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SEM FINAL FELIZ - PARTE 3

8/1/2019

 

 

Assim que terminamos o desjejum, ele sai dizendo que fará uma ronda de seringas e depois voltava. Por mais que eu ache que ele está curioso ao meu respeito, jamais fez perguntas íntimas demais e nem sequer pediu para ler as páginas desse caderno, o que torna ele misterioso demais. Gosto… me instiga, sabe? No meio desse tédio todo, ter um puzzle como o Charles é até divertido.

 

***

 

Será que vai demorar muito para acontecer? Digo, a morte? Às vezes tenho enxaquecas que demoram horas, até dias para ir embora. Como essa doença que contraí é raríssima, os sintomas são ainda desconhecidos, o que se sabe até agora é que o tal vírus “mutado” sai por aí atacando as células boas, deixando-as enlouquecidas. Os órgãos, vão parando aos poucos e eu vou tendo todo o tipo de sintomas relacionados com doenças específicas, como ataque cardíaco, gastrite, constipação e por aí vai. Ou seja, é como se eu tivesse todas as doenças aos poucos. Não é que os órgãos param, eles vão deixando de funcionar e eu vou sentindo o peso disso. Mas até o momento, me sinto bem.

Descobri que estava mal quando urinei sangue. Achei que estava menstruada fora do tempo. Não liguei, coloquei um absorvente e continuei. Depois, meu ouvido começou a sair pus. Fui no médico e, logicamente, diagnosticou como infecção. Tomei remédio, passou. Depois, veio a gripe e ela nunca mais foi embora. Estou sempre tossindo, fungando, com os olhos lacrimejados. Um horror. Como não passava, fui de novo no médico e fui receitada devidamente para gripe. Mal sabia eu que minha imunidade estava indo para o saco. Os remédios não estavam adiantando por muito tempo. A menstruação não ia embora, o pus no ouvido estava sempre voltando e a gripe era companheira assídua. Aí começaram os sintomas mesmo da AIDS: febre, erupções na pele, fadiga, dores para tudo quanto é lado. Achei que poderia ser, por alguma obra do destino, azar. Sempre fui cuidadosa ao extremo, afinal, meu corpo era minha ferramenta de trabalho e, se minha ferramenta não estava bem, como poderia trabalhar? Passei de um hospital para o outro. Comecei a tomar o tal coquetel, mas não adiantava. Milhões de exames depois disseram que eu poderia ter a tal doença impronunciável. Como minha imunidade foi extinta, precisei ficar em quarto isolado. Na verdade sou quase que um rato de laboratório, como eles não sabem como a nova doença reage, eu sou a cobaia dos estudos. E tudo bem! Que minha experiência possa servir de alguma coisa no futuro. Quem sabe um dia descobrem a cura e colocam meu nome nela? Pelo menos meu nome é mais fácil de falar. Também espero estar viva quando isso acontecer…

 

***

 

Eu nunca fui exatamente uma santa. Meus pais sempre foram muito cuidadosos com minha educação. Nunca me faltou nada. Fui para as melhores escolas, tive os melhores amigos, li bons livros, vi bons filmes, escutei muita música boa e ruim. Até os 16 tive uma vida muito prazerosa, regada das melhores coisas. Também usufrui de uma liberdade que mal cabia dentro de mim, podia ir e vir a hora que eu quisesse e para onde bem entendesse. Meus pais achavam que eu tinha cabeça boa e confiavam em mim. E deveriam, pois por mais que eles não pedissem, eu sempre dizia para onde ia e com quem iria, e de quebra, já dava a hora da chegada e nunca menti a esse respeito. Porém, eu nunca fui santa. Apesar da casca de fora e de minhas atitudes, por dentro algo latejava. Algo parecia estar errado ou faltando. Meu corpo e alma pulsavam por alguma coisa que eu desconhecia totalmente. Havia sempre um vazio, um buraco que eu tentava preencher com as coisa mais loucas possíveis. Cheguei a achar que era depressão. Fui para psicólogos, psiquiatras, tomei remédios, larguei todos eles e cai no álcool sem ficar viciada. Por incrível que pareça, beber nunca foi minha praia, mas quando eu fazia, fazia sem dó. Fogo de palha, coisa de adolescente. Se via que estava ficando “alta”, já parava. Meu estômago não era forte o suficiente. Eu só queria ficar alegre e silenciar o silêncio ensurdecedor daquele abismo gigante dentro de mim.

 

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