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JARDIM DE FLORES MENTAIS

 

Essa é a história de uma pessoa que fica atormentada com cartas que começa a receber, desencadeando uma série de questionamentos pessoais. Com um final surpreendente.

 

INFORMAÇÃO

 

Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com fatos reais, terá sido mera coincidência. Esta Obra não tem a pretensão de ser científica ou técnica, as informações aqui colocadas, foram utilizadas de acordo com a fantasias do autor.

 Clóvis Camargo Machado

 

Capitulo I

 

          INCONGRUÊNCIAS

 

    Levi estava em um quarto de motel dormindo com uma garota que conhecera naquela noite num bar – Marina era o seu nome – se assustou quando o viu gritando algo, ele estava suado, agitado e antes de acordar quase a machucou com seus gestos bruscos. Em seguida foram embora.

    Nesses últimos tempos esses sonhos nebulosos se repetiam e lhe causavam angústia, porque pareciam ter algum significado.

     Outro dia sonhou com um lugar totalmente vazio onde não havia absolutamente nada, até que viu um vulto que lhe chamava, mas teve medo de ir ao seu encontro, mesmo assim o vulto parecia se aproximar, quando finalmente poderia ver seu rosto, acordou.

 

   Levi deixou Marina em um ponto de táxi, pois ela preferiu assim, na verdade nem insistiu em levá-la para casa, esses relacionamentos banais eram uma constante ultimamente, ascendeu um cigarro para pensar melhor e ficou rodando de carro por algum tempo depois voltou para o seu apartamento.

 

         Ele morava no bairro da Liberdade em São Paulo. Sempre pensou em como era contraditório morar em um bairro com esse nome, nada mais natural do que ser livre ou se sentir assim, não era o caso dele.  Apesar de ser sozinho, sentia que de alguma maneira precisa se libertar de algo, mas não sabia o quê.

             Levi absorveu o oxigênio do ar nos pulmões profundamente, como quem quer respirar melhor, deitou no sofá da sala e ficou bebendo sua vodka habitual, pensando no que precisaria fazer no dia seguinte.

         Um estrondo que veio da rua, o trouxe para o presente. Dirigiu-se a janela para ver o que havia acontecido. Percebeu uma pequena movimentação, alguém perdeu o controle do carro e bateu no poste de luz, dali alguns minutos chegou o Resgate e levou um homem, aparentemente desmaiado, o carro ficou ali mesmo. Uma sensação estranha tomou conta de seu corpo, se sentiu cansado e desgastado. Deitou um pouco para relaxar a mente e repor as energias. Notava uma instabilidade em sua vida, não via significado nas coisas que pensava ou fazia e isso lhe causava um vazio interior.

 

CAPÍTULO II

 

           O CAMPING

 

           Era emenda de feriado e Levi convidou sua amiga Janis para acampar. Esse feriado veio em um momento realmente muito oportuno, sair da sua rotina iria lhe fazer bem.

             Conheceram-se durante um período que trabalharam na mesma Empresa, até que Janis, resolveu abrir um negócio próprio e acabou obtendo sucesso, descobriram esse camping nessa época.

    Os dois sempre acampavam juntos e adoravam aquele lugar, mas há muito não o faziam. Apesar do tempo esperavam encontrar tudo igual, em uma ponta da praia uma cachoeira, na outra, uma nascente com água fresca e cristalina, pronta para se beber, à frente um lindo mar azul.

    Pegou seu material de camping, que adorava e cuidava com o maior carinho e foi para casa de Janis, chegou bem cedo, ainda estava escuro. Deixou seu carro, pois como combinado iriam com o carro dela, era mais confortável e ela iria dirigindo. Ele gostava disso, tinha mais liberdade para aproveitar a viagem. Levi colocou suas coisas no carro de Janis e foram embora.

    Eles sempre paravam num certo ponto estrada para apreciar a paisagem. A primeira vez foi para um descanso, mas depois que descobriram um lugar incrível, virou um ritual que “curtiam” fazer, era como se a viagem começasse a partir dali, seus problemas e preocupações ficavam para trás.

    Estavam com sorte, pois fazia um lindo dia de sol. Pouco antes de chegarem, eles pararam em uma padaria para comprar gelo, algo prático para comer e cervejas geladas.  Já no camping, estacionaram o carro em um lugar onde pudessem sair facilmente, pois dali a dois dias sairiam logo pela manhã. Desceram do carro e pegaram a barraca para montar, queriam ficar livres dessa parte antes de relaxar, também servia para demarcar o seu espaço, haja vista, que naquele lugar com o passar das horas começariam a “pipocar” barracas até nos espaços mais inimagináveis possíveis e eles gostavam de ficar no limite do camping, assim o seu quintal seria a bela vista do mar.

    Após fazerem isso, foram à beira da praia onde puderam pisar naquela areia branca e grossa, o cheiro do mar parecia limpar os seus pulmões, pareciam duas crianças que haviam ganhado um brinquedo novo.

   Levi tirou a camisa e entrou no mar com a bermuda que estava, ficou provocando Janis para entrar também, porém ela quis colocar o maiô, por isso foi para a barraca correndo e quando voltou ai sim tomou um refrescante banho de mar. Levi sentou na areia para observá-la, pode perceber como estava feliz, agia como se fosse um banho de purificação. Quando voltou, Janis sentou-se ao seu lado e ele disse:

  – É engraçado como nós chegamos com a maior adrenalina e aos poucos ficamos com uma lentidão gostosa, as coisas andam devagar por aqui, leva um “tempinho” para se entrar no ritmo, o pior é ter que voltar para o alvoroço da vida urbana.

  – Sabe? Aqui é o único lugar onde eu realmente não penso em nada, coisa tão difícil de fazer no nosso dia-a-dia – disse Janis.

   – Temos que arrumar a barraca, afinal só a montamos. Vamos fazer isso agora? – perguntou Levi.

   – Vai indo você. Quero ficar olhando o mar um pouco mais – reponde Janis.

   Não levaram muita coisa, acampariam apenas dois dias. Levi encheu o colchão de ar, cobriu com lençol e pegou as cadeiras e o isopor que estavam no carro. Janis aparece e começam a conversar:

   – E ai Janis? Vamos beber alguma coisa?

   – Claro! O que vai ser?

   – Que tal uma “cervejinha”?

   – Ótimo, está muito quente e é bom pra relaxar mais.

   Os dois riram.

   Aos poucos foram chegando mais pessoas, alguns conhecidos de outras vezes, com quem sempre combinavam de se encontrar na cidade, só que nunca “rolava”. Era a típica conversa de campista.

   Uma das coisas que gostavam era de deixar o seu espaço no camping o mais bonito possível, para isso pegavam qualquer coisa que pudesse ser útil, tocos de madeira viravam bancos, um caixote deixado por outros campistas se tornava armário para mantimentos ou uma mesa, pegavam bambus que havia em um terreno ao lado para fazer uma cobertura com o plástico que levavam, caso chovesse ou para proteger do sol. Durante todo dia pegavam gravetos, tocos e pedaços de madeira que achavam para fazerem sua fogueira à noite, esperavam ansiosos por esse momento, era a “cereja do bolo”.  

   Ao entardecer, começaram a montar a fogueira, fazendo uma linda estrutura. À noite, antes de ascender, levaram suas cadeiras de praia, colocaram em um lugar estratégico, pegaram suas bebidas e ficaram em volta conversando, olhando aquele céu maravilhoso cheio de estrelas, até podia-se ver estrelas cadentes, e é claro fizeram seus pedidos.

   Conversavam assuntos bobos e leves, Levi até perguntou à Janis:

   – Você já viajou de avião à noite?

   – Já. Por quê?

   – Reparou que não vemos estrelas quando estamos voando?

   – É mesmo, por que será?

   – É porque só olhamos para baixo – disse Levi rindo da sua piada infame, apesar de achar que havia poesia na resposta.

 

   Tudo estava perfeito, um casal de namorados perguntou se podiam ficar ali ao lado da fogueira que eles haviam feito, é claro que eles deixaram e cada vez mais foi chegando gente, um rapaz com seu violão se aproximou e começou a tocar para todos, pediam músicas e cantavam juntos. Divertiam-se muito e ali ficaram por horas, até que resolveram ir dormir.

    Pela manhã, Janis e Levi foram pegar água na nascente para fazer o café no fogão de duas bocas que levaram. Achavam gostoso ficar ali logo cedo bebendo seu café e olhando para o mar. Depois resolveram ir até a cachoeira para tomar seu “banho matinal”. O primeiro a entrar foi Levi que gritou:

   – Tá muito gelaaaaada! Mas tá uma delíííícia!

   Depois foi a vez de Janis, que também gritou:

   – Você tem toda razãããão!

   E riram muito da situação.

   Quando estavam voltando pela praia andando lentamente, Levi disse:

   – Gostaria de morar em um lugar isolado, onde ninguém me conhecesse, sabe sumir?

   – Por quê? Não deve ser fácil viver assim.

   – Estou cansado, as pessoas me cansam, a vida me cansa, gostaria de não ter mais problemas.

   – Mas Levi, além de isso ser impossível, não resolveria nada, quando se tem problemas eles nos acompanham. Gosto de lugares assim, mas não suportaria morar, apesar de tudo sou muito urbana.

   – É! Talvez eu esteja falando bobagens. E ai? Vamos fazer nosso peixe na brasa hoje? Não quero comer sanduiches novamente! – disse Levi para descontrair a conversa.

   – Claro! Vi uns tijolos perto da onde paramos o carro, vai ser nossa churrasqueira improvisada.

   – Legal! Vamos pegá-los antes que alguém tenha a mesma idéia.

    Depois disso, eles procuraram Zeca, um morador local que saia para pescar todos os dias e trazia peixes para o pessoal do camping, era só falar com ele. Fizeram seu pedido e foram colher umas folhas de uma bananeira que havia ali perto da nascente, depois esqueceram, pois ali não se tinha horário. Quando ele voltasse logo o veriam saindo do mar.   

Enquanto isso eles resolveram ir para praia, não podiam desperdiçar aquele dia lindo.

   Algumas horas depois viram o barco de Zeca se aproximando e assim que pegou o peixe, Janis foi limpá-lo na pia coletiva que havia ali no camping, a Levi coube a função de montar a churrasqueira. Ela temperou e embrulhou o peixe na folha de bananeira deixando tudo pronto para a hora que quisessem comer. Voltaram para praia, onde ficaram as cadeiras, o guarda-sol e o isopor com bebidas.

   Outra coisa bacana daquele lugar, era o fato de que, por ser um camping mais isolado, e a maioria das pessoas serem quase sempre as mesmas, ninguém mexia nos pertences dos outros.

   Passaram a conversar sobre as pessoas que ali frequentavam:

   – Você já reparou que aqui tem todo tipo de gente, Janis?

   – É verdade. Têm famílias inteiras, casais de namorados, casais gays...

   – A turma que vem a fim de economizar e deixam suas coisas aqui e vão para outras praias mais badaladas da região...

   – E até o pessoal que só vem para dar uma “viajada”, se é que me entende?

   – Claro que sim Janis – riu Levi.

 

   Quando retornaram, assaram seu peixe e comeram como se fosse à melhor refeição do mundo. Depois limparam tudo para não juntar moscas e borrachudos que era uma das desvantagens de acampar, pois os “bichinhos” eram muito malvados, o repelente às vezes não dava conta.

  Voltaram para praia a fim de apreciar o pôr do sol.

           Antes de escurecer totalmente, resolveram tomar banho para aproveitarem a noite que parecia que seria linda novamente. Essa seria a última noite deles ali e a fogueira seria “patrocinada” por outro grupo.

           Já limpos e perfumados, viram que já haviam ascendido à fogueira. Levi preparou uma bebida mais forte e então se juntaram as pessoas que estavam ao redor dela, era engraçado ouvir as histórias que as pessoas contavam. Ninguém ali tinha a pretensão de ser fiel aos acontecimentos, os exageros eram a pitada divertida de tudo, a palavra liberdade era exercida plenamente naquele lugar. Beberam, conversaram, riram e resolveram andar pela praia, respirando o ar noturno; era mágico e naquele momento o tempo parecia não existir, depois Janis foi deitar. Levi ainda ficou do lado de fora da barraca para um último drink, e também, porque queria ficar um pouco sozinho.

   Logo pela manhã, após terem aproveitado tudo que podiam, resolveram arrumar suas coisas para irem embora, era a parte “chata” da viagem.

   – Nossa Janis! A gente acha que trouxe pouca coisa e só se da conta do contrário na hora de guardar.

   – É mesmo, é porque tiramos do carro aos poucos e no final temos que guardar tudo de uma vez. Vamos arrumar tudo, tomar banho e ir embora. Daqui a pouco as pessoas vão começar a subir a serra, gostaria de pegar a estrada antes disso.

   – É isso ai, vamos “agilizar”.

   Tudo guardado e banho tomado deram uma última olhada para o mar e botaram o pé na estrada.

   Levi voltou dirigindo e no caminho ficaram relembrando tudo que passaram ali naqueles dias e não viam à hora de poderem voltar. Pelo menos por alguns dias eles puderam descansar a mente, havia valido a pena.

        Demoraram menos do que imaginavam no caminho de volta e chegando a casa de Janis, Levi pegou suas coisas, colocou em seu carro, se despediu e foi para sua casa. Estava cansado, porque – No camping você descansa a cabeça, mas o corpo padece – pensava ele.

   Quando entrou em seu apartamento, desabou no sofá, dormiu por horas e acordou assustado com mais um sonho misterioso que teve:

 

   – Ia a nado para uma ilha. O dia estava lindo. Sentiu-se fascinado ao ver tamanha beleza, mas percebeu que o tempo estava mudando, o céu começava a ficar escuro e tinha que voltar. Ficou com medo. No meio do caminho começou a chover. As ondas estavam começando a ficar altas. Não podia entrar em pânico, insistiu, e chegou à praia, foi difícil, mas conseguiu.

 

Interpretou o sonho como dificuldades que iriam surgir, mas pelo final, achou que seria algo superável, pelo menos era assim que esperava.

 

    CAPÍTULO III

 

 

 

      A VIDA DE LEVI

 

 

       Uma semana se passou depois daquela viagem.

    Levi morava em um apartamento pequeno no décimo andar era uma Kitchenette.

   Era simples, não havia muita coisa, logo na entrada uma mesa de madeira onde costumava jogar as correspondências ou coisas que comprava, um sofá-cama, uma poltrona, uma TV que havia comprado em doze vezes e um armário onde ficavam suas roupas e cobertas.

   Ah! Claro, seu notebook. Optou por um por não ter muito espaço em casa. Uma porta separava a sala de uma pequena cozinha; tinha a pia, uma geladeira e fogão, além do armário onde guardava seus utensílios domésticos.

   Existia outra porta na cozinha que dava na lavanderia (que Levi adorava), pois além de ter uma bela vista da cidade, lá ele tinha umas poucas plantas que cuidava com carinho, talvez por isso gostasse tanto daquele lugar. ­­

   Por último um banheiro sem janela. Sempre se perguntou como alguém poderia ter feito aquilo – Justo o banheiro? – pensava ele. Isso lhe incomodava um pouco, principalmente quando recebia visitas em casa.

 

   Era sábado e havia chegado tarde à noite anterior, lembrava só que havia “bebido todas”, mas nem imaginava como conseguiu chegar.

   Ficou com raiva de si mesmo ao acordar com o som daquele despertador insuportável, ainda era cedo, 6h30 da manhã, esqueceu-se de desativar o despertador na sexta, pois sabia que poderia dormir um pouco mais no dia seguinte. Não usava o celular, pois várias vezes havia acabado a bateria e ele acabava se atrasando, dessa forma era mais seguro .

   Apesar de estar com sono, resolveu levantar para beber água. Sua boca estava tão seca, que mal podia respirar. Percebeu que havia dormido de roupa, e até pensou que deveria cuidar melhor da sua saúde, mas logo se lembrou de uma frase que ouviu um dia:

   – Dorme que passa.

  Conseguiu dar um leve sorriso, foi até a cozinha, abriu o armário para pegar o copo e viu uma pequena barata dentro. Há alguns dias haviam dedetizado o prédio e não quis fazer o mesmo no seu apartamento a fim de economizar. Ficou com nojo, mas conseguiu matá-la, lavou o copo e foi pegar água na geladeira.

   Morava sozinho, mas a garrafa d’água estava vazia. Por certo a faxineira que viera no dia anterior, havia bebido e se esqueceu de enchê-la, ela sempre fazia isso. Ficou com raiva, mas sem opção colocou gelo no copo.

   Ao voltar para cama, percebeu que havia uma mensagem na secretária eletrônica, curioso foi ouvir:

 

   – Informamos que não consta em nossos registros o pagamento da fatura da sua conta de telefone. Por favor, regularize a situação para evitar o corte da linha.

 

   – Mais essa agora...? – pensou em voz alta.

   Resolveu voltar a dormir.

   Já era 12h45, quando acordou novamente. Todo sábado era a mesma coisa, não sabia o que fazer. Tinha amigos, mas muitos deles já estavam casados. Aproveitavam o final de semana para ficarem juntos da família.

   Costumava ouvir de algumas pessoas que estavam um pouco cansadas de ter que ir ao supermercado no sábado e aos domingos levar os filhos ao parque, ou senão ao cinema, ver o novo filme da Disney. Todos diziam que ele é que era feliz por não ter compromisso com ninguém.

