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Intimidade: leia 2 capítulos na íntegra!

24/11/2016

 1

Rodrigo levou sinuosamente o cigarro aos lábios.

 

A baixa temperatura paulistana constante das últimas semanas fazia a fumaça acinzentada condensar-se lentamente no ar. Virou a cabeça para o outro lado quando ouviu passos sobre o concreto úmido de chuva. Viu dois garotos encapuzados entrarem na loja de conveniência, onde passava a maior parte de suas madrugadas. Levantou-se da guia, atirou a guimba no chão molhado e os seguiu. Enquanto os garotos analisavam as bebidas nas enormes geladeiras com portas de vidro, Rodrigo passou por baixo do balcão e sentou-
-se na alta banqueta diante da tela de seu computador.

 

Os risinhos agora enchiam o ambiente solitário, antes silencioso, exceto pela música quase inaudível que tocava nas caixas de som.

 

Os dois rapazes colocaram um engradado de cerveja e duas garrafas de vodca no balcão de madeira.

 

Rodrigo lhes ofereceu um sorriso cansado e passou os códigos de barra no leitor.

– Sessenta e sete e quarenta – disse-lhes depois de verificar o valor na tela.

 

Um dos rapazes caminhava no corredor dos chocolates. O outro jogou o capuz para trás, revelando seu cabelo negro e olhos castanhos, e puxou a carteira do bolso traseiro entregando uma nota de cem.

 

 

Rodrigo enfiou a nota na gaveta do caixa e retirou o troco, passando-o ao garoto.

 

– Isso é pelo – o moreno puxou uma nota de dez da própria mão e colocou sobre o balcão – chocolate que meu amigo vai roubar – murmurou, erguendo os olhos brilhantes.

 

Rodrigo assentiu com um meio sorriso e enfiou a nota na gaveta do caixa.

 

– Obrigado por isso – agradeceu com um meneio de cabeça.

 

O rapaz deu uma piscadinha seguida de um sorriso, então enfiou o engradado sob o braço e abraçou as duas garrafas contra o peito. Segundos depois, a loja já estava vazia outra vez.

 

Rodrigo olhou ao redor e verificou a hora no relógio de parede, que a cada dia mórbido parecia se mover ainda mais lentamente.

 

– Três e quatro – disse a si mesmo. – Só mais duas horas e cinquenta e seis minutos.

 

Ele baixou a cabeça e analisou suas mãos sobre o colo. Sentiu o celular vibrar no bolso do moletom e o pescou, verificando a mensagem de texto.

 

“Estava uma droga sem você”, dizia a mensagem de Alan.

 

Rodrigo deixou um sorriso esboçar-se em seu rosto. Apoiou-se com os cotovelos sobre o balcão e respirou fundo, deixando o celular ao lado do teclado.

 

Aquela quinta-feira não era diferente de qualquer outra. Enquanto o mundo se preparava para um fim de semana incrível, Rodrigo ainda tinha mais de duas horas de trabalho para enfrentar. Mais de duas horas para que pudesse chegar em casa, tirar aquele uniforme patético e se jogar na cama sob enormes cobertores.

 

Alan não estaria lá dessa vez. Pelo menos não depois de uma festa, e isso era péssimo. Era como se os horários incompatíveis os afastassem ainda mais. Dizem que a saudade aumenta o amor, mas será mesmo? Será que a saudade não era alimentada pela negatividade dos pensamentos sobre o que a distância poderia causar a um relacionamento?

 

Rodrigo balançou a cabeça para espantar esses pensamentos, antes que pudesse ter respostas conscientes disso.

 

Ele pegou o celular e digitou a resposta: “Eu te amo”.

