o adora, mas ninguém substituiria seu pai.

 

Porém, assim como eu, ele sabia que não era a hora.

 

Não vamos nos casar. Não agora. Estamos apaixonados, mas ainda somos muito novos. Eu odiaria pensar que estamos juntos somente para criar nosso filho, e quero manter a nossa relação apenas enquanto estivermos interessados um no outro. A minha prioridade é que ele assuma o nosso filho, e ele já fez isso. Tenho certeza de que será um bom pai e estou contente de ter escolhido alguém responsável para essa tarefa.

 

O Fabrício é jovem também, está prestes a completar 18 anos e vai começar o primeiro ano de faculdade. No entanto, a pouca idade não é sinônimo, ou desculpa, para falta de planejamento para o futuro. Toda a sua carreira como engenheiro civil está planejada, e eu boto fé de que ele vai alcançar tudo o que deseja.

 

* * *

 

Hoje eu tive um momento muito especial com o Fabrício. Nós jogamos videogame na casa dele durante boa parte do dia e depois ficamos apenas deitados, olhando para o teto e ouvindo música, enquanto ele passava a mão na minha barriga.

 

Fizemos planos e conversamos sobre os possíveis nomes para o nosso bebê. Se for menino, o nome será Júlio (escolhido por Fabrício) e se for menina, o nome será Raquel (escolhido por mim).

 

 

Percebi que são momentos como esse que fazem com que os casais que não planejaram uma gravidez percebam que todo o trabalho, toda a dor de cabeça e o estresse que virão são apenas uma parte insignificante de algo muito maior. Naquele momento, eu não achei que fosse a hora errada, e acredito que o Fabrício tenha a mesma opinião. Pelo contrário, já queria ter o nosso bebê nos braços. 

 

Nosso filho já me faz ver o mundo de outra maneira, como um lugar muito melhor do que o mundo que eu conhecia antes de ele ser concebido.

 

* * *

 

Hoje eu passei por uma situação muito desconfortável.

 

Havia combinado de ir ao cinema com a Jéssica, que é minha amiga desde a primeira série. Ela foi a primeira pessoa para quem eu contei sobre a gravidez, porque sabia que ela ia me entender, e que jamais me julgaria.

 

A Jéssica é daquelas pessoas que acreditam na bondade do mundo, e que cada um tem um potencial a ser estimulado, acho que eu nunca a vi brava na vida, além de ser uma das pessoas mais inteligentes do meu círculo social. Ela tem uma beleza discreta, que disfarça mantendo os cabelos negros e encaracolados sempre presos em um rabo de cavalo. É tão branquinha que, às vezes, eu acho que ela não deve ser exposta ao sol, mesmo que por poucos minutos.

 

Cheguei a sua casa um pouco antes do combinado, e a Dona Christina foi quem me atendeu. Ela é mãe de Jéssica e sempre me tratou muito bem, mas ontem estava com uma expressão diferente quando apareceu no portão. Não me olhava mais com a mesma ternura de antes.

 

Quando eu perguntei pela Jéssica, ela não pensou duas vezes e disse:

 

– Vou ser bem clara, Mirella: não vejo sentido em você procurar a Jéssica para sair. Vocês não são mais do mesmo mundo. A Jéssica vai começar o último ano do ensino médio, e tem tudo muito bem planejado para o ano que vem, enquanto você... Agora deve se preocupar somente em ser mãe, não foi isso o que você escolheu? Vocês duas têm pensamentos diferentes.

 

Fiquei paralisada. Mas depois de uns cinco segundos, consegui respirar e responder:

 

– Dona Christina, me desculpe, mas o fato de eu estar grávida me desqualifica para ser uma companhia para ir ao cinema? O que a senhora acha que vai acontecer? Que eu vou fazer uma lavagem cerebral na Jéssica para ela engravidar também? A senhora subestima a personalidade da sua filha, com todo o respeito.

 

Antes que ela tivesse tempo de revidar, Jéssica apareceu no portão pronta para sair. Não deu tempo nem para que Jéssica entendesse exatamente o que estava acontecendo, mas já devia ter imaginado a postura da mãe. Ela me pediu desculpas pelo comportamento da Dona Christina, só que eu sei que a culpa não é dela.