   Via certa delicadeza nessa relação em família, mas como sempre, só quem está de fora percebe com outros olhos.

   Não era insatisfeito com sua vida, gostava da independência que tinha, mas é lógico que aos 34 anos, às vezes sentia-se só.

   Tentava se divertir. Saía durante a semana, às vezes com amigos, mas na maioria delas sozinho. Já fazia algum tempo que não tinha um relacionamento sério. No ano passado conheceu Bia, era publicitária e tinha uma vida bem ativa, o que na verdade queria dizer que não sobrava muito tempo pra ele.

   Ficaram juntos alguns meses, até que achou melhor terminar. Acha até que facilitou as coisas para ela.

   Mas tinha uma grande amiga – Alice – nunca ficaram juntos, inventaram uma relação diferente, sem compromissos, como se fosse um pacto: quando os dois não estavam namorando, um preenchia o vazio do outro.

 

   Olhou para o relógio e foi fazer café.

   Não gostava de comer logo ao acordar. Tomou café puro e fumou um cigarro. Em seguida reparou que havia um envelope no chão da sala. Abaixou, pegou-o e nesse momento o telefone toca. Levi deixa o envelope sobre a mesa da sala, que estava cheia de papéis e foi atender.

   Era Alice.

 

 

 

 

CAPITULO IV

 

 

 

     O MOMENTO DE ALICE

 

 

       – Oi Alice, tudo bem?!

  – Acabou!

  – O quê?

  – Mais uma vez não deu certo.

  – Entendo. O que foi dessa vez?

  – Como sempre só encontro pessoas imaturas.

  – Talvez você só procure pessoas assim.

  – Pode ser.

  – O que você busca de verdade?

  – A felicidade, ora!

  – Mas afinal o que é felicidade?

  – Às vezes penso que sei, mas não tenho certeza. Ainda estou meio confusa, só liguei para desabafar. Tenho que voltar para o trabalho, a gente se fala depois.

  – Está bem, vamos nos falar pessoalmente, quem sabe hoje à noite?

 

   Naquele momento ficou um pouco triste, porque gostava muito de sua amiga e queria vê-la feliz.

   Levi conhecia Alice há alguns anos. Sempre se deram bem. Ele até se mudou para casa dela por um tempo, precisava economizar para trocar de carro, mas sentia falta de um espaço só seu e assim que guardou algum dinheiro tratou de alugar um apartamento novamente.

   Antes disso, ela já havia se casado, separado, namorado, casado de novo, o que a tornava muito madura para sua idade. Porém, ainda era jovem e não conseguia focar o que buscava em um relacionamento. Talvez por isso os dois conseguissem manter aquela amizade, eram parecidos.

   Ela já havia passado por várias dificuldades. Mas, quando dois anos atrás se viu desempregada, quase pirou, seu aluguel atrasou por meses até conseguir um emprego, mas já está tudo muito melhor agora, principalmente depois que seu namorado foi morar com ela.

  

   Resolveu levar seu carro para lavar, tinha um carro desses populares. Às vezes se sentia culpado por contribuir com o aquecimento global e com o congestionamento dessa cidade maluca, mas afinal era seu único bem, e tinha que usufruir disso.

   Seu carro estava tão sujo, que já tinham escrito aquelas frases no vidro:

  – Lave-me, por favor? – ou então – Meu dono é um porco!

   Enquanto seu carro não ficava pronto, comprou uma cerveja e sentou-se. Ficou divagando sobre a vida, quando de repente pode observar um sequestro relâmpago.

   Dois homens entraram no carro com uma mulher, claro que sabia que aquilo existia, porém nunca havia presenciado. Ficou paralisado, sem saber o que fazer. É claro que não poderia fazer nada, estava longe e os assaltantes armados.

   Os funcionários do posto de gasolina chamaram a polícia, seu carro ficou pronto e saiu dali sem saber como a história terminou. Coisas da vida urbana - pensou ele.

 

   Aquele dia estava estranho, as horas pareciam não querer passar. Sentia-se melancólico e não queria sair à noite novamente. Pensou em reforçar o convite à Alice, ela poderia ir à sua casa após o trabalho para conversarem, e assim o fez.

   Alice chegou por volta das 21h, trouxe consigo uma garrafa de vinho e alguns petiscos. Levi agradeceu, mas preferia vodka. É lógico que ela sabia disso, o vinho era mesmo para ela.

 

   – E ai está melhor? – perguntou Levi.

   – Acho que sim, foi meu relacionamento mais longo, sabe o que é dividir a vida com alguém?! Pois eu sei. Ter que aguentar as manias, mau humor. E ele ainda disse que a culpa foi minha. Você acredita? Eu me doei para essa relação, foi a em que mais investi, e adivinha? Ele voltou pra “ex”, eles já estavam saindo de novo há uns quatro meses, não é um absurdo? Acho que eu não merecia isso, não mesmo. Ainda bem que ele veio para minha casa, se não era capaz de me mandar sair. Aquele canalha!

   – Você não me parece nada calma! – falou Levi com certo tom de humor, achava que assim as coisas ficariam mais leves.

   Foi preparar seu drink e pegou uma taça para Alice beber o vinho, percebeu que aquela noite seria longa, mas achou bom, também precisava conversar.

 

        – Sabe? Sinto que nasci pra ficar casada, ter um bebê, um cachorro. Infelizmente tive que retirar o útero devido às complicações daquele aborto. Acho que os homens que conheço levam isso em consideração. Chega um momento que querem ter um filho, e eu não posso proporcionar isso a eles.  Uma hora isso pesa na relação. Às vezes, nem querem ter um filho, mas acham que ter uma mulher “fértil”, acentua o seu lado de “macho” reprodutor.

 

   Levi completou a taça de Alice com mais vinho, achava que isso a acalmaria.

   Continuaram falando e bebendo até que começaram a ficar relaxados. Ela já não estava mais tão nervosa, e começou a rir da situação.

 

   – Foi bom ter acabado, eu estava virando um bichinho de estimação, fazia tudo que ele queria. De repente volto a ser aquela pessoa mais segura, acho que ele bloqueou isso em mim.

  – Claro é por ai mesmo, ninguém vale nosso sofrimento. Às vezes fico pensando se é realmente bom viver com alguém? Perder a individualidade é quase uma consequência. Vivemos o eterno dilema da mudança e a tendência é sempre colocarmos a culpa na outra pessoa. Mas, se nos modificamos é porque permitimos que isso aconteça – disse Levi.

   – Concordo com você. Só que a gente se dá conta de que isso aconteceu, quando é tarde demais – disse Alice achando tudo aquilo engraçado.

 

      Naquela noite conversaram até as quatro da madrugada. Dormiram no chão da sala e acordaram já na tarde de domingo.

 

 

 

 

 

 

 

    CAPITULO V

 

 

 

      AS CARTAS

 

 

     Levi acordou atrasado. Como sempre desativou o despertador no sábado e esqueceu-se de ativá-lo para segunda-feira.

  Essa cena se repete como tudo em sua vida:

  – Levantou, ligou a cafeteira enquanto tomava banho, tomou café, fumou um cigarro, arrumou-se e saiu para o seu trabalho.

  Quando alguém lhe perguntava o que fazia, sempre tinha uma resposta vaga decorada:

   – Trabalho em um escritório qualquer, numa rua qualquer, fazendo um serviço qualquer.

   E, quando insistiam, ele dizia:

   – Rotina de escritório.

 

   O que acontecia, é que, ele mesmo não sabia explicar o que fazia, eram tantas as coisas, que lhe parecia desnecessário ficar enumerando uma série de situações corriqueiras que em nada iria acrescentar na vida das pessoas, o serviço era importante somente no ato de ser feito, porque era necessário, nada revolucionário ou impactante.

   Gostava do que fazia. Apesar de achar que podia mais. Não era questão de dinheiro e sim de satisfação pessoal. Assim como muitas pessoas, achava que não era devidamente valorizado. Imaginava que as pessoas pensavam assim para não reconhecerem a própria limitação e isso fazia com que se achassem melhor do que eram. Mas o que importava mesmo era manter-se vivo e estava conseguindo sobreviver.

       Em casa, à noite, percebeu um envelope no chão da sala. Lembrou então do outro envelope que havia sido jogado ali no sábado. Procurou, abriu e leu.

 

 – Levi,

Uma situação estranha é você viver ou ouvir algo e ter que guardar para si, não porque aquilo seja um segredo ou algo muito importante e sim, porque sabe que, se contar as pessoas não vão entender, pelo menos não da maneira correta. Ao mesmo tempo sente que precisa falar e procura o ouvinte ideal, mas ele não aparece, ou melhor, não existe! Não que seja uma questão de vida ou morte, um pecado absurdo, ou qualquer outra coisa onde um conselho seria imprescindível. É simplesmente algo seu e pensando bem, talvez não deva ser dito mesmo, as outras pessoas não dariam o mesmo valor.

 

   Não entendeu nada. Abriu a segunda carta:

 

   – Levi,

   Eu não sei, mas muitas coisas me fizeram. E nem sempre consigo agir. Talvez, a solução seja mesmo escrever, que é o que eu tenho feito ultimamente, pelo menos por enquanto.

 

   Continuou sem entender. Quem escreveria cartas tão sem sentindo? Como sabia seu nome? O que pretendia?

   Apesar das perguntas sem respostas, parou para pensar. Teve um momento de reflexão que o levou a se sentir triste. Aquele texto o deixou abalado. Pensou sobre sua própria vida e em tudo que havia feito até então, quantos segredos guardados, emoções perdidas, entre o que era, o que é e o que pretendia ser.

   De certo que o futuro para ele sempre teve algo pessimista. Não tinha filhos e nem queria tê-los. Mas, quem cuidaria dele na sua velhice, então? Por isso, talvez evitasse esse assunto, procurava pensar em algo abstrato, era mais cômodo. Seu último pensamento sobre o assunto foi:

    – Por que alguém escreveria justo para mim? Qual seria o interesse?

   Resolveu não dar importância e esquecer aquela história. Fez seu drink habitual, comeu algo e foi dormir.

   Sua vida continuou do mesmo jeito, o despertador no mesmo horário, sair, chegar, fazer e voltar. Achava bom ter um lugar para voltar. Sua casa era seu lugar seguro, onde ele e seus segredos estavam protegidos.

   No outro dia convidou um amigo do trabalho para tomar um chopp. Começaram a conversar sobre os assuntos da empresa, primeiro falaram mal do chefe, depois do “puxa saco” e por último da secretária com voz irritante. Mas irritante para ele era falar sobre aqueles assuntos. Tinha uma busca maior. Queria saber algo que ele mesmo não sabia dizer. Esses “happy-hours”, não funcionavam muito bem para Levi. Mas pelo menos ocupava seu tempo. Ria, bebia e voltava para casa, para uma nova noite igual a tantas outras.

   Tinha uma grande frustração na vida. Gostaria de ter sido ator.  Até frequentou um curso de teatro, quando mais jovem e todos diziam que tinha talento, principalmente a professora, que era uma atriz famosa na época. Porém ele teve que desistir do curso, sua mãe estava muito doente, e o mais importante era ganhar dinheiro para cuidá-la, se desdobrou trabalhando em dois empregos. Mas até hoje ele pensa que teria sido um grande ator. Com certeza seria, porque sempre foi muito determinado em tudo que fez. Porém seus esforços e dedicação não conseguiram evitar a morte da mãe, que morreu de câncer um ano após ele ter desistido do curso, depois disso também não quis voltar a estudar teatro, algo morreu junto com ela, ficou sozinho, pois não tinha parentes próximos e não havia conhecido seu pai, que abandonou sua mãe após saber que estava grávida dele. Um vivia para o outro, em alguns momentos eram mais amigos do que mãe e filho. Sofreu muito no início. Mas teve que se conformar com a situação e continuar sua vida.

 

   Como fazia todas as manhãs, saiu de casa e pegou o elevador. Naquele dia, encontrou uma pessoa que não conhecia, e cumprimento-a:

   – Bom dia! – disse Levi.

   – Bom dia! – ela respondeu.

   – Acho que é novo no prédio, não?

   – Sim estou aqui há alguns dias.

   Era um rapaz bem apessoado, educado e elegante na sua simplicidade, aquele tipo de pessoa que se destaca por algo que não sabemos ao certo como explicar.

   Seguiu para o trabalho. À noite, após voltar de uma festa na casa de um amigo, só conseguia lembrar-se da confusão que aconteceu. Até achou engraçado, apesar de ser trágico. O amigo ficou com uma garota da festa e a namorada apareceu, essa lhe deu um tapa, ele revidou, teve a turma do “deixa disso”, foi o acontecimento da noite.

   Já estava acostumado com a instabilidade do namoro do amigo. Com certeza, fariam as pazes e tudo acabaria bem, por isso resolveu ir embora.

   Tinha uma visão muito particular da vida, era na verdade melancólico e saudosista de algo que não viveu.

   Começou a sentir que tinha que mudar, mas o quê? Como?

   Nos dias que se sucederam, começou a ficar mais introspectivo, seus colegas de trabalho até estranharam. Não era muito bem humorado, mas aparentava ser feliz. No seu íntimo sabia que não o era. Identificou-se com aquelas cartas e estava ficando ansioso a espera da próxima.

  – Será que haveria outra? – pensava ele.

 

Vários dias se passaram, sem que chegasse uma única carta. Também tinha coisas que não dizia a ninguém, viu naquela situação, a possibilidade de compartilhar um pouco das suas emoções.  

   Sentia que existia algo entre eles, talvez estivessem na mesma sintonia. Ficou curioso em saber mais sobre aquela pessoa.  E ao chegar a sua casa naquela noite, lá estava uma nova carta a sua espera. Tamanha sua ansiedade que quase a rasgou, acalmou-se e começou a ler.

 

    – Levi,

   Estou procurando manter minha sanidade, por isso lhe escrevo. Existe algo dentro de mim que não consigo controlar.   Cada vez mais me vejo preso a mim mesmo, não tenho forças, sinto-me velho e cansado.

 Sai andando por dois dias. Foi ai que me dei conta que não sabia para onde estava indo, como se acabasse de nascer e pudesse ir para qualquer lugar, na verdade estava perdido. Mas não posso voltar para o início. Sei que não sou mais jovem, o retorno parece ridículo nesse momento.

 

   Mais uma vez uma carta enigmática.

   Começou a desconfiar que talvez fosse algum vizinho no prédio querendo rir dele, mas o texto lhe pareceu muito sincero e depressivo.

   Havia ali mesmo, no seu andar, um tipo meio estranho, nunca o cumprimentava quando se encontravam no elevador ou no hall de entrada. Tinha cara de mau e parecia ser solitário como ele. Talvez, fosse à única coisa que tinham em comum. Se bem que Levi ainda recebia algumas visitas eventualmente, mas seu vizinho de andar, esse nunca recebera ninguém. Pensou em conversar na primeira oportunidade, para dar uma sondada e tentar descobrir algo, quem sabe ele tivesse dificuldade para falar com alguém pessoalmente. E foi o que fez no dia seguinte, logo pela manhã. Ficou esperando seu vizinho no hall até ele sair de seu apartamento, depois que entraram no elevador Levi disse:

   – Moramos no mesmo andar faz tempo, e eu nem sei o seu nome, o meu é Levi e o seu?

   – Pra que quer saber?

   – Só curiosidade, você sempre está sozinho, pensei que quisesse conversar às vezes?

 

   Um silêncio se fez, o elevador chegou ao térreo, à porta abriu e isso foi tudo que conseguiu arrancar do seu vizinho misterioso. Não poderia ser ele – pensou Levi.

   E a cada carta que chegava desconfiava de um morador. Pensou no Senhor idoso do quinto andar, que sempre perguntava que dia era hoje, do Médico muito sério e até da mulher do apartamento 73, que acabara de se separar. Com o tempo acabou desistindo de tentar descobrir.

   O conteúdo das cartas era cada vez mais depressivo, e começou a se sentir assim também.

   Sentia vontade de ficar só, não queria ir trabalhar e não foi mais, também não estava disposto a conversar e uma irritação lhe dominava. Passou a não atender mais as ligações, até que sua linha foi cortada por falta de pagamento. Suas dívidas já não pareciam mais lhe incomodar e assim como havia se “esquecido” de pagar a conta de telefone, resolveu se “esquecer” de pagar outras contas também, não lhe importava mais. Começava a se isolar do mundo e a criar um só seu. Sentia-se estranho, não se preocupava mais com sua higiene pessoal, e passara a se alimentar mal. Sua casa estava suja e desarrumada, também havia dispensado a faxineira. Suas plantas estavam morrendo, sua companhia eram as cartas que recebia e as baratas que agora tomavam conta do seu apartamento.

   Mais uma carta chega e Levi já está ficando dependente delas, como se fossem drogas que precisasse usar para se manter “lúcido”, aquilo parecia contraditório, mas as coisas pareciam estar invertidas mesmo, o teto era o chão e vice-versa.

 

    – Levi

   Tenho uma sensação muito ruim, pois mesmo no meio de uma multidão eu ouço vozes que dizem que vão me matar; que vou morrer de uma forma horrível ou coisas assim. É muito ruim, dá vontade de sumir, mas as vozes não somem. Tenho vontade de gritar para não ouvir, mas isso também não funciona.

