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SEM FINAL FELIZ - parte 2

5/6/2018

 

Essa manhã, Charles veio me visitar e ficou encantado ao me ver usando o caderno. Disse que eu finalmente estava algo bom da minha vida. Acho que ele só quer saber dos meus podres. Esse caderno foi só um pretexto. Talvez, quando eu morrer, ele virá no meu quarto, levará o caderno embora como quem não quer nada e, na calada da noite, lerá como um garoto no cio. Tomara que ele se surpreenda com as minhas histórias. Mas eu não tenho certeza. Não me surpreendo mais com essas coisas, talvez pelo fato de que elas se tornaram banais demais para mim.

De qualquer forma, ele também me trouxe café e mais maços de cigarros. Cigarros não são permitido no hospital, mas eu paguei o suficiente para que todos ficassem de bico fechados.Tenho dinheiro de sobra e, bem, não tenho herdeiros, por isso me faço a Silvio Santos e distribuo como se não houvesse amanhã.

Comemos o café da manhã juntos. Ele é uma boa companhia desde o dia em que cheguei aqui. Não entendo os motivos para isso, acho que ele foi com a minha cara, ou só tá curioso. Até pouco tempo atrás eu me gabava por achar que conhecia todo tipo de homem, de saber o que se passava na cabeça deles, mas Charles é diferente. Não é o tipo de cara que paga para sair com mulheres, ele é daqueles que gosta de seduzir, jogar e levar pra cama um prêmio. Mas às vezes acho que não. Já cheguei a pensar que ele era gay e até assexuado. O fato é que eu não sei qual é a dele. Se eu perguntei? Mas é lógico que sim! E eu sou lá de fazer rodeios? Tudo o que penso, acho, quero saber, solto como um terremoto, muitas vezes saem palavras que nem deveriam sair. Mas Charles é esperto, se esquiva, troca de assunto, foge de tal forma, de maneira tão charmosa e inteligente que eu mal percebo que fui driblada.

Assim que terminamos o desjejum, ele sai dizendo que fará uma ronda de seringas e depois voltava. Por mais que eu ache que ele está curioso ao meu respeito, jamais fez perguntas íntimas demais e nem sequer pediu para ler as páginas desse caderno, o que torna ele misterioso demais. Gosto… me instiga, sabe? No meio desse tédio todo, ter um puzzle como o Charles é até divertido.

 

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