 

Fiquei muito chateada. Parece que agora não sou uma boa influência para as adolescentes “corretas” da escola ou do meu bairro, e me pergunto: “mesmo que eu tivesse engravidado de propósito, será que os adolescentes de hoje são vistos como pessoas tão facilmente influenciáveis?”. É bem verdade que, em todos os lugares, existe gente da minha idade com ideias fracas, sem perspectiva, que não idealiza um futuro bacana, mas o grande erro da sociedade é generalizar e subestimar os jovens.

Mesmo porque também existem milhares de adultos incrivelmente influenciáveis. Minha irmã tem 25 anos e fica irritadíssima com uma mulher de 30 anos que trabalha no mesmo lugar que ela. Todo novo curso que a Júlia resolve fazer, um livro que ela lê por puro entretenimento, ou peças de teatro que ela assiste, essa mulher tem que ir atrás também. Parece que ela não sabe onde procurar coisas bacanas para consumir, e se baseia no que a minha irmã faz. É deprimente. Seria muito mais interessante se ela se mostrasse disposta a trocar dicas culturais, como a maioria das pessoas faz.

 

Mas o que mais irrita a Júlia é a questão do cabelo. Minha irmã muda o visual a cada 6 meses: pinta, corta, faz o que bem entende, e sempre é copiada uma semana depois por essa mesma mulher. Pior do que isso, é se propor a usar um corte de cabelo ou uma cor de tinta que não combina com você, somente porque outra pessoa usa. São tipos de fios diferentes, tonalidades de pele distintas, mas nada disso parece incomodar a tal “maria vai com as outras”. Atualmente, Júlia está usando um corte chanel e os fios estão ruivos como os da atriz Amy Adams, e eu nem questionei como vai o cabelo de sua colega de trabalho.

 

E essa situação não é a pior, eu tenho uma tia por parte de pai que em dia de eleição pergunta ao marido em quem ela DEVE votar. Nem quero começar a expressar a minha opinião diante de tal ato, pois vou ficar mais irritada.

 

Desisti de ver o filme depois da situação chata pela qual passei com a mãe da Jéssica, mas fomos a uma sorveteria bem bacana. Acho que engordamos uns três quilos, e batemos papo pelo resto da tarde.

 

Foi bem legal, pois conversar com a Jéssica é sempre bom. Ela sabe acalmar, falar coisas que te fazem sentir melhor, é engraçada e muito culta. Será que a danada não é um alienígena?

 

Depois de tudo isso ela veio para casa comigo e assistimos Piratas do Rock. É uma comédia que mostra uma rádio pirata na década de 1960. Muita diversão e boa trilha sonora, adorei.

 

* * *

 

Me rendi e assisti ao filme A Rede Social. Não é ruim, mas ainda não acredito que seja um bom tema para ser mostrado em um filme. A Jéssica apresentou uma série de argumentos para a obra ser valorizada, mas isso porque o Q.I. dela é bem mais alto do que o meu. Ela não entende que esse assunto deveria ser discutido com a minha irmã, não comigo.

 

Júlia é jornalista e trabalha para um site de entretenimento, então vira e mexe ela vai a sessões exclusivas para jornalistas pela manhã, logo, é complicado chamá-la para ir ao cinema. É algo do tipo:

 

– Júlia, hoje estreia Transformers: A Vingança dos Derrotados, vamos ver?

 

– Ixi, assisti há um mês, você não viu a minha crítica?

 

Mas também tem o lado bom:

 

– Júlia, eu tive que assistir ao filme O Quarto Poder na escola e preciso escrever sobre ele, destacar os pontos positivos e negativos.

 

– Isso é fácil. Você pode enfatizar como o personagem do Dustin Hoffman iniciou um show a partir de uma situação que não iria muito adiante, se não fosse pela intromissão dele e de como a opinião pública, sobre o personagem do John Travolta, muda de acordo com o que a TV mostra. Ele é visto como homicida, como pai de família, como coitadinho e como herói ao longo da história. Como ponto negativo, você pode dizer que o filme se torna inferior quando comparado com o clássico A Montanha dos Sete Abutres, que também aborda a responsabilidade no jornalismo.