 

   Estava anestesiado. Totalmente dominado por aquele ser que lhe escrevia. Resolveu responder as cartas, mas não sabia como fazer para que chegassem à pessoa que as enviava. Inventou um nome para ele, pensou em chamá-lo de “Estranho”, parecia algo surreal e escreveu pela primeira vez:

 

    – Não sei quem é, nem o seu nome.

    Resolvi te chamar de “Estranho”, pois é isso que é para mim.

   O meu você já sabe, é Levi.

   Tem me deixado confuso.

   Tenho me isolado de todos, cheguei a pensar que estava ficando louco, e devo estar porque me deixei dominar. Sinto certo fascínio por você, afinal de contas quem é? Por que não vem falar comigo pessoalmente? Espero sempre surpreendê-lo a colocar as cartas por debaixo da porta. Mas nunca te vejo.

Não sei como lhe enviar esta carta. Vou deixar metade para fora da porta, no lugar onde coloca as suas, se pegar da primeira vez, sempre farei isso quando quiser falar contigo.

 

   Aquela altura, Levi só saia de casa para comprar bebida e cigarros. O álcool já tinha afetado seu cérebro, agora crises de depressão eram mais intensas. Delírios constantes, dos quais entrava e saía sozinho, sem ninguém ver ou saber.

Os dias se passaram, e curiosamente a carta foi retirada da forma que ele esperava, sem que Levi conseguisse ver aquela pessoa tão desesperada quanto ele. Foi quando recebeu uma resposta.  

   Quase não podia acreditar no que estava acontecendo e rapidamente começou a ler:

 

    – Levi,

   Minha mão está trêmula, achei que não conseguiria escrever algo hoje. Tenho vontade de partir. A motivação que outrora me fazia existir, me abandonou. Sinto-me como um avião de papel que uma criança lança ao vento. Em meus momentos de lucidez procuro deixar registradas minhas angústias. Ascendo um cigarro e fico vendo a fumaça fazer desenhos no ar, vivo só e só ficarei. Meus dias são contados pelas quantidades de vezes que consigo me manter inteiro, por isso eles passam muito rápido.   Ah! Meu caro amigo. Hoje já não tenho mais mãos, ficaram enrijecidas pelo frio.

 

   Levi de alguma forma sentiu-se feliz, já não era mais só uma pessoa falando de si, havia um diálogo, as conversas ficariam mais intensas, já o considerava seu amigo, trocando experiências e insatisfações sobre suas próprias vidas.

Continua...

 

CAPITULO VI

 

 

 

       A VIAGEM

 

 

   Alice acordou pensando em Levi. Depois daquele dia que esteve em sua casa, não haviam mais se falado. Eram assim mesmo, passavam um bom tempo sem se encontrar, o que dava uma leveza na relação, não havia nenhum tipo de cobrança, mas agora que estava sozinha, sentia uma necessidade maior de conversar com ele.

   Apesar do horário ligou para Levi. Parecia que o telefone estava com defeito e o celular só caia na caixa postal, achou que estivesse no caminho para o trabalho, por isso não se importou, pensou em enviar uma mensagem mais tarde.

   Tomou seu café, e arrumou-se para ir trabalhar.

   Era Residente em um grande hospital. Levou tempo para descobrir sua vocação, mas estava feliz ali, podendo ajudar as pessoas em momentos tão complicados de suas vidas. Sabia como era estar em um hospital. Já tinha sido internada e por isso procurava ser muito atenciosa com as pessoas que ali precisavam estar.

   Já havia trabalhado em várias alas, pode acompanhar pacientes que haviam sofrido queimaduras, acidente de carro, crianças que nasceram com hidrocefalia e presenciar o sofrimento das famílias. Mas, também tinha suas recompensas. Quando um paciente recebia alta hospitalar e vinha lhe agradecer a ajuda e os cuidados por ela dispensados, era uma satisfação que para ela, não tinha preço.

   Atualmente trabalhava com um psiquiatra, e adorava conhecer mais de perto a complexa mente humana.

   Ao chegar a sua casa a noite, tentou novamente falar com Levi, mas nada conseguiu. Eles moravam relativamente longe um do outro, o que impossibilitava visitas mais frequentes. Sabia que era a única pessoa com quem ele se abria totalmente e que não recebia muitas visitas em casa, pelo menos era o que dizia.

   Ligou seu computador e lhe enviou uma mensagem:

    – Levi, como vai?

   Espero que esteja tudo bem, me liga quando puder.

   Beijos,

  Alice.

 

   Após enviar a mensagem foi tomada por uma sensação estranha. Como se algo fosse acontecer. Em seguida o telefone tocou:

   – Oi Alice! Sou eu Janis?

   – Nossa há quanto tempo, como você está?

   – Estou ótima! Queria saber como andam as coisas e marcar algo para fazermos juntas, há tempos não nos encontramos.

   – É verdade Janis, mas eu ando muito ocupada no meu trabalho e não sei se sabe, mas me separei.

   – Nossa! Não sabia Alice! Espero que esteja tudo bem, estou a sua disposição quando tiver um tempinho me liga, para sairmos, poderá me contar os detalhes.

  – Estou precisando me divertir um pouco mesmo Janis, assim que tiver uma chance eu te ligo, para marcarmos algo.

  – A propósito tem notícias do Levi? Liguei pra ele outro dia, mas não consegui falar – pergunta Janis.

  – Já faz algum tempo que não o vejo, tentei falar com ele hoje, e também não consegui.

   Janis responde:

   – Ele é meio esquisitão mesmo, gosta de dar uma sumida de vez em quando, “deixa - quieto”, quando quiser, aparece.

 

   Depois disso Janis, falou algumas bobagens e desligou.

   Elas conheceram-se através de Levi, se tornaram amigas e de vez em quando saiam juntas.

   Depois da ligação, ficou preocupada, mas concordou com Janis, Levi realmente gostava de se isolar de vez em quando.

   Alguns dias se passaram e Levi não entrou em contato com Alice. Durante o trabalho, numa pausa para o café, tentou ligar, mas o celular continuava caindo na caixa postal.

   Quando de repente, foi solicitado que se dirigisse a sala do Dr. Carlos De Assis. Assim o fez.

   – Pois não Dr. Carlos?

   – Alice. Preciso viajar amanhã. Fui convidado para participar de uma Conferência sobre Saúde Mental em Brasília. Foi um convite repentino, pois o Dr. Alberto é que iria, mas teve um imprevisto e não poderá mais ir. Gostaria que você fosse comigo, acho que será uma grande oportunidade de experiência profissional para você, sei da sua vontade de se aprofundar sobre o assunto, por isso não aceito um “não” como resposta, vá para casa e prepare suas coisas, o vôo sai amanhã logo cedo, ficaremos lá alguns dias.

   Alice adorou, porém pensou em Levi, realmente começava a ficar preocupada, mas também era só um pressentimento, é claro que estava bem, isso já havia acontecido antes, já ficaram por tanto tempo sem se falar. Não havia motivo para preocupação. Quando voltasse o procuraria e contaria as novidades. Uma euforia a dominou parecia que sua vida profissional havia tomado um rumo e precisava disso. Demorou tanto uma oportunidade aparecer, que também chegou a ficar desanimada, como se nada fosse dar certo em sua vida. Mas nunca desistiu apesar de achar que tivesse desperdiçado a sua segunda chance.

 

 

 

 

    CAPÍTULO VII

 

 

 

   LEMBRANÇAS

 

 

   Alguém bate à porta do apartamento de Levi, era o porteiro que veio trazer as correspondências que se acumulavam na portaria.

   Levi abriu a porta enrolado a um cobertor. O porteiro com olhar assustado, perguntou se estava tudo bem, pois havia dias que não o via.

   Levi respondeu grosseiramente e fechou a porta do mesmo jeito.

   Não se importava mais com nada, de uma maneira estranha se sentia satisfeito vivendo daquele jeito.

   Parecia gostar de sofrer, como se daquela forma fosse se conhecer melhor, e entrar em contato com seus mais íntimos e obscuros sentimentos. Começou a lembrar do seu passado, como tinha sido a sua vida até aquele dia.

   – Como é difícil entender as pessoas, o que se diz não representa um terço de nossos sentimentos – era o que pensava enquanto bebia sua vodka com gelo, podia-se ver o copo coberto de lágrimas.

   Ninguém tem uma vida fácil, e a dele não seria diferente, suas preocupações eram quase que inconsequentes. Jamais alguém poderia se questionar daquela forma para sobreviver. Tarefa árdua para alguém que tivesse algum interesse em saber.

   Olhou pela a janela. Já era noite e estava chovendo. Noite de chuva e frio o deixava de alguma forma mais sensível. Seu olhar sobre as coisas parecia mais amplo, tudo era muito fútil e fugaz, mas ao mesmo tempo profundo.  O frio da noite e a música que ouvia, o deixava triste e pensativo.  

   Tudo o que queria naquele momento era ter a lembrança de ser livre, porém suas memórias não ajudavam.

   Recordou das histórias que sua mãe contava e de suas dificuldades juvenis.

  Ele quase não nasceu. Sua mãe caiu de um ônibus quando ainda estava grávida. Ainda muito pequeno sofria acidentes normais para uma criança, cortou a testa num desses eventos. Sua mãe sempre disse ficar impressionada com sua frieza. Ao levar os pontos, não chorou e também não chorava com as vacinas que tomava, e no seu primeiro dia de aula, também não chorou. Enfrentava seus medos de forma fria.

    Mas não chorar não significava que não ficava apreensivo ou com medo, talvez sempre o tenha escondido, mas enfrentar a vida dessa forma acabou sendo sua defesa.

    Foi uma criança extremamente tímida, e essa timidez por vezes foi confundida com educação, não se considerava educado e sim diferente, não era como a maioria das crianças, havia nele uma sensibilidade maior.  Quando tinha aproximadamente uns três anos, comia um pão com manteiga na calçada em frente de sua casa, quando um cachorro vira latas lhe roubou. Coisas assim se repetiam em sua vida, vários “pães” lhe foram roubados. Talvez nunca tenha sabido defendê-los.

   Lembrou também de como costumava brincar sozinho, seus brinquedos, eram matinhos, que transformava em super heróis; ou como via um mundo mágico no ralo da banheira, onde tinha curiosidade de entrar, mas nunca teve coragem de ousar sua fantasia.

   Lembranças de ratinhos animados escalando a janela do quarto, o deixava meio confuso, porque no fundo para ele, não era fantasia era realidade.

  Por volta dos treze anos, idade em que a libido começa a aflorar, não conseguia se aproximar de nenhuma menina para namorar. Realmente sua vida amorosa começou mais tarde.

       Mas era bom lembrar, e que bom também seria esquecer.

       A chuva a essa altura já havia cessado. Sentiu-se um pouco mais sozinho, como se alguém o tivesse abandonado. Naquele momento, ela era a sua única companhia, mas partiu. A imagem que ficara, embora melancólica, tinha um encanto de existir, que sublimava seus desejos.

   Pensou nos amigos; sentiu saudades. Mas, às vezes achava que só ele as tinha. Ninguém nunca o procurou. Somente ele é que buscava sentir o prazer do passado. Começou a se perguntar de quais histórias vivia se não teria novas lembranças, novos objetivos?

   Suas mãos nas têmporas além de representar dúvidas e incertezas, serviam para atenuar a dor que sentia em sua cabeça.    

   A certa altura, tentou por um único momento esquecer-se de seus problemas, mas não conseguia, eram como parte integrante do seu corpo e alma.

   Sentia seu coração machucado pelas cinzas que não conseguia transformar em Fênix. Se distraia. A realidade parecia virtual, tentava decifrar seus sonhos que pareciam estar em movimento, ora frenéticos, ora em câmera lenta.

   Teve vários “primeiros amores”. Talvez por nunca tê-los vivenciado, havia uma sensação de arrependimento, como o sabor de uma fruta que nunca provou ou de não ter aceitado aquele doce que queria muito e recusou por educação.

   A luz da noite que passava pela janela de sua alma teimava em iluminar algo que ele não conseguia enxergar.

   Depois de tanto tempo, já não conseguia mais pensar. As palavras estavam quase que pairando pelo ar sem mais fazer sentido. Diante de tamanha confusão mental, achou melhor se entregar ao sono que se abatia sobre ele naquele momento. Já não tinha mais referência de tempo, mas sabia que já fazia muito, muito mesmo desde sua última lembrança de felicidade plena, se é que algum dia existiu.

   Não sabia o que esperar do dia seguinte.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

       CAPÍTULO VIII

 

 

 

   A DOR DE UMA MENTE CONFUSA

 

 

    – Levi,

   Hoje pela manhã acordei um pouco melhor, até um rastro de esperança, fez com que minha alma ainda tentasse lutar por algo, e no final da tarde fiquei olhando o sol se despedir, mas naquele momento, fiquei com a sensação de estar vendo um suicídio, belo e lento, e voltei ao meu estado natural.

   Ainda assim achei bom, porque a noite estava chegando e combina com minhas angústias, sempre gostei dela. Lembro dos meus desejos, daquilo que me dava prazer, da roupa bonita que colocava, do perfume, e de não saber o que poderia acontecer.

   Cada noite era diferente, nunca rejeitei um convite, ia pra qualquer lugar que me chamassem, e sempre era divertido, não sei em qual momento me perdi, não sei por que me perdi, minha vida virou uma eterna busca atrás de mim mesmo. Sempre observei as pessoas e achava engraçado imaginá-las fazendo coisas corriqueiras, era divertido pensar que eu também fazia aquilo, apesar da minha negação.

   Minha ingenuidade se foi. Algumas coisas são irreversíveis, apesar do nosso desejo, tudo continua em movimento.

   Acho que sempre vivi esperando algo:

   – Uma planta florescer,

   – Meu cabelo crescer,

   – O meu dia chegar;

   Talvez, seja como uma semente que virou árvore, mas não deu frutos, o adubo que ninguém colocou fez falta, sozinha fez o que pode por si mesma.

   Criei uma redoma, que me protegeu por muito tempo, só que ela mesma me excluiu, então fiquei perdido e órfão, porque não tinha quem me resguarda-se e eu precisava disso.

   Sonhei sonhos tão loucos e profundos, que cheguei a pensar que eram possíveis. Talvez tenha faltado coragem para acreditar que realmente eram.

   – Quando era jovem não pensava, vivia.

   – Quando encontrei o amor não pensei, vivi.

   – Quando comecei a amadurecer, me preocupei...

   E essa preocupação talvez seja o início do meu delírio.

   Nunca gostei de ser cobrado, principalmente porque ninguém pode dar algo que não tem.

   Tentei ser diferente. Foi horrível, lutei comigo mesmo, aprendi que podemos tentar enganar a nós mesmos, tentar não demonstrar o que sentimos e às vezes conseguimos convencer, mas ficamos tristes.

 

   Que bom era receber mais uma carta, Levi gostava do jeito que seu estranho amigo escrevia. Ficava mais a vontade para falar de si, só sentia falta de uma resposta mais rápida, gostaria de não ter tempo para pensar, de falar de momento e até de se arrepender por ter dito algo que não devia. Naquele instante talvez precisasse de companhia, mas lutou contra a solidão e se conformou com uma “ausência presente” e rápido começou a responder aquela carta sincera que recebeu:

 

   – Caro Estranho,

   Li sua última carta e pensei em mim.

   Você sabia que escolhi um dia da semana para ser livre? Era o dia em que tudo era permitido:

  – Beber e fumar sem culpa, ouvir música alta e “viajar” nos meus desejos.

   E nesses momentos sonhava. Vivia no meu pequeno grande mundo, onde tudo era muito simples, conseguia ser feliz.

   Nesse mundo perfeito, tudo era tão perfeito, que o dia seguinte parecia um pesadelo. Voltava para aquela rotina sem esperança de algo mudar realmente.

 

   Após ter escrito a carta, Levi a colocou no mesmo lugar de sempre, e foi até a geladeira pegar uma dose de vodka. Foi quando notou a garrafa vazia. Ao voltar à sala, percebeu alguém retirando o envelope que colocara embaixo da porta. Correu para tentar descobrir quem o pegou, apesar do esforço para alcançá-lo, o máximo que conseguiu, foi ver um vulto descendo as escadas. Ficou desesperado e com raiva de si mesmo – Por que não foi mais rápido e esperto que seu amigo Estranho?! – infelizmente ainda não tinha sido dessa vez que descobriria seu interlocutor.

  Retornou frustrado para seu apartamento. O que lhe restava naquele momento era beber. Mas estava sem dinheiro em casa, seu vício não o deixava em paz, não podia ficar lúcido; como se isso fosse possível. Colocou uma roupa qualquer e foi tentar comprar sua bebida. Dirigiu-se até o “mercadinho”, que costumava frequentar. As pessoas o conheciam, por isso achou que talvez o deixassem pagar depois.

   Chegando lá foi logo perguntando. Muitos simpáticos os Bolivianos donos do estabelecimento aceitaram sem colocar empecilho. Aproveitou e comprou também um pacote de cigarros. No caminho de volta, foi interrompido por duas senhoras com uma aparência bondosa, mas com um ar autoritário, que buscavam novas ovelhas para o rebanho de Deus, e começaram a pregar a palavra divina. Não sabia exatamente por que parou naquele momento. Na verdade já fazia dias que ninguém  lhe dava atenção, que também já não se importava muito com o que lhe diriam. Estava ali olhando aquelas mulheres e pensou:

   – Será que tinham família? Por que alguém ficaria na rua tentando convencer alguém da existência de Deus? Quantas pessoas as olhavam com pena? Quantas não as achavam “chatas” e perdidas na sua própria religião? E quantas realmente se beneficiavam de suas palavras?