 

No fundo, sabia que estava inseguro. E estaria ainda mais em breve, quando as universidades começassem a publicar as listas de aprovados. Rodrigo estava consciente de que tinha a maior participação em incentivar Alan a entrar em uma universidade. Porém, com tudo o que vinham passando nas últimas semanas, as coisas pareciam estar como que sobre uma corda bamba. Rodrigo não sabia ao certo por que estava se sentindo assim. Talvez fosse o tempo vago, agora que trabalhava de madrugada, que o permitia pensar demais nas circunstâncias de sua vida. Mas, de repente, o jogo estava virando, a corda estava bambeando do seu lado e isso não era bom.

 

Rodrigo contraíra uma virose na semana do ENEM, no ano anterior, e acabou perdendo os vestibulares para os quais tanto se preparara durante um ano de cursinho. Isso era péssimo. Mais um ano de sua vida estava passando diante de seus olhos, somando mais 365 dias de um emprego horrível e uma vida sem muitos acontecimentos. Mais de sessenta por cento do que ganhava naquela loja era destinado ao aluguel do seu minúsculo apartamento e o restante às despesas da casa. Vez ou outra sobravam alguns trocados para que ele se desse ao luxo de comprar uma camisa nova ou parcelar uma viagem no cartão de crédito de limite miserável.

 

Todos esses fatos, em conjunto, o colocavam em um estado de confusão inestimável. E se Alan realmente entrasse na faculdade? Isso seria mais um motivo para afastá-los? E se ele conhecesse alguém lá? A vida estava ficando complicada. O relacionamento consumia a maior parte das expectativas e a menor parte do tempo, o que só podia ser um problema.

 

Tempo não mede sentimento, definitivamente. Desde a primeira vista Rodrigo teve certeza de que seria Alan. Seria sempre Alan. Mas nas últimas semanas, com o emprego em novo horário, as brigas vinham aumentando gradativamente, o ciúme crescendo mutuamente e o espaço entre os dois se tornava cada vez maior.

 

Rodrigo sabia que estava se autoflagelando ao insistir em pensar sobre tudo isso. Mas era quase impossível não pensar, considerando a situação atual.

 

Ele acendeu a tela do celular e analisou a foto no papel de parede. Alan tinha creme de barbear no rosto, fazendo uma careta com a cabeça apoiada no ombro de Rodrigo, que segurava o celular diante do espelho com os olhos cerrados.

 

Aquela lembrança lhe passou pela mente.

 

– Pronto, amor? – Rodrigo gritou do quarto. Quando alcançou a soleira da porta do banheiro Alan estava inclinado sobre a pia, passando a espuma de barbear no rosto.

 

Alan ergueu os olhos e viu o reflexo de Rodrigo no espelho, com os braços cruzados e um olhar impaciente.

 

– Você nunca consegue ser pontual? – Rodrigo quis saber, não conseguindo evitar alguns risinhos.

 

Era o terceiro sábado que passavam juntos desde o início do namoro e Rodrigo iria, finalmente, apresentar Alan a seus amigos mais íntimos, em uma pizzaria na rua Augusta.

 

– Desculpe – Alan fez um biquinho e ofereceu a mão para Rodrigo, puxando-o quando este a segurou.

 

– Não me be... – mas Alan já o havia beijado, deixando boa parte da espuma em seu rosto, e ria do fato.

 

– Vamos tirar uma foto – disse.

 

– Não! – Rodrigo protestou tirando a espuma do rosto com a mão e enxaguando na torneira. – Pare de enrolar, ou vou dizer para todo mundo que você ficou deitado na cama coçando o saco, enquanto eu me arrumava desesperadamente. Não é o tipo de primeira impressão que você quer causar, é? – O olhar competitivo fez Alan dar uma gargalhada.

 

 

Ele levantou a cabeça, jogando as mechas de seu cabelo para trás.

 

– Eu aumento minha velocidade em cinquenta por cento se você tirar uma foto comigo – desafiou com um olhar cerrado.

 

Rodrigo esboçou um sorrisinho bobo e puxou o celular do bolso do jeans.

