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O homem da fonte

 

 

Abriu os olhos. O sol já estava a pino no céu e a sua visão demorou um tempo para se acostumar com a luz forte. Era um dia quente de verão, e os dias de verão eram quase tão difíceis quanto os de inverno. Na verdade, ele não possuía nenhuma estação preferida, quase todas pareciam a mesma coisa, seu sentimento em relação à elas era quase nulo. Pensou sobre os pensamentos nulos. Na verdade, aquele dia também seria nulo para ele. E quase todas as coisas eram assim. Não havia diferenciação entre os sentimentos, entre as coisas, não havia prazer. Elas simplesmente eram. Simplesmente  existiam. Se delongou um pouco naquela mesma posição e enfim se deu conta que todas aquelas reflexões não eram para ele. Em sua condição, refletir era um defeito. Apesar de ser algo difícil - o ato de não divagar - ele entendia essa era a razão dele ainda estar ali, na terra. Era algo tão crucial quanto o sol é para aquela árvore que o cobria e proporcionava aquela maravilhosa sombra. Resolveu levantar logo, antes que usasse mais seu cérebro. Seu corpo dolorido e desgastado saiu da posição horizontal. Olhou para baixo, em direção às suas roupas surradas. Esticou as mãos sujas, com unhas encardidas e pegou seus pertences (uma sacola plástica de mercado). Pôs a movimentar seus pés descalços e machucados no chão fervente. Já estava acostumado. Retirou de dentro da sacola um pequeno pedaço de sabão velho, uma bermuda reserva, e passou a lavá-la na água corrente que a fonte da praça principal proporcionava. Era mais um dia qualquer que se passava, tranquilo, inquestionável, indiferente. Continuou a trabalhar enquanto os carros da cidade passavam ao seu redor, despreocupados da mesma forma, com toda a normalidade do mundo, inquestionáveis e indiferentes. E para o homem da fonte, o seu único luxo era  se dar conta que dali a algum tempo precisaria de uma nova bermuda.

 

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