   Era adepto daqueles clichês – Não foi Deus que criou o Homem, o Homem é que criou Deus. Não tinha nenhuma convicção religiosa, se considerava agnóstico, era uma forma indireta de dizer que na verdade não acreditava. Sua personalidade era tão complexa que nem a metafísica era capaz de explicar.

   Quando num determinado momento elas disseram – Jesus irá mudar a sua vida! – Se deu conta do que estava acontecendo, pediu desculpas e foi embora. Continuou a pensar sobre aquilo, seria bom ter fé, sua vida seria mais fácil e tranquila. Mas não podia se forçar a acreditar. Também estava em outra conexão, talvez até Deus estive sendo questionado na cabeça dele naquele momento, mas como muitas pessoas, achava que existia uma energia que rondava o universo, e para ele, era o suficiente, nada que mudasse sua vida.

   Depois daquele pequeno período de racionalidade, ele ficou olhando as pessoas na rua, os prédios, tudo parecia anormal, não era seu mundo, parecia ter atravessado um portal, como se tivesse tendo a oportunidade única de viver em outro espaço, eram seres e construções vindas de outra esfera, tudo parecia deformado e fora de foco. Começou a sentir medo, não via à hora de chegar a sua casa. Começou a andar mais rápido, suava frio, a distância a cada passo parecia maior, achou que fosse desmaiar, quase derrubou o pacote com as garrafas de vodka, as pessoas que o observavam ficaram assustadas, parecia um animal ferido tentando fugir do seu opressor.

   Quando finalmente chegou a sua casa, começou a chorar como uma criança, e assim ficou por um bom tempo, bebeu até perder a consciência, mas naquele momento conseguiu a paz que buscava.

 

Continua...

 

 

       CAPÍTULO IX

 

 

 

   SENTIMENTOS

 

 

   – Levi,

   Ontem fiquei muito decepcionado com você, não esperava aquela atitude, me senti uma “caça” um animal. Pensei que tivesse mais consideração por mim, não devia ter me exposto a uma perseguição barata.

   Chego a pensar em não me corresponder mais. Achei que fôssemos amigos, e que o respeito fosse mutuo. Mas pensei bem e resolvi te dar mais uma chance, pois sei que talvez você não seja mais dono da sua cabeça, e que não queira mais ser responsável pelos seus próprios atos, acredito que isso possa te causar alívio, pois ao que me parece também não gosta de responsabilidades.

 

    Levi responde:

 

   – Meu caro amigo Estranho,

   Não faça isso, preciso de você, posso imaginar a sua decepção, por favor, me desculpe. Acho que o fim está próximo. As palavras que antigamente me ajudavam e protegiam agora se dissipam diante de algo que não conheço, o certo e o errado me parecem ser a mesma coisa. A ansiedade me tornou desastrado, saio estabanado tentando fazer a coisa certa e no final tudo acaba errado. O foco me distrai, minha alma pede calma. Sei que o mágico não existe, nós é que não queremos enxergar a realidade. Sei que a delicadeza é vista como algo simples, ninguém consegue ver a complexidade existente no simples, não quero chocar, só quero ser entendido. Você consegue me entender?

 

   Levi ficou angustiado, apesar de o seu amigo ter dito que o havia perdoado, ainda assim ficou com medo de não mais fazer contato, aquilo não podia acontecer, ele ainda tinha esperança de conhecê-lo pessoalmente um dia. Ficou ali cabisbaixo, esperando, esperando, esperando... Seu apartamento parecia cada dia menor sentia-se espremido, deitou e ficou olhando o teto por horas.   

   Pensou em escrever novamente, mas achava que tinha que esperar uma resposta da sua última carta, quando ela chegou, um alívio lhe cobriu a alma.

 

   – Levi,

   O que passou, passou.

   Afinal o que é nobre?O preço que se paga ou a intenção do gesto? E o que é o gesto? Seria a expressão da alma? E ela, seria nossas emoções, pensamentos e atitudes? Em que prisão nós estamos? Na prisão do olhar que não nos deixa enxergar coisas claras e evidentes? Será que por trás da minha pouca visão, tão pouca essa que nem mesmo eu sabia que não era cego? As idéias vêm em palavras, sentimentos e atitudes, como compor isso tudo?  Quando uma idéia se torna algo real? Temos o domínio ou ela é livre?As interpretações são várias, seria a idéia tão livre, tão sem domínio que ela única se realiza da forma como bem entende? Esse meu mundo inventado, diferentemente do teu não é perfeito, pois me sinto diferente da mesma forma. Ele não me dá as respostas para as perguntas que faço, ele não é colorido, por que um mundo criado por mim, não consegue ser perfeito como deveria ser um mundo criado por si mesmo?

   Desculpe-me Levi, tinha que colocar a minha opinião, meus questionamentos podem parecer insanos, mas é que acho que o desconhecido pode ser inútil, o desconhecido pode te deixar na dúvida, mas também pode ser uma saída. Para quem você dá o que é mais importante para você? Para quem Levi?

 

   Levi sentiu-se diferente, parecia que algo havia mudado, percebeu que seu estranho amigo estava mais agressivo com ele, parecia magoado. Talvez com aquele gesto impensado, Levi acabou quem sabe, estragando a magia que existia entre eles. Naquele momento sabia que tudo seria diferente.

Os questionamentos que seu amigo lhe apresentara eram tão complexos que ainda não tinha conseguido digerir, achava até que não havia entendido muito bem, mas soava como uma ruptura um fim, só não sabia quem daria esse fim ele ou o seu amigo, achava que ele estava em vantagem, pois sabia quem era e onde estava.

   Levi não ficou pensando no que fazer, achava que o tempo era pouco, com suas preocupações aumentadas, resolveu tentar dormir, talvez alguma idéia surgisse.

 

 

   CAPÍTULO X

 

 

 

     O RETORNO

 

 

      – Procuramos aqui demonstrar, o que há de mais moderno e as evoluções necessárias para darmos uma melhor condição de vida às pessoas com transtorno mental. Um modelo de serviço humanizado, para que todos comecem a estabelecer vínculos e fortalecer as amizades.

   Agradecemos a todos que compareceram e juntos vamos tentar colocar em prática tudo o que aqui foi discutido.

   Obrigado.

 

   Foi assim que o último palestrante terminou seu discurso.

 

  – Bom Alice! Acabou. Gostou de ter vindo?

  – Adorei, fico pensando em como podemos fazer mais do que temos feito.

  – É verdade, sempre se pode fazer mais, é só querermos.

  – Então vamos para o Hotel arrumar nossas malas, é hora de voltarmos – disse Dr. Carlos.

 

   Enquanto arrumava sua bagagem, Alice começou a se questionar sobre a vida, e no que era a “Loucura”. Tanto aquela que fazia com que nos arriscássemos mais, a irmos além dos nossos limites, a suportarmos situações difíceis, como aquela que requeriam cuidados especiais. Como essas pessoas, eram frágeis, sensíveis e delicadas, e como se colocavam em situações de risco, às vezes as perdas dos valores morais, as deixavam completamente vulneráveis. Lembrou da pergunta que Levi havia feito – O que era felicidade? Pensou naquele momento, que tudo era simples, estava na poesia de perceber que tudo é efêmero, e achou que era feliz. Não era rica, mas tinha bons amigos, uma família que procurava não preocupar, mas que estava sempre presente de alguma forma e sabia que ainda tinha muito a realizar. Observar o movimento da vida era sabedoria que teria ainda que adquirir, mas estava disposta a aprender.

   Apesar de suas escolhas na vida, algumas certas outras erradas como todo mundo, sempre foi leve e nunca desistiu de nada.  

   Quando mais jovem era mais divertida é fato e sempre tinha algo novo para presentear as pessoas, estava disposta a resgatar isso.

   Já não estava mais triste por ter perdido um amor, pois soube reconhecer que na verdade não o era. Percebeu que seu mundo era maior que aquilo. Pegou suas coisas e foi se encontrar com Dr. Carlos.

   Ele era um tipo diferente, alto, magro e engraçado. A despeito de se sentir um pouco constrangida às vezes, pelo fato de falar alto e gesticular muito, mas era inteligente e ela o admirava.

  Aproveitou a situação para lhe perguntar que conclusão tirava do que foi apresentado naquele Congresso e o que  achava que deveria ser feito para melhorar as condições dos pacientes com algum tipo de transtorno mental?

  – Em minha opinião, o melhor tratamento para as doenças neurológicas e psiquiátricas é aquele realizado com apoio e compreensão dos familiares. Eles também precisam de ajuda, não sabem como agir e sofrem duplamente, por isso temos um papel importante de esclarecermos as pessoas. O convívio com amigos é fundamental, e é claro, acompanhamento médico especializado e frequente. É preciso entender todo o universo que ronda uma pessoa assim, tanto social como psicológico. Para controlar a doença é preciso definir ações que melhorem a qualidade de vida.  Mas principalmente, vencer o preconceito. Os próprios familiares têm dificuldade em admitir que uma pessoa esteja doente. Levando uma demora no atendimento e quando a família percebe o paciente já está muito debilitado. Enfim Alice! É necessário um tratamento multidisciplinar.

   Alice pensou em como era bom ter conhecimento. Que viveria uma vida e não saberia tudo, nesse momento se sentiu privilegiada por ter a possibilidade de aprender, agradeceu a Deus por isso.

   Ao chegarem se despediram ali mesmo no Aeroporto. Alice não pode deixar de agradecer a oportunidade e a excelente companhia. Dr. Carlos disse que acreditava muito nela, e sabia da sua sensibilidade, e que isso era essencial para um bom profissional, tinha que gostar de pessoas e ser dedicada como ela o era.

   Alice se emocionou e disse que esperava nunca decepcioná-lo.   

   Cada um seguiu seu destino.

   Não havia aprendido só algo profissional, realmente se sentia diferente, aquele Congresso foi na verdade uma lição de vida, que ela guardaria para sempre.

   Como ainda tinha dois dias de folga pensou em se divertir, afinal, depois que terminou seu relacionamento, ainda não havia saído, e agora se sentia a vontade para se expor.

   Chegando a sua casa, deitou um pouco para descansar e acabou adormecendo.

   Acordou por volta das 18h, não sabia ao certo onde estava. Quando percebeu sua casa, achou graça. Agora descansada resolveu ligar para Levi, mas pensou melhor e preferiu ligar para Janis, estava com muita vontade de sair e quem sabe conhecer alguém, com Janis a seu lado seria mais fácil, era mais expansiva e fazia amizade facilmente.

   Na verdade seu nome era Janete. Contava sempre a mesma história a todos que perguntavam se seu nome era realmente “Janis”. Ela sempre dizia que não gostava de seu nome, achava que ele tinha um ar muito sério, e como era fã de Janis Joplin resolveu assumir esse nome. E realmente combinava mais com sua personalidade. Era divertida e meio “maluca”, muito jovem na maneira de ser e se vestir. Quem a observava achava que nunca teve problemas na vida. Tinha uma espontaneidade para dizer às coisas que por vezes assustava as pessoas, algumas a achavam mal - educada, mas não era isso, era sincera e autêntica. Não revelava a idade que tinha, mas com certeza tinha mais do que aparentava. Moderna e independente não gostava que ninguém ficasse controlando suas atitudes.

   Morava sozinha, nunca se casou, mas tinha um filho que morava com o pai. Nunca achou que havia nascido para ser mãe, mas amava seu filho, no início foi muito criticada, mas com o tempo todos a compreenderam e acharam que fez a melhor opção. Vivia feliz assim.

   Tinha suas paqueras, só ficava sozinha quando queria talvez a confiança em si mesmo atraísse as pessoas. Possuía dons artísticos, pintava umas telas, e escrevia poemas, tudo para consumo próprio e de algumas poucas pessoas que deixava ler.   

   De vez em quando entrava numa fase esotérica. Até cansar e voltar ao normal de novo. Difícil era encontrá-la em casa, mas Alice resolveu tentar. Conseguiu marcar e sairiam naquela noite.

 

 

 CAPÍTULO XI

 

       SEU CUSTÓDIO

 

 

  Já era início da madrugada quando Levi acordou. Lá fora se podiam ouvir os roncos das máquinas trabalhando para consertar a tubulação de gás. Dirigiu-se até a lavandeira, pensou na vida e em como estava parada sem a menor possibilidade de mudança. Não existia nada que pudesse provocar uma queda maior. Uma tristeza sombria o dominou. Finalmente o silêncio da madrugada se fez ouvir. Acendeu um cigarro e percebeu suas plantas quase mortas ou mortas. Como tinha sucumbido aquela depressão? Por que não tinha forças para sair daquele inferno que virou sua vida? Percebeu que estava como aqueles vasos de plantas, sem cuidados, sem alimento, sem nada. Estava morrendo, precisava de ajuda, mas também não tinha forças para pedir.

   Não tinha medo de morrer, talvez até quisesse isso naquele momento, acabaria com seu sofrimento. Pensou em sua adolescência, como tinha sido tímido e retraído, achava que não aproveitara como as pessoas da sua idade. Provavelmente trouxe isso para sua vida adulta, continuava achando que não estava sabendo fazer as coisas.

   Voltou para sala e ficou olhando fixamente para um quadro que sua amiga Janis havia lhe dado de presente, quando do seu aniversário, sentiu-se questionado por ele. O olhar da figura ali representada parecia observar o fundo de sua alma, sentiu-se despido e invadido. Existia uma cobrança naquele olhar que o incomodava, e num momento de delírio, começou a discutir com ele:

  – Tá olhando o quê? Eu não tenho culpa do que está acontecendo, é muito fácil para você julgar, sentado ai nessa cadeira fumando seu cigarro. Pare de me analisar! Eu não quero isso! Saia daqui vá embora! DEIXE-ME EM PAZ!!!!!

   Pegou aquele quadro e jogou-o com força no chão, estava extremamente irritado.

   Também já estava cansado de receber aquelas cartas se sentia usado, afinal foram elas que detonaram seu processo de putrefação mental. Tinha que resolver aquela situação. Depois de seus últimos contatos com seu amigo percebeu que aquela situação já havia se esgotado, não havia mais sentindo aquilo continuar e resolveu dar um fim naquele caso.

   Então começou a escrever aquela, que segundo ele seria sua última carta.

 

   – Caro Estranho,

   Estou cansado, não quero mais ficar nessa posição, sinto que não tenho mais nada a dizer, ou você se identifica ou encerramos esses diálogos intermináveis.

    Você foi minha companhia, com você me dei conta do vazio de minha vida e fez que tivesse lembranças a muito esquecidas. Já não aguento mais! Sinto que você também está querendo isso, então por que não se apresenta? Vamos resolver tudo pessoalmente preciso esclarecer o porquê de você começar a me escrever, preciso de um fim para essa história.

   Hoje irei fazer um esforço e sairei para andar e pensar.   

  Aguardo uma resposta sua e dependendo dela tomarei algumas atitudes, espero sua posição sobre o assunto.

   Levi.

 

   Estava completamente descontrolado, escreveu com raiva e resignação, uma sensação de que tudo iria ter um fim o dominava. Mas estava disposto a sair, apesar do medo em seu coração. Foi a pé até um caixa eletrônico para retirar o pouco dinheiro que lhe restava e começou a andar sem destino pelo centro antigo da cidade. Caminhou a esmo por um bom tempo, onde pode observar mendigos jogados pelo chão como se não fossem nada, em qualquer lugar que passava havia pessoas usando drogas, bêbados caídos pelo chão e cachorros vira-latas dormindo. Percebeu a pobreza, a miséria humana e que ele estava se sentindo na mesma condição daquelas pessoas sem futuro ou um futuro eterno onde era melhor não pensar nem questionar.

   Quem as ajudaria? Ninguém com certeza. Alguém no meio daquele monte de gente poderia estar morta, que ninguém perceberia. Só que na verdade elas já estavam mortas, e não sabiam. Depois de muito andar, entrou no primeiro bar que encontrou aberto. Uma mulher cantava forró, com sua voz estridente. Antes de beber algo, se dirigiu aquele banheiro fétido e quase vomitou. Pediu algo bem forte para beber e começou a observar mulheres vulgares, homens sujos e bêbados, rindo e se divertindo com uma “bicha” engraçada que imitava “Madonna”.  

   Eram vozes falando tão alto que não se entendia nada do que diziam. O ar estava poluído de tanta fumaça de cigarro, o ambiente cheirava a cerveja derramada pelo chão misturado com o cheiro de banheiro imundo. Uma mulher veio em sua direção querendo oferecer os seus serviços, estava tão alterada, que mesmo que Levi quisesse não conseguiria. Ainda pediu mais duas doses daquela bebida antes de se retirar.

   Saiu dali, sentindo-se mais miserável do que era. Continuou andando por aquelas ruas mal iluminadas, quando foi abordado por dois rapazes. Queriam dinheiro e não satisfeitos bateram em Levi, levaram o pouco que tinha e o deixaram ali, caído no chão, agora sim ele estava igual a todas aquelas pessoas que observara até então, estava no lixo.

   Ficou jogado ali por algum tempo até que um morador de rua, que viu o que aconteceu foi ver sua situação e perguntou:

 – Você está bem?

