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UMA QUESTÃO DE IDENTIDADE

29/3/2018

A literatura consegue expor a cultura de um povo e até mesmo a identidade de uma população. Narrativas discursivas podem desvelar reflexos de um período histórico, expressões de uma época, sejam eles implícitos ou explícitos nos textos.

 

Predominou-se na literatura por muito tempo concepções dominantes de modernidade vinda dos colonizadores definidas por demarcações raciais, étnicas e de fronteiras culturais. Impuseram a imagem de Ocidente como civilizado e a definição do outro como inferior, caracterizando o com estereótipos de atrasado e  selvagem. No texto Desprovincializando a Sociologia - A contribuição pós-colonial, Sérgio Costa comenta sobre a desconstrução dessa oposição de Ocidente com “resto do mundo”:

 

 “Cabe  primeiro mostrar  que  a  polaridade  Rest/West  constrói,  no  plano  discursivo,  e  legítima, no âmbito  político, uma relação

  assimétrica  irreversível  entre  o  Ocidente  e  seu  outro, conferindo  ao  primeiro  um  tipo  de superioridade 

  que  não  é  circunstancial,  histórica e  referida  a  um  campo  específico  –  material,  tecnológico  etc.  (...)

O pós-colonialismo  deve  promover  precisamente  a  desconstrução desses essencialismos, 

diluindo  as  fronteiras  culturais  legadas  tanto  pelo colonialismo  como  pelas  lutas  anticoloniais.”[1]

 

 

Devemos prezar pela transformação social e pelo combate às injustiças como dominações, perseguições e intolerâncias em um contexto que envolva a temática racismo, etnicidade, e gêneros.

 

Um exemplo é a literatura pós-colonial africana que trouxe outra visão diferentemente daquela das literaturas europeias. Existe a busca pela postura própria muito mais fiel ao imaginário africano, a criação de universos até então invisíveis e manifestações de outros conceitos. Também evidencia o preconceito existente na sociedade africana, resquício da visão estereotipada imposta do Oriente.

Arnaldo Santos é um escritor angolano que nasceu em Luanda (1935). Estreou na ficção com o livro de contos chamado Kinaxixe e outras prosas, um deles é o conto A menina Vitória, que revela um pouco do pensamento da sociedade marcada pelo colonialismo.

 

 

 

No conto A menina Vitória, temos a história de um garotinho chamado Gigi, filho do Sr. Sílvio Marques (homem branco) e de D. Angelina (mulata). Na tentativa de distanciá-lo da companhia de criados a família decide transferi-lo para uma escola mais próxima dos ideais dos colonizadores, afastando a criança de sua cultura. Ao chegar no novo ambiente, encontra  a menina Vitória, a professora da 3ª classe. Ela é negra, sempre passa pó-de-arroz no rosto e afaga os cabelos dos meninos loiros da sala. Isso demonstra que ela desejava estar mais próxima e parecida com o universos dos brancos. No decorrer da história, é apresentado também o personagem Matoso, o aluno mais escuro. A professora sempre se referiu a ele com muita depreciação e desprezo, assim sendo, Matoso sentava na última fileira da sala de aula.

 

Gigi ficava muito preocupado em andar com Matoso, queria esconder seu igual passado e fazia de tudo para conquistar a professora, pois tinha medo de que ela ficasse contra ele. Gigi se esforça para manter distância da sua própria identidade cultural e opta por assimilar a identidade de maior prestígio na época.

 

Entretanto, um dia, a classe recebe a tarefa de escrever uma redação, e assim que a menina Vitória lê o texto de Gigi ela fica furiosa por ele ter escrito sobre uma figura importante do governo no texto e o ter tratado  como “tu”. A professora interpreta que dessa forma Gigi o considerava de igual para igual. Seu castigo é a palmatória. O garotinho tem dificuldade em compreender como a professora, semelhante a ele quanto a cor de pele, gostaria de humilhá-lo desse modo, e ao final do conto vemos Gigi na mesma condição de Matoso:

 

 

 

“Depois mal sentiu a violência da palmatória. Só nas faces a queimadura viva da humilhação, só nos ombros a responsabilidade da sua condição,

de que ele não tinha culpa, mas que queria aceitar mesmo dolorosa como as pulsações que lhe ressoavam nas palmas das mãos inchadas. 

