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SEM FINAL FELIZ

28/5/2018

AVISO: Essa é a história de Vitória Guerra, uma prostituta que está a beira da morte e resolve, dentro do hospital aonde se internou, contar sua história em um papel. Então tenha certeza antes de continuar, pois há cenas muito fortes.

 

PARTE 1

Quando eu acordei, estava nessa sala toda branca, com uma janela que dá para um lindo jardim. Por sorte, tinha ainda todos os maços de cigarros guardados. Ao lado da cama, no criado mudo, havia um caderno desconhecido. Fui e peguei. Abri e na primeira página estava escrito: escrever faz bem. Escrever é descobrir a si mesma. Com amor, Charles.

 

Não sei por qual motivo Charles haveria de me dar um caderno. No entanto, na primeira instância, sem dar a mínima para o presente, peguei um cigarro e me escorei na janela. Pensativa. Gosto de cigarros para pensar. Odeio o gosto que eles deixam na boca. Eu sempre preciso chupar uma bala depois, pena que não há balas nesse lugar.

 

Os pensamentos são pesados na minha cabeça, mas aprendi a controlar o nervosismo que eles me causam. Não “externizo” eles. O que é uma verdadeira cilada. Quanto mais eu guardo, mais tendo a aumentar, ou romantizar, ou “paranoizar”. Quanto mais paranóia, mais louca eu fico.  

 

Fico lá, na janela por um tempo, tentando recordar, amenizar minha dor, encontrar saídas. Sinto-me estremecer por dentro. Não me considero uma mulher frágil e nem poderia ser, minha vida anterior jamais permitiria tal coisa. Mas… por estar sozinha, completamente isolada de todos, neste quarto branco, com meus cigarros, sinto, por um instante, que posso pôr pra fora todas essas coisas que tenho guardado aqui dentro. E olha que não são poucas.

Começo a chorar e me surpreendo com isso. E eu sou lá mulher de chorar? Chorar é para dondocas de coração partido e eu jamais fui uma dessas. Oras, quem eu estou enganando? Foi justamente um coração partido que me jogou nessa vida e me deu esse final.

 

Mulher é um bicho estranho sabia? Sangra todo mês e muda de humor a cada instante. Uma hora acha que não pode matar uma mosca, em outra, pode exterminar uma civilização inteira. Complicado.

 

Neste exato instante eu sou capaz de tacar fogo no mundo. Mas não vou fazer isso, o jardim daqui é tão lindo que me traz paz. Mas acho que essa deve ser a intenção do jardim: mostrar o presente e dizer: olha, esse é o seu presente, um jardim cheio de flores que exalam paz. Você não se sente em paz? Meus olhos se enchem de alegria e meu pulmão, se enche de ar. Alegria momentânea, mas ainda assim é.

 

De todo modo, estou plena, afinal, apesar da vida que tive, consegui o suficiente para me alojar no melhor quarto de hospital que meu convênio pode pagar. Isso é o suficiente para eu me sentir completamente rica e, talvez, até completa. Mas como sempre, isso tudo também é momentâneo, daqui a pouco estarei aos migalhos novamente. Eu só queria um bom martini, em uma taça apropriada e com algum enfeite do tipo azeitona ou cereja. É querer demais pedir algo desse tipo em um hospital? Jamais permitiriam, mas… ah… como eu queria.

 

Enquanto eu divagava sobre tudo e sobre nada, meus olhos vire e mexe se voltam para o caderno no criado-mudo. Será que Charles está certo? Será que devo escrever? Faz tanto tempo que eu não faço isso que não sei se conseguiria escrever meu nome. Como sempre, estava enganada. Sou muito bem capaz de escrever, e exorcizar tudo isso dentro de mim, não é a toa que estou escrevendo nele bem agora.