– Mas eu não vi esse filme.

 

– Eu tenho, fique à vontade para assistir.

 

Ou ainda:

 

– Júlia, o pessoal da escola está a fim de ver (500) Dias Com Ela. É uma boa ideia?

 

– Descarta, é melhor ver Amor Sem Escalas.  Mais realista, mais adulto, tem o George Clooney e mostra certas particularidades de algumas profissões.

 

– Mas somos adolescentes.

 

– Isso justifica o baixo nível do que vocês consomem?

 

Sim, ela é direta, mas eu estou acostumada.

 

* * *

 

Meus pais não surtaram quando anunciamos a gravidez, mas ficaram surpresos, obviamente. Meu medo era de que meu pai passasse a tratar o Fabrício mal, e entrasse numa conversa do tipo “nós confiamos em vocês e veja só o resultado”, mas, pelo menos por enquanto, isso não aconteceu.

 

Esperamos o susto da notícia passar e os ânimos se acalmarem, por isso somente agora tivemos nosso primeiro almoço em família com a presença do Fabrício, desde que comunicamos a gravidez aos meus pais. Ele não deixou de vir me ver, mas somente hoje ele se reuniu a minha família. 

  

Até a Júlia tirou o dia para ficar em casa, deu uma desculpa qualquer sobre resolver umas coisas apenas para não perder o almoço. 

 

Meu pai é professor universitário de literatura, e minha mãe é assistente social. Talvez por isso, quando souberam da minha gravidez, me imaginaram abandonada pelo pai da criança, sem dinheiro para comprar fraldas e sem ninguém disposto a cuidar do bebê para que eu pudesse trabalhar.

 

Aos poucos, minha mãe tentou perguntar se o Fabrício e eu vamos nos casar. Quando eu percebi a intenção dela, tomei a frente.

 

– Mãe, tomamos uma decisão juntos: não vamos nos casar por causa do bebê.

 

– Mas como não? Deveriam!

 

– Não deveríamos. Devemos nos casar um dia, por amor, não por conveniência ou necessidade.

 

– E como vocês vão criar essa criança?

 

– Mãe, o Fabrício vai começar a faculdade agora. Por ter feito ensino médio técnico, ele vai começar um estágio semana que vem, mas vai ter pouco tempo para dormir durante a semana. Não quero que ele passe por dificuldades no trabalho, ou na faculdade, por conta da criança.

 

– Ué, mas isso é consequência de se ter um filho e eu não acho certo um de vocês dois se esquivar de algumas inconveniências. Você acha que o seu pai nunca levantou cedo para dar aula, morrendo de sono, porque você chorou a noite toda com cólicas? A maneira correta de criar uma criança é com pai e mãe por perto, educando-a todos os dias.

 

Mas Fabrício achou melhor explicar com as palavras dele.

 

– Dona Érica, me deixe esclarecer tudo. A minha rotina não é o principal motivo para termos tomado essa decisão. O que acontece é que a Mirella e eu pensamos em nos casar um dia, mas agora somos muito jovens e temos medo. É verdade que somos jovens para ter um filho também, mas não queremos atropelar as coisas. Já vimos casais se desfazerem por conta do estresse de se criar um filho desde tão cedo, também temos medo de nos casarmos agora e depois de um tempo percebermos que não era exatamente o que gostaríamos. Só quero deixar claro que não pretendo me esquivar da minha responsabilidade, mas garantir que no dia em que eu pedir à senhora e ao sr. Danilo a mão da Mirella, vai ser por amor e em um momento em que eu tenha condições financeiras de sustentá-los, ela e nosso filho, sozinho. Concordo que, em muitas noites, eu não estarei por perto no começo, mas não serei um pai ausente. Eu moro na rua de trás, virei aqui sempre e em nenhum momento a Mirella estará sozinha. Além disso, o bebê poderá sempre dormir lá em casa. Eu sei que não será possível no começo por causa da dependência dele em relação à mãe, mas vamos trabalhar juntos nisso. E não se preocupe, a Mirella não vai negligenciar a vida acadêmica, já conversamos sobre esse assunto.

 

Isso calou a boca da minha mãe. Foi lindo.

 

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