 

   Levi ainda estava meio tonto, mas respondeu que sim. Começou a conversar enquanto se recuperava da agressão. O morador de rua, disse que era perigoso andar por ali àquela hora. Depois bateu no peito e falou:

   – Pra mim, não! Pois não tenho mais nada a perder. Até a dignidade já me levaram – deu uma gargalhada, como quem já está conformado com a situação.

   Era um senhor velho, em outra situação, talvez Levi não aceitasse nem um aperto de mão, tamanho mau cheiro que exalava. Tinha cabelos compridos e grisalhos, unhas pretas de sujeira e rugas profundas. Porém parecia ser um bom homem, fala mansa e bondosa, ficou curioso e perguntou-lhe o nome – Custódio – disse o velho. Depois, perguntou como era viver na rua daquela forma. Seu Custódio respondeu:

   – Já vivo a muito na rua, não saberia viver em outro lugar.

   – Mas como acabou assim? – perguntou Levi – como se a resposta do velho fosse à solução dos seus problemas.

  – Aqui todo mundo tem uma história triste moço – riu o velho novamente.

 

   Levi parecia confortável com aquela situação, sentiu-se parte daquela vida, afinal poderia ser seu destino acabar como ele.

 

    – Sabe as pessoas se julgam melhor do que a gente, a gente pode até ter mau cheiro de corpo, mas tem muita gente por ai que tem mau cheiro de alma. Eu nada tenho, vivo cada dia, preciso comer pra viver, do resto não tenho falta, quando não se conhece, não se tem saudade.  Como te disse todos tem uma história triste meu filho, se todo mundo quer viver assim eu não sei, mas às vezes o não ter nada, te faz perceber que a gente precisa de muito pouco.

   Deus deu o amor, carinho e dignidade, palavra da bíblia, a gente tem que ter respeito e temeridade, ai tem tudo, as pessoas não nos respeitam muito. Outro dia uns moleques chutaram minha panelinha, me abaixei à cabeça de angústia, não tinha mais a minha panelinha, não tinha mais...

   O velho levantou e saiu andando lentamente, foi repetindo aquela frase, até sumir na escuridão da noite. Tristeza cruel pensou Levi que também levantou e rumou para casa.

   Durante o caminho, a única coisa que ficou foi à sensação de que aquele não seria seu fim, preferiria morrer.

   Depois disso não esqueceu, mas não pensou mais sobre aquela conversa. Era como se tivesse ficado anestesiado. Já estava clareando quando chegou a sua casa. Tirou aquela roupa, e depois de algum tempo sem limpar seu corpo, pensou em tomar banho, mas não teve forças.

   Sabia que aquilo tudo era o início ou um fim de algo, não entendia muito bem. Aquela história estava chegando a uma conclusão, precisava estar preparado para isso.

   Bebeu mais uma dose de vodka e tentou dormir, mas seus pensamentos destrutivos não o deixavam. O que aconteceu, fez com que ele visse que tinha que tomar uma atitude.

   Ficou pensando e o tempo passando.  Após um período longo, o máximo que conseguiu foi cochilar, enfim sua mente teve um pequeno tempo de descanso.

   Quando acordou seu corpo pedia mais repouso, mas sua mente inquieta não permitia. Seus pensamentos estavam cada vez mais frenéticos, eram tantas coisas que passavam em sua mente, que ele tinha a sensação de ver tudo girar. Com um grande esforço levantou, foi direto a porta ver se havia alguma mensagem, nada estava lá. Ficou frustrado, afinal havia escrito antes na intenção de pressioná-lo e parecia que não tinha surtido efeito.

   Estava entediado, cansado de viver aquela vida. Nada mais tinha sentindo, não sabia por que ainda estava ali.

   Naquele momento resolveu acabar com sua vida. Foi até a cozinha pegou uma faca, respirou fundo e olhou tudo o que havia em sua casa, tudo aquilo que conquistou estava ali, suas lembranças, esperanças, sonhos e frustrações, que eram a maioria. Era um adeus. E como era difícil, dizer adeus. Nesse momento com um semblante de pureza infantil, deu uma última olhada para porta, abaixou os olhos, como se aquilo fosse um pedido de ajuda, algo como – Não faça isso! – e ele parou, a faca deslizou pela sua mão como se fosse líquida, a resposta havia chegado.

 

    – Levi,

   Diante da sua última carta, tomei a decisão de ceder a sua vontade. Realmente acho que chegou a hora de nos conhecermos, saberá das minhas reais intenções. Em breve irei visitá-lo. Aguarde, sua curiosidade será sanada.

 

   Levi nem podia imaginar no que estava acontecendo, seria possível encontrar a pessoa que o escrevia?

   Era como ter a resposta para sua própria existência.  Sua excitação tirou da mente aquele pensamento sombrio, que o afetava momentos antes.

  Queria e muito conhecer o tal Estranho.  Sua curiosidade ficou aguçada. Não saberia viver àquelas horas, que seriam intermináveis. O que fazer até então? – Beber! Ficaria bêbado para dormir. E só acordaria na hora de saber.

 

Continua...

 

 

       CAPÍTULO IX

 

 

 

   SENTIMENTOS

 

 

   – Levi,

   Ontem fiquei muito decepcionado com você, não esperava aquela atitude, me senti uma “caça” um animal. Pensei que tivesse mais consideração por mim, não devia ter me exposto a uma perseguição barata.

   Chego a pensar em não me corresponder mais. Achei que fôssemos amigos, e que o respeito fosse mutuo. Mas pensei bem e resolvi te dar mais uma chance, pois sei que talvez você não seja mais dono da sua cabeça, e que não queira mais ser responsável pelos seus próprios atos, acredito que isso possa te causar alívio, pois ao que me parece também não gosta de responsabilidades.

 

    Levi responde:

 

   – Meu caro amigo Estranho,

   Não faça isso, preciso de você, posso imaginar a sua decepção, por favor, me desculpe. Acho que o fim está próximo. As palavras que antigamente me ajudavam e protegiam agora se dissipam diante de algo que não conheço, o certo e o errado me parecem ser a mesma coisa. A ansiedade me tornou desastrado, saio estabanado tentando fazer a coisa certa e no final tudo acaba errado. O foco me distrai, minha alma pede calma. Sei que o mágico não existe, nós é que não queremos enxergar a realidade. Sei que a delicadeza é vista como algo simples, ninguém consegue ver a complexidade existente no simples, não quero chocar, só quero ser entendido. Você consegue me entender?

 

   Levi ficou angustiado, apesar de o seu amigo ter dito que o havia perdoado, ainda assim ficou com medo de não mais fazer contato, aquilo não podia acontecer, ele ainda tinha esperança de conhecê-lo pessoalmente um dia. Ficou ali cabisbaixo, esperando, esperando, esperando... Seu apartamento parecia cada dia menor sentia-se espremido, deitou e ficou olhando o teto por horas.   

   Pensou em escrever novamente, mas achava que tinha que esperar uma resposta da sua última carta, quando ela chegou, um alívio lhe cobriu a alma.

 

   – Levi,

   O que passou, passou.

   Afinal o que é nobre?O preço que se paga ou a intenção do gesto? E o que é o gesto? Seria a expressão da alma? E ela, seria nossas emoções, pensamentos e atitudes? Em que prisão nós estamos? Na prisão do olhar que não nos deixa enxergar coisas claras e evidentes? Será que por trás da minha pouca visão, tão pouca essa que nem mesmo eu sabia que não era cego? As idéias vêm em palavras, sentimentos e atitudes, como compor isso tudo?  Quando uma idéia se torna algo real? Temos o domínio ou ela é livre?As interpretações são várias, seria a idéia tão livre, tão sem domínio que ela única se realiza da forma como bem entende? Esse meu mundo inventado, diferentemente do teu não é perfeito, pois me sinto diferente da mesma forma. Ele não me dá as respostas para as perguntas que faço, ele não é colorido, por que um mundo criado por mim, não consegue ser perfeito como deveria ser um mundo criado por si mesmo?

   Desculpe-me Levi, tinha que colocar a minha opinião, meus questionamentos podem parecer insanos, mas é que acho que o desconhecido pode ser inútil, o desconhecido pode te deixar na dúvida, mas também pode ser uma saída. Para quem você dá o que é mais importante para você? Para quem Levi?

 

   Levi sentiu-se diferente, parecia que algo havia mudado, percebeu que seu estranho amigo estava mais agressivo com ele, parecia magoado. Talvez com aquele gesto impensado, Levi acabou quem sabe, estragando a magia que existia entre eles. Naquele momento sabia que tudo seria diferente.

Os questionamentos que seu amigo lhe apresentara eram tão complexos que ainda não tinha conseguido digerir, achava até que não havia entendido muito bem, mas soava como uma ruptura um fim, só não sabia quem daria esse fim ele ou o seu amigo, achava que ele estava em vantagem, pois sabia quem era e onde estava.

   Levi não ficou pensando no que fazer, achava que o tempo era pouco, com suas preocupações aumentadas, resolveu tentar dormir, talvez alguma idéia surgisse.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   CAPÍTULO X

 

 

 

     O RETORNO

 

 

      – Procuramos aqui demonstrar, o que há de mais moderno e as evoluções necessárias para darmos uma melhor condição de vida às pessoas com transtorno mental. Um modelo de serviço humanizado, para que todos comecem a estabelecer vínculos e fortalecer as amizades.

   Agradecemos a todos que compareceram e juntos vamos tentar colocar em prática tudo o que aqui foi discutido.

   Obrigado.

 

   Foi assim que o último palestrante terminou seu discurso.

 

  – Bom Alice! Acabou. Gostou de ter vindo?

  – Adorei, fico pensando em como podemos fazer mais do que temos feito.

  – É verdade, sempre se pode fazer mais, é só querermos.

  – Então vamos para o Hotel arrumar nossas malas, é hora de voltarmos – disse Dr. Carlos.

 

   Enquanto arrumava sua bagagem, Alice começou a se questionar sobre a vida, e no que era a “Loucura”. Tanto aquela que fazia com que nos arriscássemos mais, a irmos além dos nossos limites, a suportarmos situações difíceis, como aquela que requeriam cuidados especiais. Como essas pessoas, eram frágeis, sensíveis e delicadas, e como se colocavam em situações de risco, às vezes as perdas dos valores morais, as deixavam completamente vulneráveis. Lembrou da pergunta que Levi havia feito – O que era felicidade? Pensou naquele momento, que tudo era simples, estava na poesia de perceber que tudo é efêmero, e achou que era feliz. Não era rica, mas tinha bons amigos, uma família que procurava não preocupar, mas que estava sempre presente de alguma forma e sabia que ainda tinha muito a realizar. Observar o movimento da vida era sabedoria que teria ainda que adquirir, mas estava disposta a aprender.

   Apesar de suas escolhas na vida, algumas certas outras erradas como todo mundo, sempre foi leve e nunca desistiu de nada.  

   Quando mais jovem era mais divertida é fato e sempre tinha algo novo para presentear as pessoas, estava disposta a resgatar isso.

   Já não estava mais triste por ter perdido um amor, pois soube reconhecer que na verdade não o era. Percebeu que seu mundo era maior que aquilo. Pegou suas coisas e foi se encontrar com Dr. Carlos.

   Ele era um tipo diferente, alto, magro e engraçado. A despeito de se sentir um pouco constrangida às vezes, pelo fato de falar alto e gesticular muito, mas era inteligente e ela o admirava.

  Aproveitou a situação para lhe perguntar que conclusão tirava do que foi apresentado naquele Congresso e o que  achava que deveria ser feito para melhorar as condições dos pacientes com algum tipo de transtorno mental?

  – Em minha opinião, o melhor tratamento para as doenças neurológicas e psiquiátricas é aquele realizado com apoio e compreensão dos familiares. Eles também precisam de ajuda, não sabem como agir e sofrem duplamente, por isso temos um papel importante de esclarecermos as pessoas. O convívio com amigos é fundamental, e é claro, acompanhamento médico especializado e frequente. É preciso entender todo o universo que ronda uma pessoa assim, tanto social como psicológico. Para controlar a doença é preciso definir ações que melhorem a qualidade de vida.  Mas principalmente, vencer o preconceito. Os próprios familiares têm dificuldade em admitir que uma pessoa esteja doente. Levando uma demora no atendimento e quando a família percebe o paciente já está muito debilitado. Enfim Alice! É necessário um tratamento multidisciplinar.

   Alice pensou em como era bom ter conhecimento. Que viveria uma vida e não saberia tudo, nesse momento se sentiu privilegiada por ter a possibilidade de aprender, agradeceu a Deus por isso.

   Ao chegarem se despediram ali mesmo no Aeroporto. Alice não pode deixar de agradecer a oportunidade e a excelente companhia. Dr. Carlos disse que acreditava muito nela, e sabia da sua sensibilidade, e que isso era essencial para um bom profissional, tinha que gostar de pessoas e ser dedicada como ela o era.

   Alice se emocionou e disse que esperava nunca decepcioná-lo.   

   Cada um seguiu seu destino.

   Não havia aprendido só algo profissional, realmente se sentia diferente, aquele Congresso foi na verdade uma lição de vida, que ela guardaria para sempre.

   Como ainda tinha dois dias de folga pensou em se divertir, afinal, depois que terminou seu relacionamento, ainda não havia saído, e agora se sentia a vontade para se expor.

   Chegando a sua casa, deitou um pouco para descansar e acabou adormecendo.

   Acordou por volta das 18h, não sabia ao certo onde estava. Quando percebeu sua casa, achou graça. Agora descansada resolveu ligar para Levi, mas pensou melhor e preferiu ligar para Janis, estava com muita vontade de sair e quem sabe conhecer alguém, com Janis a seu lado seria mais fácil, era mais expansiva e fazia amizade facilmente.

   Na verdade seu nome era Janete. Contava sempre a mesma história a todos que perguntavam se seu nome era realmente “Janis”. Ela sempre dizia que não gostava de seu nome, achava que ele tinha um ar muito sério, e como era fã de Janis Joplin resolveu assumir esse nome. E realmente combinava mais com sua personalidade. Era divertida e meio “maluca”, muito jovem na maneira de ser e se vestir. Quem a observava achava que nunca teve problemas na vida. Tinha uma espontaneidade para dizer às coisas que por vezes assustava as pessoas, algumas a achavam mal - educada, mas não era isso, era sincera e autêntica. Não revelava a idade que tinha, mas com certeza tinha mais do que aparentava. Moderna e independente não gostava que ninguém ficasse controlando suas atitudes.

   Morava sozinha, nunca se casou, mas tinha um filho que morava com o pai. Nunca achou que havia nascido para ser mãe, mas amava seu filho, no início foi muito criticada, mas com o tempo todos a compreenderam e acharam que fez a melhor opção. Vivia feliz assim.

   Tinha suas paqueras, só ficava sozinha quando queria talvez a confiança em si mesmo atraísse as pessoas. Possuía dons artísticos, pintava umas telas, e escrevia poemas, tudo para consumo próprio e de algumas poucas pessoas que deixava ler.   

   De vez em quando entrava numa fase esotérica. Até cansar e voltar ao normal de novo. Difícil era encontrá-la em casa, mas Alice resolveu tentar. Conseguiu marcar e sairiam naquela noite.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

      CAPÍTULO XI

 

 

 

       SEU CUSTÓDIO

 

 

  Já era início da madrugada quando Levi acordou. Lá fora se podiam ouvir os roncos das máquinas trabalhando para consertar a tubulação de gás. Dirigiu-se até a lavandeira, pensou na vida e em como estava parada sem a menor possibilidade de mudança. Não existia nada que pudesse provocar uma queda maior. Uma tristeza sombria o dominou. Finalmente o silêncio da madrugada se fez ouvir. Acendeu um cigarro e percebeu suas plantas quase mortas ou mortas. Como tinha sucumbido aquela depressão? Por que não tinha forças para sair daquele inferno que virou sua vida? Percebeu que estava como aqueles vasos de plantas, sem cuidados, sem alimento, sem nada. Estava morrendo, precisava de ajuda, mas também não tinha forças para pedir.

   Não tinha medo de morrer, talvez até quisesse isso naquele momento, acabaria com seu sofrimento. Pensou em sua adolescência, como tinha sido tímido e retraído, achava que não aproveitara como as pessoas da sua idade. Provavelmente trouxe isso para sua vida adulta, continuava achando que não estava sabendo fazer as coisas.

   Voltou para sala e ficou olhando fixamente para um quadro que sua amiga Janis havia lhe dado de presente, quando do seu aniversário, sentiu-se questionado por ele. O olhar da figura ali representada parecia observar o fundo de sua alma, sentiu-se despido e invadido. Existia uma cobrança naquele olhar que o incomodava, e num momento de delírio, começou a discutir com ele:

  – Tá olhando o quê? Eu não tenho culpa do que está acontecendo, é muito fácil para você julgar, sentado ai nessa cadeira fumando seu cigarro. Pare de me analisar! Eu não quero isso! Saia daqui vá embora! DEIXE-ME EM PAZ!!!!!

   Pegou aquele quadro e jogou-o com força no chão, estava extremamente irritado.

   Também já estava cansado de receber aquelas cartas se sentia usado, afinal foram elas que detonaram seu processo de putrefação mental. Tinha que resolver aquela situação. Depois de seus últimos contatos com seu amigo percebeu que aquela situação já havia se esgotado, não havia mais sentindo aquilo continuar e resolveu dar um fim naquele caso.