 

Charles esteve aqui ontem e disse que me daria um presente que me libertaria das minhas amarras. Malandra do jeito que sou, pensei logo com muita alegria no coração que ele traria ervas. Há! Até parece. Por mais legal que ele fosse, qualquer enfermeiro que fizesse isso poderia se dar severamente mal, mesmo sendo a Cannabis liberada em casos de doenças, mas eu ainda não cheguei nesse nível de poder usufruir legalmente de tal dádiva. De toda forma, ele estava certo. Poder escrever é uma forma de terapia também. Talvez das boas ou das más, mas só de pensar que não precisarei encarar um psicólogo, já fico feliz. Só tenho receio do que posso desenterrar, pois escrever também é uma forma de lembrar aquilo que se quer esquecer, pois uma coisa leva a outra, que leva a outra e que te joga no olho do furacão. BUM! Uma verdadeira catástrofe para alguém que está a beira da morte. Pois é companheiros, estou a beira da morte. Não tem jeito, não existe nada que se possa fazer, estou na merda e nela vou ficar.

 

Mas é isso, da terra a gente veio e pra gente vai. Fim. Só não queria passar por isso sozinha. Mas é melhor sozinha. Despedidas são sempre as piores, ainda mais quando elas são pra valer. Só não ter absolutamente ninguém para ir no seu enterro é maior definição de solidão possível. Embora eu tenha gasto toooodoooo o meu dinheiro para que eu pudesse ser enterrada em um caixão (oooohhh palavrinha mais chata e desengonçada essa, hein? ca-i-xão, se já não bastasse ter que enterrar alguém, tinha que ser num troço cujo nome é “caixão”. Nefasto) de luxo, com flores de todos os tipos, não haverá uma alma além dos coveiros para ir ao meu enterro. Comprei todos os apetrechos para um show final que ninguém vai assistir. Quer coisa pior?

Não casei, não deixei filhos, minha família me abandonou e meus amigos, jamais foram amigos, na verdade. Não é atoa que estou aqui há quase um mês e nenhum deles vieram me ver. Nem o fulano de tal, esse mesmo, que acabou com o meu coração. Vê se pode.

 

Isso se chama burrice, minha mesmo. Quanto todos se voltam contra você, deve ser que o problema esteja em você e não nos outros. Mas não me julgo uma péssima amiga, na verdade, eu escolhi os errados, escolhi aqueles que preferem tirar vantagem da sua bondade do que dar em troca.

 

Mas é isso, meus companheiros. Estou morrendo e, se esse escritos no caderno se transformarem em uma espécie de livro, ninguém vai gostar, pois o desfecho já foi dito logo no início: a protagonista morrerá e não há nada que se pode fazer a respeito. Quase ninguém gosta de spoiler. Porém, não há como fugir. Um dia, esse caderno poderá ficar com alguma linha incompleta e, quando isso acontecer, certamente morri em paz, pois nem senti. E é assim que eu estou torcendo para que seja. Estou dizendo para o destino de todas as formas possíveis como eu escolho morrer. Afinal, existe livre arbítrio para isso, não é? E eu aprendi a conseguir tudo o que eu quero. E nos 45 minutos do segundo tempo não poderia ser diferente: quero escolher como, quando e onde vou morrer. Por isso vim me internar por conta própria nessa clínica bacanérrima de São Paulo. Pra ficar perfeito, deveria ter um mar nessa visão da janela, mas aí eu teria que ir para longe e minha saúde não permitiria.

 

Para os curiosos, peguei uma doença rara, que tem o nome insoletravel e “infalável” de tão estranho que é, herdado de um médico estrangeiro com pinta de magnata que o descobriu, com certeza. Disseram que é uma mutação do vírus da AIDS e que por isso, não há tratamento. Tudo que é novidade choca as pessoas e elas não sabem como agir, pois bem, está acontecendo comigo. Mas quer saber, dane-se. Já vivi mais do que muitas pessoas, vi coisas que até Deus duvida, posso dizer que vou morrer cheia de histórias para contar para os fantasmas que conhecerei.

 

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