 

Alan segurou em seus ombros posicionando-o diante do espelho, o abraçou por trás e ajeitou a cabeça no ombro de Rodrigo, de modo que não sujasse sua jaqueta de espuma.

 

Rodrigo voltou à realidade quando sua perna escorregou da banqueta. Ele suspirou e olhou mais uma vez a foto, completamente nostálgico, antes de enfiar o celular no bolso do moletom outra vez.

 

 

* * *

 

Alan rolou na cama e pegou o celular no criado mudo. A tela acesa indicava que acabara de receber uma mensagem de Rodrigo: “Eu te amo”.

 

Ele sorriu, confortável e aquecido sob o edredom. Enfiou o celular sob o travesseiro e fechou os olhos, pronto para dormir. Como qualquer pessoa, os acontecimentos de seu longo dia começaram a passar em sua mente. Meio período atendendo o telefone no trabalho, algumas horas atualizando os sites das faculdades para as quais se inscrevera, mas sem nenhuma novidade sobre as listas dos aprovados. Finalmente, uma rápida ida até seu apartamento minúsculo para se ajeitar e ir à festa de aniversário de Fernando, em uma boate underground da rua Augusta.

 

Duas horas mais tarde, a bebida já o deixava tonto e as luzes confundiam sua visão conforme o esperado. Uma ida até a área de fumantes e finalmente pôde fumar um baseado. Pouco depois já não conseguia parar de rir das danças exotéricas dos desconhecidos na pista de dança. Então, decidiu que já era tarde o suficiente e precisava ir embora, do contrário não acordaria para o trabalho. Alan se despediu dos amigos e seguiu rumo à saída, mas antes que pudesse alcançar a porta uma mão segurou seu braço, o impedindo de continuar.

 

– Você sumiu – André se aproximou, falando por sobre a música. Os enormes olhos negros refletindo os flashes de luz, os lábios esboçando um sorriso malicioso, o peito estufado sob a camisa.

 

– Vestibular – Alan respondeu meneando a cabeça.

 

André assentiu, chegando perto demais.

 

– Eu preciso ir – disse Alan, abaixando a cabeça para olhar a tela do celular. Mas, na verdade, sabia que estava entrando no jogo.

 

André esboçou um novo sorriso. Não tentaria outro beijo. Hoje não.

 

– Voltarei a vê-lo? – quis saber.

 

– Quem sabe? – Alan deu de ombros e se afastou, desaparecendo porta afora.

 

“Estou namorando agora” pensou, enquanto colocava os fones no ouvido e descia a rua abarrotada de gente bêbada pelas calçadas. “Eu devia ter dito”.

 

Esse era o caso, ele sempre queria dizer coisas a André, por exemplo quanto fora a fim dele no passado, quando sua vida se resumia a boates, drogas e álcool. Mas as coisas eram diferentes agora, ele estava em abstinência de tudo aquilo até antes daquela noite. Há seis meses, quando resolveu pedir Rodrigo em namoro, Alan sabia exatamente onde estava se metendo. Analisou todas as probabilidades de um relacionamento e aceitou o risco. “Estava realmente apaixonado”.

 

Conhecer um pouco mais de Rodrigo a cada dia era excitante, revigorante. Porém, seis meses depois já não havia tanto mais para descobrir. Não que seus sentimentos por ele estivessem mudando, as coisas só eram um pouco mais monótonas agora.

 

“Droga, eu devia ter dito que estou namorando. Devia ter dito que amo Rodrigo. Devia ter dito que não nos veremos de novo. Eu não posso vê-lo de novo. Por que diabos faria isto?”

 

Alan suspirou, digitando uma mensagem para Rodrigo enquanto subia as escadas do prédio; há meses o elevador não funcionava e Alan se perguntava se um dia se quer funcionou.

 

Quando finalmente pregou os olhos, recebeu uma mensagem de André. Mas, como sempre, já era tarde demais. Ele estava dormindo agora.