   Então começou a escrever aquela, que segundo ele seria sua última carta.

 

   – Caro Estranho,

   Estou cansado, não quero mais ficar nessa posição, sinto que não tenho mais nada a dizer, ou você se identifica ou encerramos esses diálogos intermináveis.

    Você foi minha companhia, com você me dei conta do vazio de minha vida e fez que tivesse lembranças a muito esquecidas. Já não aguento mais! Sinto que você também está querendo isso, então por que não se apresenta? Vamos resolver tudo pessoalmente preciso esclarecer o porquê de você começar a me escrever, preciso de um fim para essa história.

   Hoje irei fazer um esforço e sairei para andar e pensar.   

  Aguardo uma resposta sua e dependendo dela tomarei algumas atitudes, espero sua posição sobre o assunto.

   Levi.

 

   Estava completamente descontrolado, escreveu com raiva e resignação, uma sensação de que tudo iria ter um fim o dominava. Mas estava disposto a sair, apesar do medo em seu coração. Foi a pé até um caixa eletrônico para retirar o pouco dinheiro que lhe restava e começou a andar sem destino pelo centro antigo da cidade. Caminhou a esmo por um bom tempo, onde pode observar mendigos jogados pelo chão como se não fossem nada, em qualquer lugar que passava havia pessoas usando drogas, bêbados caídos pelo chão e cachorros vira-latas dormindo. Percebeu a pobreza, a miséria humana e que ele estava se sentindo na mesma condição daquelas pessoas sem futuro ou um futuro eterno onde era melhor não pensar nem questionar.

   Quem as ajudaria? Ninguém com certeza. Alguém no meio daquele monte de gente poderia estar morta, que ninguém perceberia. Só que na verdade elas já estavam mortas, e não sabiam. Depois de muito andar, entrou no primeiro bar que encontrou aberto. Uma mulher cantava forró, com sua voz estridente. Antes de beber algo, se dirigiu aquele banheiro fétido e quase vomitou. Pediu algo bem forte para beber e começou a observar mulheres vulgares, homens sujos e bêbados, rindo e se divertindo com uma “bicha” engraçada que imitava “Madonna”.  

   Eram vozes falando tão alto que não se entendia nada do que diziam. O ar estava poluído de tanta fumaça de cigarro, o ambiente cheirava a cerveja derramada pelo chão misturado com o cheiro de banheiro imundo. Uma mulher veio em sua direção querendo oferecer os seus serviços, estava tão alterada, que mesmo que Levi quisesse não conseguiria. Ainda pediu mais duas doses daquela bebida antes de se retirar.

   Saiu dali, sentindo-se mais miserável do que era. Continuou andando por aquelas ruas mal iluminadas, quando foi abordado por dois rapazes. Queriam dinheiro e não satisfeitos bateram em Levi, levaram o pouco que tinha e o deixaram ali, caído no chão, agora sim ele estava igual a todas aquelas pessoas que observara até então, estava no lixo.

   Ficou jogado ali por algum tempo até que um morador de rua, que viu o que aconteceu foi ver sua situação e perguntou:

 – Você está bem?

 

   Levi ainda estava meio tonto, mas respondeu que sim. Começou a conversar enquanto se recuperava da agressão. O morador de rua, disse que era perigoso andar por ali àquela hora. Depois bateu no peito e falou:

   – Pra mim, não! Pois não tenho mais nada a perder. Até a dignidade já me levaram – deu uma gargalhada, como quem já está conformado com a situação.

   Era um senhor velho, em outra situação, talvez Levi não aceitasse nem um aperto de mão, tamanho mau cheiro que exalava. Tinha cabelos compridos e grisalhos, unhas pretas de sujeira e rugas profundas. Porém parecia ser um bom homem, fala mansa e bondosa, ficou curioso e perguntou-lhe o nome – Custódio – disse o velho. Depois, perguntou como era viver na rua daquela forma. Seu Custódio respondeu:

   – Já vivo a muito na rua, não saberia viver em outro lugar.

   – Mas como acabou assim? – perguntou Levi – como se a resposta do velho fosse à solução dos seus problemas.

  – Aqui todo mundo tem uma história triste moço – riu o velho novamente.

 

   Levi parecia confortável com aquela situação, sentiu-se parte daquela vida, afinal poderia ser seu destino acabar como ele.

 

    – Sabe as pessoas se julgam melhor do que a gente, a gente pode até ter mau cheiro de corpo, mas tem muita gente por ai que tem mau cheiro de alma. Eu nada tenho, vivo cada dia, preciso comer pra viver, do resto não tenho falta, quando não se conhece, não se tem saudade.  Como te disse todos tem uma história triste meu filho, se todo mundo quer viver assim eu não sei, mas às vezes o não ter nada, te faz perceber que a gente precisa de muito pouco.

   Deus deu o amor, carinho e dignidade, palavra da bíblia, a gente tem que ter respeito e temeridade, ai tem tudo, as pessoas não nos respeitam muito. Outro dia uns moleques chutaram minha panelinha, me abaixei à cabeça de angústia, não tinha mais a minha panelinha, não tinha mais...

   O velho levantou e saiu andando lentamente, foi repetindo aquela frase, até sumir na escuridão da noite. Tristeza cruel pensou Levi que também levantou e rumou para casa.

   Durante o caminho, a única coisa que ficou foi à sensação de que aquele não seria seu fim, preferiria morrer.

   Depois disso não esqueceu, mas não pensou mais sobre aquela conversa. Era como se tivesse ficado anestesiado. Já estava clareando quando chegou a sua casa. Tirou aquela roupa, e depois de algum tempo sem limpar seu corpo, pensou em tomar banho, mas não teve forças.

   Sabia que aquilo tudo era o início ou um fim de algo, não entendia muito bem. Aquela história estava chegando a uma conclusão, precisava estar preparado para isso.

   Bebeu mais uma dose de vodka e tentou dormir, mas seus pensamentos destrutivos não o deixavam. O que aconteceu, fez com que ele visse que tinha que tomar uma atitude.

   Ficou pensando e o tempo passando.  Após um período longo, o máximo que conseguiu foi cochilar, enfim sua mente teve um pequeno tempo de descanso.

   Quando acordou seu corpo pedia mais repouso, mas sua mente inquieta não permitia. Seus pensamentos estavam cada vez mais frenéticos, eram tantas coisas que passavam em sua mente, que ele tinha a sensação de ver tudo girar. Com um grande esforço levantou, foi direto a porta ver se havia alguma mensagem, nada estava lá. Ficou frustrado, afinal havia escrito antes na intenção de pressioná-lo e parecia que não tinha surtido efeito.

   Estava entediado, cansado de viver aquela vida. Nada mais tinha sentindo, não sabia por que ainda estava ali.

   Naquele momento resolveu acabar com sua vida. Foi até a cozinha pegou uma faca, respirou fundo e olhou tudo o que havia em sua casa, tudo aquilo que conquistou estava ali, suas lembranças, esperanças, sonhos e frustrações, que eram a maioria. Era um adeus. E como era difícil, dizer adeus. Nesse momento com um semblante de pureza infantil, deu uma última olhada para porta, abaixou os olhos, como se aquilo fosse um pedido de ajuda, algo como – Não faça isso! – e ele parou, a faca deslizou pela sua mão como se fosse líquida, a resposta havia chegado.

 

    – Levi,

   Diante da sua última carta, tomei a decisão de ceder a sua vontade. Realmente acho que chegou a hora de nos conhecermos, saberá das minhas reais intenções. Em breve irei visitá-lo. Aguarde, sua curiosidade será sanada.

 

   Levi nem podia imaginar no que estava acontecendo, seria possível encontrar a pessoa que o escrevia?

   Era como ter a resposta para sua própria existência.  Sua excitação tirou da mente aquele pensamento sombrio, que o afetava momentos antes.

  Queria e muito conhecer o tal Estranho.  Sua curiosidade ficou aguçada. Não saberia viver àquelas horas, que seriam intermináveis. O que fazer até então? – Beber! Ficaria bêbado para dormir. E só acordaria na hora de saber.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

           CAPÍTULO XII

 

 

 

      O QUE JANIS NUNCA DISSE

 

 

     Alice estava pronta para sair, só faltava algo que realçasse seu estado de espírito. Como qualquer mulher vaidosa, deixou por último seu toque de sofisticação. Borrifou seu perfume predileto e naquele momento se sentiu linda, achava incrível como isso mudava sua alma. Um perfume a deixava com a auto-estima ainda mais elevada. Trabalhando tanto, tinha pouco tempo para se sentir mulher.

    Enquanto Janis não chegava, resolveu tomar uma taça de vinho. Foi até a janela e sentiu outro perfume, o da noite.

    Há tempos não ficava tão relaxada e feliz. Estava muito satisfeita com o rumo que sua vida tomou nesses últimos tempos, apesar da frustração de ter sido traída, mas achava que havia superado isso, portanto estava pronta!

   Janis chegou. Alice pegou suas coisas e desceu. Não sabiam muito bem aonde ir, decidiriam no caminho.

  Durante o trajeto Alice contou sobre sua separação, Janis ficou abismada com a situação, ainda assim conseguiu fazer uma piada:

 – Sabe Alice, tudo tem seu lado bom, além de você se livrar de um “traste” que não a amava, agora poderemos sair com mais frequência.

 

   Deram uma gargalhada, e não tocaram mais no assunto.

   As duas eram bonitas e chamaram atenção assim que entraram no bar.

   Janis foi logo falando – Estamos fazendo sucesso! – Alice riu e disse que até estava aberta para conhecer alguém, porém só se fosse naturalmente, não estava desesperada – riu novamente. O que importava mesmo era poder sair um pouco daquele mundo que ela estava nos últimos dias. Que apesar de terem sido muito importantes, estava sentindo falta de relaxar um pouco.

   Era um bar num estilo rústico e moderno ao mesmo tempo, desses da moda, mesas e cadeiras de madeira se misturavam a objetos de design arrojado. Um telão exibia cenas de filmes de sucesso, novos e antigos, o que dava um ar futurista. Os drinks tinham nomes de personagens de filmes, por isso a música que fazia o ambiente, também tinha essa temática, deixando tudo mais envolvente.

   Janis ouviu falar desse lugar e estava curiosa por conhecer. As pessoas eram modernas e bonitas, também tinha uma pequena pista de dança, no piso superior.

   Deixaram suas bolsas na chapelaria e foram conhecer o Bar, quiseram passear pelo ambiente para ver tudo.

   Quando se aproximaram da pista de dança Alice ouviu uma música que adorava, não resistiu e dançou um pouco. Depois escolheram uma mesa e pediram seus drinks. Alice pediu um que se chamava “Mary Jane Watson” e Janis, “Spok”.

 

   Começaram a conversar futilidades, riram bastante, e alguns rapazes até vieram conversar com elas. Um convidou Janis para dançar e o outro ficou ali com Alice conversando.

   Alice sentiu-se desejada, mas parecia que não seria aquela noite que ela arrumaria uma paquera. Janis ao voltar dá uma olhada para Alice e a convida para ir ao banheiro, que era lindo um lugar a parte. Janis comenta que não havia se interessado pelo rapaz, Alice disse o mesmo, e pensaram algo para fazer com que eles se desinteressassem delas e quando voltaram disseram:

   – Vocês sabem que é legal conhecer pessoas diferentes, mas às vezes percebemos certo preconceito, quando vêem que nós duas somos um casal.

   Os rapazes tentaram disfarçar suas caras de espanto, disseram que não tinham problema algum com isso, trocaram mais uma ou duas palavras, disseram que iam pegar uma bebida e sumiram desde então. As duas riram muito depois e conversaram sobre vários assuntos de forma leve e descontraída, Alice estava muito a vontade e disse a Janis:

 

   – Posso te fazer uma pergunta, mas só responda se quiser?

   – É claro Alice! Pode fazê-la.

   – Já nos conhecemos há algum tempo e sempre tive curiosidade de saber como consegue sempre estar bem, nunca está de mau humor, tem sempre uma palavra amiga, enfim nada parece te abalar, qual o teu segredo? Alice deu uma risada para quebrar o clima de pergunta séria.

    Janis respondeu que já havia sido diferente, mas que descobriu que não valia à pena, nesse dia mudou.

       – Sei tão pouco a seu respeito, gostaria de poder ser mais sua amiga, mas sinto que não gosta muito de falar sobre você – disse Alice.

   – Olha Alice. Realmente tem algumas coisas na minha vida que fazem parte do passado e lá procuro deixá-las. Há muito tempo que não falo sobre elas, não são boas lembranças.

   – Eu não quero forçá-la a nada Janis, não quero deixá-la constrangida.

   – Não me constrange Alice, posso falar, mas não aqui, quer ir até a minha casa? Posso preparar algo enquanto conversamos, afinal parece que hoje já não vai acontecer mais nada mesmo.

   Decidiram então ir para casa de Janis. Chegando lá Alice não pode deixar de reparar:

   – Você mudou a decoração! Ficou bem mais aconchegante, está uma graça.

   – Obrigada.  Já faz uns dois meses, que bom que gostou.

   – Vamos até a cozinha, estou pensando em fazer um espaguete o que acha?

   – Para mim está ótimo – disse Alice.

 

   A casa de Janis tinha um clima que acalmava. Tudo muito simples e com sofisticação e a cozinha americana era um espetáculo. Tudo tinha seu lugar e os utensílios pareciam ter sido comprados ontem.

   Janis pegou uma garrafa de vinho e teve a preocupação em escolher as taças mais bonitas que tinha, eram grandes e de um cristal tão fino que só apareciam por conta do vinho que continham e do brilho que possuíam, colocou a água para esquentar foi até a lavanderia onde cultivava alguns temperos e colheu folhas de manjericão e salsa, começaram a conversar enquanto preparava seu espaguete ao pesto.

 

   – Sabe Alice quando me perguntou como eu conseguia estar sempre bem, é porque aprendi que eu tinha duas opções na vida, ou ser revoltada e inconformada com tudo ou eu transformava todos meus sentimentos de amargura em algo positivo, optei pela segunda.

   – Posso perguntar o que aconteceu?

   – Meus pais se separaram quando eu tinha uns seis anos, mas foi uma separação amigável, sem muitos problemas. Minha mãe ainda gostava dele, após alguns meses da separação, soube que ele havia conhecido outra mulher e já estavam namorando.  Isso há deixou um pouco frustrada, pois ainda tinha esperanças de uma reconciliação.

   Estava muito incomodada com a situação e acabou se relacionando com a primeira pessoa que apareceu.

   Não estava muito preocupada com o amor, só queria um pouco de carinho e atenção.

   Mas esse namoro foi ficando mais sério, e esse homem começou a frequentar nossa casa. Sempre foi muito simpático comigo, me levava presentes, e brincava muito, até que um dia minha mãe precisou sair e me deixou sozinha com ele. Foi ai que ele mostrou sua verdadeira face.

   Começou com brincadeiras mais íntimas, e foi me manipulando e dizendo que gostava muito de mim e que tinha uma brincadeira nova para me ensinar. O resto você deve imaginar. Isso durou o tempo do relacionamento deles, cerca de dois anos.

   Nunca tive coragem de contar para ninguém. Lógico que isso me deixou um grande trauma. Durante muito tempo, fiquei com uma sensação de que havia feito algo errado, mas não conseguia entender, me sentia culpada.

   Até os meus dezesseis anos, ainda não havia tido nenhum relacionamento, era muito fechada, foi quando um garoto quis namorar comigo.

   Eu tinha tanto medo que alguém me tocasse, que ele deve ter me achado louca. Sai correndo e chorando compulsivamente, todos ficaram preocupados querendo saber o que aconteceu, mas não conseguia falar, era muito difícil para mim e me sentia insegura.

   Então resolveram me levar até um psicólogo, fui resolvendo meus problemas aos poucos.

   Minha mãe quando soube sentiu-se muito culpada e meu pai ficou arrasado, mas já fazia tanto tempo, que quando falei, já havia entendido que não tive culpa de nada, consegui acalmá-los e tudo ficou bem. Mas demorou. Um belo dia disse:

   - Chega! Não vou ficar sofrendo por mais nada nesse mundo!

   Foi como uma ruptura com o passado. Resolvi recomeçar. Optei por ser feliz, sem me culpar, esquecer mesmo.

   Nesse dia achei que deveria fazer algo marcante, que realmente me fizesse sentir diferente, por isso pedi a todos que me chamassem de “Janis”. Disse que era fã de Janis Joplin, o que não deixa de ser verdade, mas também para disfarçar e foi assim desde então.  A mudança de nome representou uma mudança interna.

   Não tenho problemas para falar sobre isso, mas está enterrado é passado.

 

   Alice ouviu tudo calada, pensou até que havia invadido demais a privacidade de Janis e falou:

   – Estou me sentindo um pouca mal de ter feito você falar sobre isso. Não sei o que dizer. Imagino o que sofreu. Agora tenho mais admiração por você, é muito especial mesmo, não é qualquer pessoa que supera um trauma desses, me desculpe.

   – Ora Alice eu falei porque quis, não fique assim. Como disse é um assunto superado, a partir do momento que contei o que havia acontecido, obtive apoio das pessoas que eram importantes para mim, “exorcizei” e procurei levar isso para todos os problemas que aparecem em minha vida.