E na carteira chorou. Chorou de raiva, da dor que lhe nascia da piedade dos colegas e da vergonha de não poder esconder a sua angústia,

com os olhos secos, enxutos, e orgulhosamente raiados de sangue, como os do Matoso.”[2]


 

A questão da identidade é muito forte no conto. A professora opta por se aproximar do universo dos brancos, ela obtém uma alienação do próprio corpo e reproduz o preconceito dentro da própria sala de aula, maltratando os meninos negros. Enquanto isso, no final da narrativa Gigi  fica no mesmo patamar que Matoso e com a mesma angústia no olhar, não recusa mais a sua identidade e ao mesmo tempo expõe no conto o preconceito vindo do período colonial, o menino Gigi volta a ocupar um lugar inferior que era foi dado aos negros naquela época.

 

Lázaro Ramos escreveu Na minha pele, livro que surgiu pelo desejo de viver num mundo em que a pluralidade cultural, racial, étnica e social seja vista como um valor positivo, e não uma ameaça. Nesta obra a questão da identidade é forte, logo no Prólogo A saga do camarão Lázaro diz o  seguinte:

 

 

“A palavra identidade, que passou a aparecer com cada vez mais frequência, calou fundo em mim.

  Ao mesmo tempo, comecei a ter a clareza de que essa não é uma “questão dos negros”.

É uma questão de qualquer cidadão brasileiro.” [3]

 

 

Na sociedade, o indivíduo atua conforme um padrão de comportamento pelo qual expressa a sua visão. A identidade pessoal é aquela sentida pelo indivíduo e construída por si próprio, aparentemente existe certa liberdade para isso. Entretanto, segundo Goffman nossa identidade (o que o indivíduo pensa de si) sofre intervenção da visão e das definições de outras pessoas.[4]

 

Por exemplo, no conto A menina Vitória, a professora assimila que só terá dignidade e respeito se adotar a linha proposta pelos grupos dominantes, se aderir às suas ideologias. “A busca pela permanência identitária é um fato, mesmo que esta seja mais uma percepção subjetiva ou imaginada do que real”[5].

 

Desconstruir essas polaridades nada mais é do que mostrar que esses termos fazem parte de construções sem correspondência empírica imediata. Contestando estereótipos, desfazendo representações racistas e inserindo representações positivas daqueles que eram considerados inferiores, logo, desconstruir o sistema de representações.

 

 

 

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Notas

 

[1] COSTA, Sérgio. 2006. p.120-121

 

[2] SANTOS, Arnaldo, 1981. p.45

 

[3] RAMOS, Lázaro. Na minha pele. São Paulo: Objetiva. 2017. p. 12-13

 

[4] “Mas, acrescenta Goffman, se a identidade de ego se define como o que o indivíduo deve pensar de sı, ela processa-se e constrói-se pela pressão dos grupos a que o ındivíduo pertence (in-group) e àqueles com quem os últimos interagem (out-group). E conclui que (…) a natureza de um ındivíduo, como ele e nós a ımputamos, é gerada a partır da natureza das suas filiações de grupo” - MENDES, José Manuel Oliveira. O. 2005. p. 511.

 

[5] Ibidem, p. 512.

 

 

Referências bibliográficas

 

COSTA, Sérgio. Desprovincializando a Sociologia - A contribuição pós-colonial. In:   Revista  Brasileira  de  Ciências  Sociais. 2006.

 

MENDES, José Manuel Oliveira. O. O desafio das identidades. In: A globalização e as ciências sociais - Práticas culturais e identitárias. cap 13. 3ª ed. São Paulo: Cortez, 2005.

 

SANTOS, Arnaldo. A menina Vitória. In: Kinaxixe e outras prosas. 2ª ed. São Paulo, Ática, 1981.

 

 

Link imagens

 

https://www.estantevirtual.com.br/livros/arnaldo-santos/kinaxixe-e-outras-prosas/690418184

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Yedda Rossetto

 

Minibio: Apaixonada por literatura, cursando Letras na USP, com muita vontade de escrever e compartilhar leituras!

 

Área: literatura - livros - resenha

 

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