 

 

* * *  

 

 

Rodrigo apagou as luzes e, com a bolsa carteiro pendendo do ombro, fechou a porta de vidro da loja de conveniência com a chave. Seu celular vibrou. “À esquerda”, era Karla.

 

Ele sorriu para si mesmo e deixou o celular deslizar para o bolso, tomando o rumo que ela havia indicado. Quando cruzou a primeira esquina, dando para o sutil sol nascente que invadia as ruelas paulistanas, viu Karla pendurada pela janela do carro, acenando enormemente com uma mão e entornando alguns goles da garrafa de uísque com a outra.

 

Rodrigo atravessou a rua rindo e contornou o carro, deslizando para o banco passageiro.

 

– Prefiro nem saber de onde você está vindo – disse ele, jogando a bolsa para o banco de trás e abanando o ar com as mãos, o cheiro de maconha ainda era forte dentro do carro.

 

Karla caiu no banco outra vez e o olhou com um sorriso inexpressivo.

 

– Acho que estou deprimida – confessou, olhando pelo vidro dianteiro para a rua sem movimento.

 

Rodrigo suspirou.

 

– Então pare de beber – ele falou tomando a garrafa das mãos dela. – E me diga o porquê. 

 

– Você sabe o porquê.

 

Rodrigo pendeu a cabeça na lateral e acendeu um cigarro.

 

– Acho que você precisa ser mais cuidadosa da próxima vez – aconselhou-a, baforando a fumaça em direção à janela aberta. Ele se inclinou para pegar o porta-CDs embaixo do banco. Colocou London Grammar e deixou Hey Now tocar tão baixo quanto o som ambiente de uma loja de departamentos.

 

– Você está me exigindo suicídio com essas músicas, não?

 

Ele balançou a cabeça com um sorrisinho.

 

– Pare de ser dramática, você sabe exatamente o que eu penso sobre as atitudes que tomamos. Você sabia onde estava se metendo e, ainda assim, se deixou levar.

 

Karla assentiu, quase constrangida.

 

– Vou levar você para casa – disse, girando a chave na ignição.

 

Rodrigo apoiou a cabeça no encosto e a pendeu contra a porta, analisando as construções inacabadas das ruelas pelas quais passavam. Tudo aquilo soava tão deprimente e caótico, que sintonizava perfeitamente com o clima do inverno mais frio da história das estações.

 

Pelos retrovisores, podia-se ver os raios de sol escapando por entre as brechas das densas nuvens no céu, emolduradas pelo degrade do sol nascente.

 

Exalando a fumaça de outro trago, Rodrigo se lembrou da primeira vez que saíra de carro com Alan.

 

O sinal estava vermelho, tocava Broken Bells no CD Player e Rodrigo estava sentado no passageiro, com o cinto de segurança, remexendo o corpo freneticamente enquanto jogava no celular.

 

Alan pendeu a cabeça para olhá-lo melhor. Só estavam juntos há dois meses e era surpreendente a forma como Rodrigo conseguia ter um brilho diferente a cada dia. A fase lua de mel ainda se estendia entre eles, e as discussões se limitavam entre decidir que filme veriam no cinema e comer pizza ou McDonald’s. Era o tipo básico de discussão entre casal, nada além disso. E tudo se resolvia da melhor forma no fim das contas, quando tomavam cerveja e transavam a noite toda.

 

Alan deslizou a mão pela coxa de Rodrigo, que imediatamente pausou o jogo e ergueu os olhos para ele, dando seu melhor sorriso.

 

– Eu te amo – murmurou Alan melancolicamente. Ainda era estranho para ele admitir isso, mas Rodrigo fizera uma diferença e tanto em sua vida desde que entrara nela. As boates de sexta à noite estavam se tornando maratonas de seriado na cama, com pausas para sexo reconfortante. Da maconha, estava migrando para o cigarro (o que não era melhor nem pior, mas já representava uma diferença). Os solitários domingos de manhã agora tinham companhia e café na cama. As horas vagas de skate na Praça Roosevelt transfiguraram-se em livros de física e química. E o desejo pela juventude eterna, finalmente tinha dado espaço ao “olhar para o futuro”, fazendo com que a rotina de jovem rebelde desse lugar a um emprego fixo decente e horas de estudos para o vestibular.