    Para tudo tem um jeito, na hora certa ele aparece, e se não aparecer à gente pede ajuda aquelas pessoas que nos amam, alguém sempre terá uma boa idéia.

   É claro que não saio por ai falando sobre isso com qualquer um, e saiba que gosto muito de você, considere isso como um gesto de confiança. Não queria ser mais íntima, então, agora somos confidentes.

 

   Janis pegou nozes, sal, pimenta, azeite e juntou com alho e as ervas, bateu tudo no liquidificador, escorreu a massa e finalizou o prato com queijo parmesão. Depois disse com um largo sorriso:

        – Acho que meu pesto ficou bom, vamos experimentar?

   – Como disse você é realmente muito especial, vou adorar experimentar seu espaguete, mas antes vamos fazer um brinde, que tal à nossa amizade?

   – A ela então – respondeu Janis – Tim-Tim!

 

   E finalmente experimentaram o famoso espaguete ao pesto de Janis. As duas falaram quase juntas:

   – Que delííííícia!

   – Alice, você sabe que fui acampar com o Levi, não sabe? Ele me disse que queria sumir, ir para um lugar onde ninguém o conhecesse, gostaria de se isolar por um tempo. Engraçado, mesmo nos meus momentos mais difíceis eu precisava de companhia, nunca pensei em me isolar. Coloquei meu ponto de vista, mas percebi-o um pouco cansado de conviver com as pessoas, o achei meio triste. Por falar nele, teve notícias?

   – Nossa o Levi? Você sabe que antes da minha viagem, tentei falar por várias vezes, mas não consegui. Achei estranho, não respondeu nem ao e-mail que enviei.

   – A última vez que falei com ele, foi quando voltamos do camping, você sabe não gosto ficar no “pé” de ninguém. Esperei que ele me procurasse, mas percebo você preocupada.

   – Eu não sei direito, sinto que está acontecendo alguma coisa, não sei te explicar o que, é uma intuição. Acho que vou até a casa dele amanhã, pelo menos me sentirei melhor.

   – Olha Alice, acho que sempre devemos ouvir a nossa intuição, se quiser irei com você, o que acha?

   – Não Janis, não precisa. Vou até lá, se estiver tudo bem te ligo, e ainda bato nele por não responder aos meus recados.

 

   Alice deu uma risada nervosa, tentando brincar com a situação, e terminou a conversa com uma última frase em tom bem baixo que quase parecia um pensamento:

  – Assim espero.(ele estar bem)

 

   Aquela noite não tinha sido exatamente como Alice imaginou, mas foi surpreendente, se sentiu verdadeiramente amiga de Janis e isso havia lhe trazido uma experiência de vida enriquecedora.

   Ficou feliz pela sorte de conhecer uma pessoa incrível como ela.

   Ligou para pedir um táxi. Enquanto não chegava beberam uma última taça de vinho. Alice agradeceu pela noite, abraçou Janis e voltou para sua casa.

 

 

  

 

 

 

 

     CAPÍTULO XIII

 

 

 

       O DERRADEIRO

 

 

     Quando Levi acordou não sabia que horas eram. Achou que seu amigo Estranho já pudesse ter passado por ali. Ficou neurótico pensando nisso:

   – Será que não ouvi? Será que ele desistiu? E se ele passou, voltará?

 

   Aquelas perguntas sem repostas o afligiam tanto, e o fato de nada poder fazer, o deixava mais nervoso ainda.

   Ora estava pensativo e distante, às vezes agitado, parecendo um animal enjaulado, sua angústia crescia. Era algo que o deixava frágil, com medo, não sabia o que fazer o ar quase lhe faltava.

   Chegou a dar um grito de desespero, depois chorou. Num determinado momento sentou e ficou olhando para o “nada”, seu olhar estava triste e vazio, o único sentimento que alguém poderia ter por ele naquele momento era pena. Seu semblante caído, quase se arrastava pelo chão.

   Foi quando a campainha tocou. Seu coração disparou, ficou gelado, nesse momento sentiu-se inseguro. Quem estaria do outro lado da porta? Pensou em não abri-la, mas sua curiosidade era maior. Esperou tanto tempo por isso. Era agora!

   Foi até a porta e abriu lentamente. Afinal conheceu a face da pessoa que o escrevia.

   Ele entrou sem nada dizer. Olhou tudo a sua volta, a expressão do seu rosto não demonstrava nenhuma emoção. Levi também não sabia o que dizer.

   Ele em nada lembrava uma pessoa com problemas existenciais ou depressiva, amargurada e sofrida pela vida.

   Foi então que se deu conta que já o conhecia e perguntou:

   – Você não é o rapaz que vi outro dia no elevador? O que acabara de se mudar?

   – Sim sou eu mesmo. Lembra-se de mim?

   – Claro de alguma forma me marcou, mas jamais poderia imaginar que fosse você. Por que não me procurou antes?

   – Ainda não era hora, eu tinha que chegar devagar – disse o Estranho.

   – Mas você parece estar tão bem? Por que escrevia aquelas cartas tão tristes e depressivas?

   – Ora meu caro Levi, por que tanta pressa, não vai me oferecer nada?

   – Claro, me desculpe, espere um momento, por favor.

 

   Levi foi à cozinha e serviu-lhe a única coisa que tinha. O Estranho sentou-se na cadeira, e acabou recusando a vodka que Levi lhe ofereceu e disse:

        – É só o que tem? Quero muito mais que isso – pronunciou aquela frase deixando uma intenção dúbia no ar.

   – Como assim, você está me deixando ainda mais confuso, está me irritando! – falou Levi.

 

   Com furor Levi acendeu um cigarro, assoprou com força aquela fumaça, deu um gole na bebida e disse:

   – Quem você pensa que é?!

 

   O Estranho respondeu prontamente:

   – Levi, Levi... Sei quem é, e também sei o que se passa dentro de você, estava esperando o momento certo para agir.

  – Não estou entendendo, “me conhece, agir”? O QUE ESTÁ QUERENDO DIZER?! – disse Levi aos berros.

 

O Estranho mantinha-se muito calmo e tranquilo, continuava a falar devagar e pausadamente, parecia realmente querer deixar Levi transtornado, era parte de seu plano.

 

  – Você estava infeliz com sua vida Levi, tudo estava sem graça e você não sabia mais porque estava fazendo as coisas. Não possuía objetivos, estava completamente perdido. Guardava muitas dúvidas, estava na hora de acordar. Durante todo esse tempo estava despertando aquilo de mais triste e negativo que estava preso em você.  Fiz isso para o teu bem. Você não quer mais existir, é fraco, não suporta tomar decisões, age de forma compulsiva, não consegue mais viver nesse mundo. Estou aqui para te ajudar.

    – Mas achei que fossemos iguais que estávamos compartilhando dos mesmos sentimentos e angústias? Estou me sentindo traído. Não foi justo o que fez comigo – falou Levi, sua voz estava trêmula.

   – Eu não fiz nada que você não quisesse Levi. Será que ainda não percebeu? Estou aqui para te ajudar a acabar com tudo, conduzi-te até o teu ponto mais frágil. Você pensou em acabar com o teu sofrimento, é isso que vai fazer.  

 

   Seu estranho amigo dirigiu-se até ele, posicionou sua boca bem próxima ao ouvido de Levi e sussurrou lentamente com o ar quente da sua respiração:

   – Um de nós dois, não sairá vivo daqui hoje.

 

 

 

 

 

 

    CAPÍTULO XIV

 

 

 

     O RESGATE

 

     Alice acordou um pouco mais tarde do que o habitual. Tomou um banho e começou a se arrumar para ir até a casa de Levi.

   Antes de sair, tentou ligar pela última vez. Não tinha outro jeito, teria que ir até lá.

   Como não tinha carro, foi até o ponto de ônibus. Era domingo e provavelmente ele iria demorar um pouco mais para passar.

   Antes disso, comprou uma revista para ler no caminho.

   Procurou tirar da mente qualquer pensamento ruim, esperava encontrar Levi bem. Durante a viagem se concentrou apenas na leitura e na paisagem.

   Quando entrou no prédio, o porteiro que a conhecia, logo disse:

   – Olá, Dona Alice, como vai?

   – Tudo bem e o senhor?

   – Do jeito que Deus manda.

   – Sabe me dizer se o Levi está em casa?

   – Olha Dona Alice, eu acho que sim, apesar de fazer um tempo que não o vejo, outro dia o porteiro da noite o viu voltando de madrugada.

   – Por favor, não o avise pelo interfone, quero fazer uma surpresa.

   – Está bem, só faço isso porque é a senhora e sorriu levemente.

   – Obrigada, e até mais;

   – Até Dona Alice.

 

   Alice tocou a campainha, ninguém atendeu, insistiu e nada.

   Num ato involuntário colocou a mão na maçaneta e percebeu que a porta estava aberta, entrou e viu Levi caído no chão da sala. Desesperada tentou reanimá-lo sem nada conseguir. Ligou imediatamente para o hospital onde trabalhava e pediu uma ambulância. Procurou não mexer muito nele enquanto o socorro não chegava. Chamava seu nome a fim de tentar acordá-lo, mas não surtia efeito.

   Quando o socorro finalmente chegou Alice seguiu junto, e na ambulância mesmo, ligou e pediu ajuda ao Dr. Carlos, que prontamente se colocou a disposição. Perguntou-se o que teria acontecido, nem reparou na bagunça e sujeira que havia no apartamento, estava preocupada demais para pensar nisso, a única coisa que lembrou, foi de trancar a porta.

   Chegando lá foram feitos uma série de exames. Dr. Carlos disse que ele estava com uma alta taxa de álcool no corpo, estavam tomando as medidas necessárias nesses casos, ele parecia desnutrido e desidratado, mas que era para ela ficar calma.

    Dr. Carlos perguntou se tinha alguma idéia do porque dele estar assim? Alice disse que não, pois fazia algum tempo que não o via.

   Ficou ao lado do amigo acompanhando tudo, e depois de horas cochilou de cansada.

   Dois dias se passaram desde que Alice resgatou Levi. Foi quando seu celular tocou:

   – Alice? Oi é a Janis, ficou de me ligar para dar notícias do Levi, fiquei preocupada, e aí conseguiu falar com ele?

   – Você nem sabe o que aconteceu, quando cheguei lá Levi estava desmaiado caído no chão da sala, trouxe ele logo para o hospital, me desculpe mais foi tudo tão rápido que acabei não te ligando.

   – O quê?! Estou indo para ai.

   – Está bem, conversaremos melhor pessoalmente.

 

   Quando Janis chegou, viu Alice em pé em frente ao leito de Levi, que ainda estava sedado.

    – O que aconteceu? – perguntou Janis.

    Alice relatou tudo nos mínimos detalhes, Janis ficou chocada com a história e se emocionou.

   Perguntou a Alice se ela tinha alguma idéia do que poderia ter acontecido?

   E Alice respondeu:

   – Depois que Levi estava em segurança, resolvi voltar ao apartamento dele para ver se achava a resposta a essa pergunta. Seu apartamento estava uma bagunça e muito sujo. Suas plantas estavam mortas. Havia muitas garrafas de bebida vazias, muitas pontas de cigarros espalhadas pelo chão e baratas por todo canto, um nojo. Comecei a vasculhar e vi um monte de cartas em cima da mesa, era curioso, pois o que me pareceu foi que a única preocupação que ele tinha, era com elas. Um único monte e estava em ordem, da primeira para última. Comecei a ler, era curioso, pois no início parecia ser uma pessoa falando sobre seus problemas existenciais, e aparentava mesmo estar em depressão ou em um processo de esquizofrenia, era alguém escrevendo para o Levi. No decorrer da leitura, Levi começa a responder essas tais cartas.

 

   – Nossa! Que coisa estranha – disse Janis.

   – Mas preste atenção ainda não terminou. A última carta dessa pilha, dizia que o tal Estranho que o escrevia iria encontrá-lo e Levi estava esperando por ele.

   – Então foi esse Estranho que fez isso com o Levi?

   – De certa forma sim, o que você não imagina, é que depois que eu li percebi algo.

   – O quê?

   – O papel e a letra das mensagens que o Estranho enviava, eram iguais ao papel e a letra de Levi.

   – Não estou entendo Alice seja mais clara, me explique de forma simples.

   – O tal estranho era o próprio Levi. Ele escrevia e respondia as próprias cartas.

   – Mas como isso é possível Alice, você deve estar brincando?!

   – Não, eu também fiquei assustada e contei tudo ao Dr. Carlos, e ele disse que Levi deveria estar muito depressivo e teve uma espécie de alucinação ou uma psicose deflagrada pelo uso excessivo de bebidas alcoólicas, estava imaginando tudo, mas para ele era real. 

   – Mas como isso aconteceu? Como não percebemos que Levi estava passando por isso?

   – Antes que pudéssemos perceber ele se isolou, e como nós sempre mantivemos respeito pela individualidade de cada um, acabamos negligenciando nosso amigo, mas não temos que nos sentir culpadas, talvez os sinais estivessem ali e nós é que não soubemos interpretar. Está sendo mantido sedado, para que sua mente possa repousar, foi um turbilhão de coisas que ele passou nesses últimos tempos.

   – Nem sei o que dizer, eu posso ajudar em algo Alice?

   – No momento vamos mantê-lo assim, quando acordar é que saberemos como ele está realmente.

   – Se precisar de algo, me avise, sabe que pode contar comigo.

   – Pode deixar te manterei informada.

   – Você também é uma pessoa especial, Alice, uma boa amiga.   

   E Janis foi embora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    CAPÍTULO XV

 

 

 

      A RESPOSTA

 

 

     Levi foi mantido naquele estado por alguns dias.

   Até que finalmente os médicos resolveram ir tirando a medicação, para que ele voltasse ao mundo novamente.

   Quando começou a acordar, a enfermeira que o assistia no momento, correu para avisar Alice. Ela veio de imediato. Queria estar ao lado do amigo quando acordasse totalmente. Desejava que quando abrisse os olhos, tivesse alguém conhecido ao seu lado.

   Levi ainda meio sonolento começou a olhar tudo a sua volta, sua vista estava meio embaçada, percebeu que estava em um quarto branco e frio, persianas cobriam a janela, um armário de ferro a sua frente e por fim viu uma sonda que continha soro ligada a seu corpo. Olhou para Alice, mas não reconheceu de imediato, perguntou onde estava e o que havia acontecido? Alice respondeu:

   – Como está Levi, sou eu, Alice, lembra de mim? Não se preocupe com nada agora, o importante é que estamos cuidando de você, saberá de tudo quando chegar à hora, fique tranquilo, agora você está bem.

 

   Levi ficou observando Alice e forçando sua memória na tentativa de lembrar algo. Quando finalmente a reconheceu se sentiu melhor e seguro. Apertou sua mão e pediu a ela que ficasse ao seu lado. Ela atendeu e ele ficou calado ali tentando se acalmar.

    Aos poucos Levi, foi melhorando, dizia que não se lembrava de muita coisa, mas ficou feliz pela ajuda que recebeu de Alice.

   Ela e o Doutor Carlos estavam contando tudo aos poucos, para que Levi se acostumasse com a situação. Ainda não haviam contado nada sobre as cartas e como ele chegou aquele estado.

   Estavam tentando preservá-lo. Era claro que ele precisaria de um acompanhamento psiquiátrico, e o Doutor Carlos saberia conduzir a situação da melhor forma possível.

   Para a surpresa de todos, nos dias que passaram, Levi reagiu muito bem a tudo aquilo que lhe contaram, apesar de não imaginar que era possível ter chegado àquela situação. Aceitou ao tratamento com facilidade, coisa rara, pois normalmente os pacientes relutam muito, e tudo é feito com muita dificuldade e esforço e isso não aconteceu com Levi. Afinal queria se recuperar logo, e com o apoio de Alice, já estava se sentindo melhor.

   Dr. Carlos achou surpreendente sua melhora em tão pouco tempo. Mas para ter certeza, preferiu mantê-lo internado por mais alguns dias.

   Uma enfermeira acompanhou Levi até a sala de recreação que também funcionava como Centro de Reabilitação Psicossocial.

   Durante o trajeto ele pode observar aqueles corredores intermináveis, que somente com um mapa seria possível conseguir chegar ao seu objetivo. Aquele cheiro de remédios pelo ar o deixava enjoado, para ele as pessoas que trabalhavam ali eram todas iguais, aqueles uniformes faziam com que elas perdessem sua individualidade. Pessoas em cadeira de rodas, outras carregando suportes com soro enquanto andavam e algumas sendo levadas em macas, para cá e para lá, tornava o ambiente tenso e triste, e ele não via à hora de sair dali.

   Começava a ficar angustiado. Toda tarde ele se reunia com outros pacientes, naquela sala do hospital. Ali se podia observar o comportamento de várias pessoas com algum tipo de transtorno. O que chamava atenção era como esses pacientes eram tratados. Todos com muita dignidade e respeito. Nesse hospital só trabalhavam pessoas que realmente tinham vocação para cuidar de outras pessoas.

   Foi com a ajuda do Dr. Carlos, que aquele espaço foi elaborado, de uma forma, a dar as melhores condições para que as pessoas pudessem se restabelecer. Também era onde eles recebiam visitas de amigos e parentes, que ficavam impressionados com o tratamento dado aos seus entes queridos.