 

– Não mais que eu – Rodrigo suspirou longamente. Um desejo súbito de ter Alan ainda mais perto o domava neste instante. Ele fechou os olhos e foi envolvido pelos lábios macios do namorado. – O sinal, amor... – sussurrou Rodrigo, entre beijos.

 

Em seis meses, as lembranças pareciam não ter fim.

 

Quando Rodrigo terminou o cigarro e o atirou na rua pela janela do carro, Karla estacionou no meio-fio.

 

– Quer dormir aqui? – ele perguntou, percebendo a moça silenciosa e cansada demais.

 

– Acho que não consigo voltar para casa – ela respondeu, atordoada com a própria embriaguez.

 

– Vamos – Rodrigo deu uma risadinha e pegou a bolsa no banco de trás.

 

2

 

Henrique Carvalho olhou cético para Gabriela.

 

– Você não pode estar falando sério – murmurou com um ar desconfiado.

 

– Minhas suspeitas estão ficando cada vez mais fortes... E acho que o Rodrigo sabe – Gabriela deu um gole no drinque, sentindo-se desconfortável.

 

Henrique soltou o ar pela boca e meneou a cabeça.

 

– Não acho que você possa culpá-lo – ele não queria que Gabriela pensasse mal de Rodrigo. – Se ele realmente sabe e não disse nada, é só porque o segredo não é dele.

 

– Mas ele é meu amigo também – Gabriela pareceu aborrecida com o tom defensivo de Henrique ao falar de Rodrigo.

 

– De qualquer forma – Henrique pegou uma mecha do cabelo e a alisou – acho que é com ela que você deve falar.

 

Gabriela suspirou, talvez Henrique tivesse razão. Depois que a raiva passasse, quem sabe Gabi não se colocasse no lugar de Rodrigo e entendesse por que Henrique o estava defendendo?

 

Caindo a ficha de Gabriela, ela lançou um olhar desconfiado para Henrique.

 

– Você ainda é a fim dele? – a pergunta soou mais como uma acusação.

 

Desconcertado, Henrique negou com um movimento de cabeça e com o olhar de quem foge da verdade.

 

– É claro que não – ele cuspiu as palavras tentando, sem esforço, parecer convincente.

 

– Como eu não percebi isso antes? – Gabriela meneou a cabeça, incrédula consigo mesma – Já faz tanto tempo! – afirmou.

 

Henrique deu de ombros, rendido às desconfianças da amiga.

 

– Eu sei lá... – ele suspirou antes de virar o copo de cerveja. – Acho... – fez uma pausa para engolir o resto da bebida e continuou – que ele ainda vai se decepcionar muito com o Alan. Nunca confiei muito nele.

 

– Vocês parecem bem amigos quando estamos todos juntos – Gabriela observou.

 

– O que eu deveria fazer? – Henrique deu um riso desanimado – Bancar o infantil e odiar o cara o tempo todo?

 

Gabriela deu de ombros, não tinha uma resposta para a pergunta.

 

– Ele é um cara legal – Henrique continuou – Só não acho que seja a pessoa certa para o Rodrigo. Tudo o que ele fez antes de começarem a namorar... – ele balançou a cabeça negativamente – Eu realmente não sei.

 

– Velhos hábitos nunca morrem – Gabriela citou.

 

Henrique concordou.

– Assim são as coisas.

 

* * *

 

Mais tarde, já em casa, depois de um exaustivo dia de trabalhos da faculdade, uma pausa para o happy hour – não tão happy assim – com Gabriela em um pequeno bar de esquina na Lapa (famoso por seus lanches especiais), Henrique finalmente chegou em seu apartamento no Bela Vista.