   Ao contrário do resto do hospital, possuía cores que foram estudadas para deixar os pacientes mais tranquilos além de terem oportunidade para conversar, ler, e ainda podiam contar com profissionais de várias áreas como Fisioterapia, Educação Física e Terapia Ocupacional, tudo no sentido de reinserção e Reabilitação Psicossocial.

   Levi estava sentado em um sofá, isolado no canto, quando pensou em escrever. Foi ao encontro da enfermeira que monitorava a todos no momento, e pediu para ela, se podia lhe emprestar uma caneta, papel e um envelope.

   Ela pediu desculpas e disse que não era permitido aos pacientes terem acesso a esse tipo material.

   Levi insistiu, e solicitou a ela que pedisse permissão ao Dr. Carlos.

   – Conversarei com ele, mas tenho quase certeza que não vai autorizar. Vou ver se ele está disponível no momento aguarde um instante.

  – Tudo bem – respondeu Levi.

 

   A enfermeira entrou em contato com o Dr. Carlos e contou sobre o pedido de Levi, ele após pensar um pouco, resolveu autorizar, porém colocou duas condições – Levi teria que ficar o mais isolado possível dos outros pacientes e ficar sobre o olhar de um enfermeiro.

 – Isso é para a própria segurança dele e dos demais pacientes – disse Dr. Carlos. Acho que não haverá problema nenhum, pois é nítida sua melhora, mas enquanto estiver sobre nossa responsabilidade, temos que tomar todo cuidado possível.

 

   E assim, a enfermeira providenciou o material solicitado e fez tudo como o doutor havia recomendado. Explicou as condições a Levi e perguntou se concordava. Ele não gostou muito, não passava pela cabeça dele atacar alguém ou a si mesmo, mas queria escrever e concordou.

   Pôs-se então a escrever. Ao terminar dobrou a carta e a colocou dentro do envelope e endereçou. Pediu com gentileza que a enfermeira colocasse a carta no correio para ele. Ela hesitou, mas não viu problema algum em atender ao pedido.

 

   Quando soube que Levi teria alta, dali a três dias, Alice ficou radiante. Pensou em contratar uma diarista para limpar e arrumar a casa dele. Depois de tanto tempo fechada e considerando o estado que estava desde a última vez que esteve lá, seria um trabalho duro. Faltando um dia para alta de Levi, pediu dispensa, para ir junto com a diarista coordenar o trabalho. Antes, porém, passou no mercado para comprar produtos de limpeza e aproveitou para comprar plantas novas e alguns mantimentos. As duas não sabiam por onde começar tinha tanta coisa a ser feita, mas “arregaçaram as mangas” e começaram o trabalho. Foram horas limpando tudo e quando terminaram o apartamento ficou irreconhecível.

   Alice pagou, agradeceu a faxineira e a dispensou.   Ela ainda ficou ali para acertar alguns poucos detalhes.  

Foi à lavanderia, onde estavam às plantas que comprou e as distribuiu pela casa toda, reservou a mesa da sala para um vaso de orquídea extremamente florida, gostava de orquídeas, pois duravam mais e requeriam poucos cuidados. Assim Levi não precisaria se preocupar. Pronto! Agora sim ela estava satisfeita.

   Quando estava pronta para ir embora, o porteiro do prédio toca a porta:

   – Oi Dona Alice. Desculpe incomodar, mas é que essas correspondências estavam lá embaixo, gostaria de aproveitar a sua presença e entregá-las.

   – Claro, pode deixar comigo. O Levi volta para casa dele amanhã, e já poderá tomar conta da sua vida novamente.

   – Que boa notícia, e como ele está?

   – Melhor impossível, reagiu maravilhosamente bem ao tratamento.

   – Que bom fico feliz, gosto muito do Sr. Levi, ele sempre foi muito gentil com todos aqui no prédio, tirando um dia que vim aqui e... Não é nada. Agora tenho que descer, pois deixei o faxineiro na portaria no meu lugar.

   – Obrigado Dona Alice.

   – De nada, eu também já estou indo embora só vou pegar minha bolsa e guardar as correspondências. Ah! Obrigada eu.

 

   Alice colocou as correspondências em cima da mesa, quando uma carta lhe chamou atenção. Ficou tentada a abri-la, mas não achou correto fazê-lo. A carta não tinha remetente e a letra do destinatário era muito parecida com a de Levi, resolveu compará-la as das cartas que encontrara – eram iguais – achou aquilo muito estranho e um frio lhe subiu pelo corpo. Ficou com medo, seria possível?

   Pensou por alguns instantes no que deveria fazer. Por fim resolveu abri-la, se não fosse nada do que imaginava, tinha certeza que Levi a perdoaria por isso. Então abriu. E a carta dizia:

        – Prezado Levi,

   Jamais pensei que em tão pouco tempo, pudesse ter alcançado meu objetivo. Como disse você era muito fraco e tinha que abrir espaço para mim, você precisava ir embora para que eu pudesse existir.

   Mas fique tranquilo cuidarei muito bem do corpo que desprezou nestes últimos tempos. Farei melhor uso dele, e quanto aos teus amigos, também, tenho certeza que vão gostar mais dessa nova pessoa. No início podem até estranhar um pouco, mas vão se acostumar. Porque eu não vou ficar parado no tempo esperando as coisas acontecerem, tenho mais garra e determinação e ninguém vai me olhar com pena, vou recuperar o tempo que você desperdiçou.

  Não pense que sou uma pessoa má, não é isso. Na verdade você já havia desistido de tudo eu só aproveitei as sobras.

          O seu grande amigo Estranho, pelo menos agora tem um nome é “LEVI”. Mais uma vez peço desculpas. A propósito, só estou escrevendo para você, caso resolva aparecer, o que espero que não ocorra, não acredito que terá forças para isso. Mas saiba que, quem está no comando agora sou eu, já te destruí uma vez, e farei de novo se necessário.

         Acho que é isso, espero que fique onde está, seja lá onde for. Adeus.

 

         Depois de ler a carta, Alice sentou numa cadeira e chorou compulsivamente, não podia acreditar no que estava acontecendo, aquele “Estranho” havia tomado o lugar do verdadeiro Levi, quem seria agora aquela personalidade que havia dominado a sua mente? Existiria uma forma de trazê-lo de volta? Tudo o que foi feito teria sido em vão?  Não tinha dado nada certo? O tratamento havia sido um grande fracasso?

           Desesperada, foi procurar a única pessoa que poderia ajudá-la a responder aquelas questões, pegou aquela carta e foi direto mostrar ao Dr. Carlos.

   Quando a viu, o Doutor percebeu no seu semblante que estava muito nervosa, e quase não conseguia falar, pediu calma a Alice, e que contasse o que havia acontecido. Alice aos prantos, respondeu:

        – Aconteceu uma tragédia Dr. Carlos, não deu nada certo.

   – Como assim Alice fale logo?

   – O Levi não é o Levi.

   – Alice, por favor, acalme-se e depois explique tudo, vou pegar um copo d’água para você só um instante.

 

 Alice bebeu a água e procurou se acalmar, contou sobre a carta ao Dr. Carlos, que pediu para lê-la. Ele a leu minuciosamente, e quando terminou abriu um sorriso e disse:

        – Não se desespere, pode ficar tranquila.

    – Como assim? O senhor não leu?

    – Alice, durante todo esse tempo que Levi esteve aqui ele foi tratado física e psiquiatricamente, teve apoio.

    Conseguimos explicar a ele o que havia acontecido, como ele chegou àquela situação crítica. Ele sabe que teve um problema grave e aceitou o tratamento muito bem, o que aconteceu foi que agora Levi está de volta. O outro que foi embora era a parte que não lhe servia mais, a parte que o estava destruindo.

     Ele está em uma fase de superar os acontecimentos. E isso não é fácil. Explicamos a ele que é um processo longo. Algumas coisas ele não poderá fazer mais para poder se manter equilibrado. E disse que às vezes ele se sentirá tentado a isso. Teria que ter muita disciplina e nunca esquecer o que aconteceu como forma a mantê-lo sempre muito atento a qualquer deslize. Mas também seria bom que desse um fim aquele lado mais depressivo da sua personalidade.

    Para ajudá-lo sugeri, eu mesmo, para procurar uma maneira de se despedir daquele que seria o lado mais obscuro do seu ser, e acho que foi isso que ele fez. Escreveu a carta, para tentar se livrar de vez daquela fantasia que criou.

    Dentro dele existia alguém muito forte, e foi esse lado que fez enfrentar os seus problemas. Levi apesar de ter se deixado levar pela dependência e psicose que estava sofrendo, projetou em outro “ser” todo seu lado mais forte, e foi esse lado que predominou. Apesar de tudo sua mente estava trabalhando para ajudá-lo. Depois quando chegou aqui, e com os medicamentos e o tratamento adequado, ficou mais fácil para esse “lado” vencer.

   – O que o senhor quer dizer?

   – Alice, se Levi não tivesse tido a assistência necessária, o lado vencedor talvez fosse outro, e realmente o fim dessa história poderia ter sido diferente.

 

   Alice demorou a aceitar aquela situação, era tudo tão complexo. Aos poucos foi se acalmando e começou a digerir tudo aquilo que o doutor falou, existia uma lógica, mas era tudo tão louco que parecia ter saído de uma história de ficção.

   Mas ela estava realmente disposta a ajudar Levi a melhorar, e não deixar que ele abandonasse o tratamento, apesar de perceber nele a vontade de ficar inteiro. Depois disso Dr. Carlos achou que Levi estava realmente pronto para ir para casa. Foi se despedir de Levi fez algumas recomendações e desejou boa sorte.

    Alice o acompanhou até o seu apartamento e durante o caminho contou que Janis havia pagado algumas contas atrasadas, e que em breve viria lhe fazer uma visita, quando eles entraram, Levi ficou surpreso com o que encontrou, olhou tudo como se fosse à primeira vez, não sabia como agradecer Alice. Ele chorou, só que dessa vez, seu choro não era de tristeza era de alegria por estar melhor e por ter tido a sorte de ter amigos tão generosos. Abraçou Alice, e pediu desculpas.

   – Não sei por que não falei sobre as minhas angústias com você Alice, isso não precisava ter acontecido dessa forma.

   – Saiba que pode contar comigo para tudo, estarei ao seu lado sempre que precisar.

   – A propósito adorei as orquídeas, são as mais belas que já vi – disse Levi emocionado.

 

   Os dias passaram e Alice começou a acompanhar Levi mais de perto. Pode perceber que era a mesma pessoa, suas lembranças do ocorrido aos poucos iam voltando, e a cada fato que lembrava contava a ela.

    Quanto ao resto de sua vida tinha as mesmas lembranças, porém seus conceitos haviam sido reformulados, alguma coisa realmente estava diferente, estava feliz, tinha uma vida mais saudável, estava seguro de si, e sua postura perante a vida havia mudado completamente, se tornara ousado e demonstrava que sabia exatamente o que queria. Passou a ter uma visão mais positiva da vida, na verdade ele a valorizava.

   Observando tudo aquilo, Alice arriscou uma pergunta:

   – Queria te perguntar uma coisa Levi?

   – Claro Alice, pode perguntar o que quiser.

   – Por que escreveu aquela carta para você mesmo? Fiquei assustada quando li.

 

   E ele respondeu:

 

   – É como estava escrito lá Alice. É para que eu saiba que aquilo pode acontecer de novo. E se eu me sentir tentado a fraquejar, sempre lembrar quem está no comando. Somos frágeis, e temos que cuidar da nossa felicidade. E para isso é importante que não abandonemos nossos sonhos e desejos juvenis, são “eles” que nos mantém vivos. Não podemos abrir mão. Sempre há tempo para lutarmos por algo. Estamos aqui para aprender e temos que honrar esse dom divino que é a vida.

   Durante muito tempo vivi perdido, não sabia traçar objetivos. Por consequência deixei as coisas acontecerem, sem me preocupar se era certo ou errado, se aquilo estava me fazendo bem ou mal. Até que perdi o controle total da situação. Percebo que a responsabilidade que temos sobre nós é muito grande. Devemos ter um olhar mais carinhoso sobre nossas vidas, não podemos decepcionar a nós mesmos.

  – E o que acha que aconteceu com aquele outro Levi?

  – Acho que ele está em algum da minha mente. Sei que “Ele” existiu, é uma parte minha também. Lógico que vou continuar passando por problemas e frustrações. O que espero que mude é a forma como vou enfrentá-los. Mas, desejo que “Ele” também tenha encontrado o seu caminho.

   Os dois riram e resolveram andar um pouco para aproveitar aquela linda tarde de primavera.

 

 

 

 

CAPÍTULO XVI

 

 

     ONDE MORA A VERDADE

 

 

Mais um dia começava na Clínica de Repouso e Saúde Mental – Jardim das Flores.

Carlos, era um dos enfermeiros do local, quando chegou cumprimentou o rapaz da portaria (ele era um tipo sério com cara de mau), mas fazia parte de sua profissão ser assim, os pacientes ficavam um pouco receosos de se aproximar dele e assim evitava qualquer tipo de escapulida.

           Carlos continuou andando por uma estrada de pedra que levava a sede da Clínica, o caminho até lá era maravilhoso, árvores grandes e flores de várias espécies, que eram muito bem cuidadas por Seu Custódio, o jardineiro do local; possuía uma linda fonte com um barulho intenso que lembrava o som de uma cachoeira ou das ondas do mar.

                 Na Clínica existiam várias pessoas com algum tipo de transtorno mental ou dependência química, uma das mais alegres era Janete, uma senhora de mais ou menos 60 anos que havia parado no tempo, havia sido hippie e adorava ouvir músicas daquela época, principalmente Janis Joplin, vivia pedindo para Marina a recepcionista do local para colocar as músicas para ela. Janete abusou do consumo de drogas e numa situação horrível foi abusada sexualmente por vários homens, ficou muito traumatizada; depois disso, acabou criando um mundo de fantasia e vivia feliz dessa forma, mas era muito prestativa e ajudava em todos os trabalhos que precisavam ser feitos ali. Bia era Assistente Social que atendia as famílias que visitavam os pacientes e tentava ajudar da melhor forma possível essa integração paciente e família.

     Eventualmente alguns grupos vinham fazer algum tipo de apresentação, um grupo de Bolivianos cantava canções típicas pelo menos umas três vezes ao ano, além de uma banda de forró que geralmente vinha em junho para as festas juninas, esses eventos eram elaborados, por duas senhoras religiosas, que faziam um trabalho voluntário ali na Clínica.

     A clínica era chefiada por um médico estrangeiro, na verdade ele era Italiano com sotaque muito forte, por isso quando ele não estava presente, os funcionários lhe chamavam de “Dr. Straniero,  ele era um médico muito competente e querido por todos ali.

    Levi estava em sua cadeira de rodas observando uma linda orquídea pendurada em uma árvore, quando Alice apareceu e ficou conversando com ele, também era interna e se afeiçoou muito a Levi, logo que ele chegou nesse lugar e ficava horas com ele, por vezes parecia sua consciência.  Levi não se comunicava verbalmente desde um acidente que sofreu. Ele havia saído de uma festa, muito bêbado e acabou batendo muito forte em um poste de luz perto de sua casa e ficou com algumas sequelas, depois de um grande período no hospital, ele foi levado para lá. Ficava ali parado observando tudo, as pessoas que trabalhavam na clínica tinham até dúvida se ele realmente  entendia aquilo que lhe diziam. Como não tinha família e havia sido criado em um orfanato, não teve muitas oportunidades na vida, então o dono da empresa que trabalhava se compadeceu da situação e pagava aquela clínica, era tudo que pode fazer por ele.

     Levi ficou olhando por um bom tempo aquelas flores, até fechar seus olhos, Alice nem percebeu que talvez Levi não estivesse mais ali. Alice levantou e começou a empurrar a cadeira de rodas, quando a cabeça de Levi caiu para frente, assustada, a levantou e tentou reanimá-lo, porém já era tarde, mas notou um leve sorriso em sua face, era como se ele estivesse preparado para partir.

 

 

 

CAPÍTULO XVII

 

 

 

      JARDIM DE FLORES MENTAIS

 

 

   “Levi” sentia-se diferente. Não sabia onde estava. Existia em um lugar que nunca tinha visto antes. As cores eram cintilantes, e possuíam tantas variações de tons, que seria impossível de calcular.

   Pássaros voavam como se não precisassem de asas, o rio que cortava as planícies, possuía água tão clara, que só se notava a sua existência pelo barulho que fazia e pelos peixes que nele flutuavam.

   Era tudo tão esplendoroso e tranquilo que ele parecia não tocar o chão.

   Continuou andando em direção a algumas árvores robustas, com formas que lembravam pessoas. Depois de passar por elas, pode perceber que talvez tivesse chegado ao seu destino.

   Havia flores tão lindas, grandes, exóticas e multicoloridas, com formas e perfumes que ele nunca havia visto ou sentido antes, nem no melhor dos seus sonhos. Tamanha a beleza que poderia passar ali o resto da sua existência.

  As palavras não faziam mais sentido algum, elas não precisavam mais existir, não lembrava nada, sua mente estava ficando vazia e isso não lhe fazia falta, estava relaxado. Sentia-se parte, não um mero observador.

  Estava se tornando tão belo quanto aquele mundo. E aos poucos, foi se misturando, se integrando e sendo absorvido por aquele lugar. E quando não tinha mais consciência alguma sumiu, desapareceu completamente naquele jardim. Levi estava em paz.

 

     *****************FIM*****************

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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