 

Jogou a mochila no chão e bateu a porta com um chute. Caminhou até a cozinha, pegou uma lata de Coca-Cola e foi para o quarto.

 

– Definitivamente – disse a si mesmo, olhando o retrato em sua escrivaninha, no qual sorria largamente ao lado de Rodrigo – Já faz muito tempo.

 

Henrique suspirou, tirou os sapatos pelos calcanhares e sentou-se na cama com as costas apoiadas na cabeceira, pernas cruzadas e o refrigerante na mão.

 

 

 

Olhando para a longa parede branca à sua frente, Henrique se viu perdido nas lembranças que se tornavam mais e mais distantes, mas que alimentavam aquele sentimento inexplicável por Rodrigo Mendes.

 

Fechando os olhos, Henrique via como em cortes secos de um filme cada sorriso que Rodrigo dava quando era provocado por ele. As situações um pouco constrangedoras em que suas mãos acabavam colidindo, às vezes durante uma música romântica, outras vezes quando estavam sozinhos. A forma sutil como Rodrigo lambia os dedos toda vez que abria uma lata de cerveja, o modo delicado como ele suspirava depois de uma gargalhada frenética.

 

Por muito tempo, Henrique voltou alguns anos na memória, se perguntando de onde aquele sentimento havia nascido para ser capaz de crescer tanto com o passar incessante do tempo.

 

– Só falta um capítulo – Rodrigo colocou os óculos de armações retangulares sobre o nariz outra vez e abriu O Morro dos Ventos Uivantes em suas mãos. 

 

Henrique observou-o enquanto ele se concentrava no enredo. O modo interessado como seus olhos se moviam a cada linha envolvente do romance.

 

Semanas antes, Henrique havia falado sobre aquele livro, indicando-o como uma perfeita distração ou passatempo para o clima caótico do auge do inverno. E agora Rodrigo estava ali, aceitando a dica e tão envolvido com aquela história que parecia estar se preparando para um teste.

 

Eles estavam sentados no banco duplo do metrô que seguia para a estação República, onde conheceriam o possível novo apartamento de Rodrigo. Alguns feixes de luz pairavam no céu por entre as densas nuvens de chuva. Estava escuro lá fora, embora não fossem nem duas horas da tarde.

 

Henrique continuou observando o olhar curioso de Rodrigo. O rapaz ergueu os olhos depois de virar a página, e corou com um sorriso alargando-se timidamente em seus lábios.

 

– Que foi? – perguntou Rodrigo ao fechar o livro outra vez.

 

Henrique parecia tão concentrado nele, quanto ele próprio estava no romance.

 

– Nada – Henrique esboçou seu melhor sorriso, se dando conta, naquele momento, naquele simples instante, que Rodrigo era definitivamente o cara certo para ele.

 

Rodrigo deu de ombros.

 

– Eu termino mais tarde – e tirou os óculos enfiando-os no estojo, depois o jogou na mochila estilo carteiro.

 

Henrique abriu os olhos, dando outra vez para a parede branca de seu quarto, em seu solitário apartamento no sexto andar.

 

Deu um gole na Coca e pendeu a cabeça para trás, pressionando as pálpebras.

 

Era impossível saber o momento exato em que se apaixonara por Rodrigo, uma vez que as coisas entre eles fluíam com tanta naturalidade. Agora parecia tão óbvio... E tudo isso soava tão clichê que chegava a ser patético: o rapaz que se apaixona por seu melhor amigo, o clássico bromance hollywoodiano.

 

Será que no passado recente, antes de Alan, se Henrique tivesse declarado seus verdadeiros sentimentos por Rodrigo, estariam juntos agora? Partilhando a mesma cama todo sábado à noite, durante uma maratona de Os Simpsons?

 

– Acho que nunca vou saber – murmurou Henrique para o vazio ao redor, e se levantou tirando a roupa, precisava de um banho.

 

 

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